Grupos, em sua maioria femininos, prometem invadir a Cidade do Rock para ver, especialmente, Stray Kids 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cecília Vargas, fã de cultura coreana, com o artista Kang tae-Oh — Foto: Arquivo pessoal RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Para muitas mulheres maduras, o fandom de K-pop funciona como um espaço essencial de lazer e sociabilidade. O grupo ajuda a superar momentos difíceis, como divórcios. Letras sobre superação e amor-próprio servem de alento contra a depressão. Fãs relatam que os shows representam um grito de liberdade e autodescoberta tardia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Hoje, a mais velha das duas filhas da professora universitária Marcela Schneider, de São Paulo, completa 16 anos, e a comemoração é no dia do K-pop no Rock in Rio. A festa, no entanto, não é somente da adolescente. É da mãe também. Marcela, de 46 anos, faz parte do grande, mas pouco lembrado, grupo de fãs do gênero com mais de 40 anos. Ele promete invadir a Cidade do Rock e disputar com a Geração Z cada centímetro do gramado, especialmente para assistir ao grupo headliner, o Stray Kids. —Sempre fui reticente com boy band. Aqui em casa, eu era mais do rock, embora, quando adolescente, gostasse do New Kids on the Block. Mas nunca tive comportamento de fã, de comprar coisas, por exemplo — diz Marcela, que conheceu o Stray Kids pela filha e hoje enfeita a bolsa com broches e bonequinhos dos oito rapazes que compõem a banda. A bolsa de Marcela Schneider — Foto: Arquivo pessoal O mesmo “comportamento de fã” tem a arquiteta recifense Cecilia Vargas, de 46 anos, sempre na busca por encontrar os ídolos asiáticos. Com frequência, vai a São Paulo, cidade onde acontece a maioria dos chamados fan meetings, encontros de fãs, muitos deles com artistas. É, inclusive, uma das administradoras do “Dorama delas”, conta com mais de quatro mil pessoas no Instagram (@dorama.delas) e 200 num grupo de WhatsApp. Boa parte dessa turma já chegou à meia-idade, segundo Cecilia. —Trocamos informações sobre onde vai ter shows e encontros e nos organizamos para ir — diz a pernambucana, que está no Rock in Rio com mais nove pessoas e vai ao show do BTS, em São Paulo, em outubro, com outras 65, uma delas com quase 80 anos. — Nosso grupo virou uma válvula de escape, um espaço de conexão de gostos e vontades. Superação pós-separação Cecilia mergulhou no universo de música e TV sul-coreana depois de uma separação. Encontrar outras mulheres fãs dos mesmos conteúdos a ajudou na reconstrução da vida pós-casamento. Este movimento não é trivial. É uma marca dos fandoms (termo em inglês para comunidade de fãs) mais velhos, majoritariamente femininos, de K-pop e outros produtos culturais. — Existem alguns dados de que as mulheres, em geral, não trazem os lazeres da infância para a vida adulta, muitas viram mães e ficam com todas as tarefas de cuidado e trabalho da casa —diz Adriana Amaral, professora UFF e pesquisadora de cultura de fãs. — São elas que reclamam da perda de amizades por causa das obrigações do sistema capitalista. O fandom, então, funciona hoje como espaço de lazer, sociabilidade, troca e conhecimento. Stray Kids e BTS (a maior de todas as bandas de K-pop, que se apresenta em São Paulo em 28,30 e 31 de outubro) tiveram um papel transformador para a psicóloga Soraia Freitas, de 52 anos, que vai assistir às duas bandas. Com o fim do casamento e uma depressão, ela encontrou um alento nas letras sobre superação e amor-próprio, temas bastante explorados no K-pop. —Estar neste Rock in Rio vai ser um grito de liberdade. Essas bandas me fazem muito bem e ninguém vai me julgar ou me desqualificar — diz ela, que foi ao festival em 2015 para assistir a Rihanna, com o então marido e os dois filhos. —Foi meio castrador, eles não queriam andar, ficamos lá no fundo. Agora, é o meu Rock in Rio, onde vou poder ser quem quero ser. Um ponto em comum na história desses fãs são os relatos de piadas e estigmas que ouvem por gostarem de uma boy band ou girl band. Pesquisadora de cultura coreana na UFF, Danielle Mazur enxerga sexismo no discurso, que, muitas vezes, vêm de dentro da própria família. —Existe uma frente muito clara, machista, de sempre criar uma perspectiva pejorativa de que isso é “pra meninas” e, mais ainda, para crianças e adolescentes. Homem pode enlouquecer por futebol até morrer, mas ai da mulher que paga um show do BTS com o próprio salário. A entrada via Streaming Com a professora carioca Danielle Ferreira é diferente. O marido não é fã de K-pop, mas vai com ela ao show do Stray Kids. O combinado entre os dois foi: ele a acompanha hoje, mas ela precisou ir com ele no sábado passado, dia dedicado ao heavy metal. Troca justa para quem detém o hábito de consumir música e audiovisual asiático desde a pandemia. — Com o streaming, acabei tendo mais contato com séries da Coreia, do Japão e da China. Comecei a consumir bastante, e elas me levaram à música — diz Danielle, que já foi a um show do Stray Kids em fevereiro, no Engenhão, e visitou a Ásia no ano passado. A retroalimentação entre TV e música é recorrente. Quem começa consumindo um rapidamente está no outro. Muitos artistas atuam nas duas frentes, e as indústrias se apoiam mutuamente. A lógica de consumo digital, aliada a uma política de expansão da cultura sul-coreana, só facilita essas trocas. — Há muito investimento governamental para entrar num fluxo transnacional, dentro de um fenômeno de descentralização da cultura pop (além da americana) — diz Adriana