Como boa parte da Humanidade, Victoria Garcia descobriu a música coreana com o inevitável hit “Gangnam style”, lançado em 2012 pelo cantor Psy e hoje com mais de seis bilhões de visualizações no YouTube. Foi em 2020, na pandemia, que Victoria, hoje uma advogada de 28 anos, chegou ao K-pop, ou pop sul-coreano. — Eu era muito fã do programa “Carpool karaoke”, do James Corden (em que o apresentador passeia de carro com artistas, cantando suas canções com eles) e, na época do confinamento, ficava horas vendo os vídeos antigos — lembra ela, que tem o costume de viajar para ver shows e festivais. — Cheguei ao vídeo do BTS no carro com ele, e foi um caminho sem volta. Uma das particularidades do K-pop, que ganha um dia para chamar de seu nesta edição do Rock in Rio, com o grupo Stray Kids como atração principal, é a total dedicação aos fãs, o que arrebatou a (ainda mais) jovem Vicky na pandemia. — Uma das coisas mais legais é a quantidade de conteúdo que os artistas produzem, muito diferente das bandas ocidentais — avalia ela. — Tudo é pensado para o fã. Se eles ganham um prêmio, fazem uma live para conversar com os fãs; se viajam de férias, tudo é registrado num reality show. E tudo é muito bem trabalhado, como os clipes. Tons de Lars von Trier O antropólogo Hermano Vianna, pesquisador da música mundial, tem carinho especial por um dos vídeos. — Um dos meus clipes preferidos de todos os tempos é “55”, de Code Kunst, uma espécie de “Melancolia”, o filme de Lars von Trier, traduzido para a linguagem K-pop, retrato cruel do fim do mundo que estamos vivendo — diz Hermano, que enxerga uma “diversidade impressionante” no K-pop. — O K-pop é o case perfeito para provar que austeridade é papo para boi de Parintins dormir/sumir. Houve ali investimento cultural pesado do estado coreano, sem garantia de sucesso, criando uma enorme indústria, milhares empregos e soft power onde não havia quase nada. Ou seja: as plataformas de streaming estão repletas de doramas, as novelas coreanas, e “Parasita”, produzido lá, ganhou o Oscar, e nada disso é por acaso. Além do octeto (sim, as boy bands do K-pop são numerosas, e os fãs sabem tudo sobre cada um dos cantores, além de eleger seus favoritos) Stray Kids, a Coreia do Sul está representada por Hwasa, nome artístico da diva pop Ahn Hye-jin, de 31 anos, estourada com sua versão em coreano de “Physical”, de Dua Lipa (que por sua vez faz uma citação a “Physical” de Olivia Newton-John), além de músicas como “María” e “Twit”. A boy band japonesa Nexz completa o passeio pela Ásia no Palco Mundo, que ainda tem o goiano Alok, freguês do festival, e seu projeto “Keep art human”. — Empresas da Coreia aproveitaram o incentivo estatal, fizeram antropofagia do modelo de negócio das boy bands e da moda idol japonesa e surfaram no sucesso que marcas coreanas, como Samsung ou Topic, já haviam conquistado no mundo todo. Isso misturado a muita criatividade musical, visual, dançante. Hoje, a receita é copiada por muitos países, sobretudo pela China — explica Hermano. Segundo em importância no line-up do Palco Mundo hoje, Alok faz um alerta contra a dominação do mundo pela inteligência artificial com seu “Keep art human” (mantenha a arte humana). Ele promete, além do som, um espetáculo visual de impacto, com 45 bailarinos no palco e 1.500 drones no céu. Meninos bonitinhos cantando em coreano e dançando (embalados por gritos histéricos), música eletrônica, drones... Os pais dos adolescentes estariam prestes a entrar em desespero, não fosse o Palco Sunset, com a tradicional estratégia do Rock in Rio de pensar em várias gerações. O headliner do espaço é o grupo inglês Jamiroquai, outrora definido como “acid jazz” (o que era isso mesmo?) ou “jazz funk”. Rótulos à parte, o som dançante do cantor Jay Kay e de sua banda (que inclui o percussionista brasileiro Fábio de Oliveira) embala festas e pistas no Brasil há décadas, desde o estouro com músicas como “Space cowboy”, “Virtual insanity” e “Deeper underground”, nos anos 1990. O Jamiro não vem ao Rio há 15 anos, desde o Rock in Rio de 2011. Soul na alma do Sunset O Sunset tem ainda o soul elegante do americano PJ Morton — o gênero está em alta no festival, depois de shows como o tributo à Motown de Péricles e o escorregadio Ne-Yo —, os queridões Garotin, que recebem Duquesa, e a MPB elegante de Jota.Pê. Atenção: não confundir PJ com Jota.Pê e nem com o rapper Jotapê. São três artistas diferentes. Aliás, PJ volta ao Rock in Rio amanhã: ele é tecladista do Maroon 5. — Quando eu trouxe Travis Scott (astro americano do trap, em 2024), vi que o dia foi uma dureza para os pais, todo mundo sofreu para ir — lembra Zé Ricardo, curador do festival e soulman. — No The Town, quando o Travis veio de novo, eu já trouxe a Lauryn Hill, porque aí o pai fala que quer ir também. Então, a ideia é criar também dias de curadorias independentes, porque o Rock in Rio talvez seja o festival que mais abraça as gerações. Ou seja: os pais podem relaxar e dançar, envergonhando os filhos em paz.
K-pop in Rio: com Stray Kids e Hwasa gênero coreano ganha dia para chamar de seu no festival; confira
Som que ganhou o mundo com Psy e BTS ocupa Palco Sunset, cujo headliner é o grupo inglês Jamiroquai, que toca 'acid jazz'










