Relator das investigações do caso Banco Master, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou nesta quarta-feira (9) o acordo de colaboração premiada do operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, dono da Entre Investimentos e Participações. A empresa foi utilizada para repasses de dinheiro entre o banqueiro Daniel Vorcaro e a produção de “Dark Horse”, o polêmico filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. O grupo Entre é controlador da revista IstoÉ e da Entrepay, que sofreu liquidação extrajudicial pelo Banco Central em março deste ano. Em janeiro deste ano, a Entre foi alvo de busca e apreensão no bojo das investigações do caso Master. Em depoimento à Procuradoria-Geral da República (PGR), Freixo Júnior confirmou ter realizado ao longo do ano passado sete transferências bancárias para o fundo Havengate que totalizam US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 69 milhões no câmbio da época), a pedido de Vorcaro. O fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, é administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, próximo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e foi usado para o financiamento de “Dark Horse”. O filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, que aborda a campanha política de 2018, com destaque para a facada no ex-presidente, só vai estrear nos cinemas depois das eleições deste ano, conforme antecipou o blog. Para os investigadores, a delação de Freixo pode ajudar a obter os registros da movimentação do Havengate nos Estados Unidos e reforçar o argumento junto às autoridades norte-americanas de que é preciso uma cooperação bilateral para o aprofundamento das investigações. “Dark Horse” abriu uma crise na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após o site Intercept Brasil publicar mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção. Após o episódio vir à tona e afetar o seu desempenho nas pesquisas eleitorais, Flávio havia prometido apresentar em detalhes as contas do filme, mas depois mudou o discurso, tentou se desvencilhar do caso e vem alegando que o assunto é “página virada”. Saiba quem interpreta a família Bolsonaro em 'Dark Horse' 1 de 5 Jim Caviezel vive Jair Bolsonaro — Foto: Divulgação 2 de 5 Camille Guaty vive Michelle Bolsonaro em 'Dark Horse' — Foto: Divulgação X de 5 Publicidade 5 fotos 3 de 5 Marcus Ornellas vive Flávio Bolsonaro em 'Dark Horse' — Foto: Divulgação 4 de 5 Sergio Barreto vive Carlos Bolsonaro em 'Dark Horse' — Foto: Divulgação X de 5 Publicidade 5 de 5 Edward Finlay vive Eduardo Bolsonaro em 'Dark Horse' — Foto: Divulgação Pedido de Flavio Bolsonaro a Daniel Vorcaro por financiamento trouxe filme de volta ao noticiário Na última terça-feira (8), a defesa de Mineiro foi ao gabinete do relator do caso Master para confirmar aspectos do seu acordo de colaboração, como a voluntariedade, a regularidade e a legalidade da negociação. É uma etapa prevista na lei e que antecede a decisão do ministro de homologar o acordo, que foi validado agora. As transferências bancárias de Mineiro ao Havengate, em tese, seriam destinadas à produção de “Dark Horse”, mas uma das linhas de investigação da PF e da PGR é verificar se os repasses também não serviram para financiar o autoexílio de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O filho 03 de Bolsonaro se mudou para o Texas em fevereiro de 2025. sob a alegação de estar sofrendo perseguição política no Brasil. As parcelas ao Havengate foram efetuadas entre fevereiro e setembro de 2025 – o sétimo pagamento, de US$ 1,66 milhão (cerca de R$ 9 milhões à época), foi revelado pela revista piauí. Além das transferências bancárias para o Havengate, Mineiro relatou aos investigadores ter efetuado uma série de entregas em dinheiro vivo, inclusive em malas, para terceiros indicados por Vorcaro. Mas o delator alegou que não sabia para que finalidade seriam os repasses. Segundo a equipe da coluna apurou, o delator relatou à PGR que comprou tantas malas por meio de uma loja virtual de comércio eletrônico que a própria fabricante entrou em contato para que ele as adquirisse diretamente com ela. 72% dos gastos de ‘Dark Horse’ ocorreram nos EUA, diz perícia privada De acordo com uma perícia privada contratada pela Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, das cinco fases de realização do projeto, apenas uma (as filmagens) ocorreu no Brasil. As demais foram feitas nos Estados Unidos. A Go Up nunca lançou nenhum filme nos cinemas brasileiros. A perícia também apontou que 72% dos gastos com o filme ocorreram nos Estados Unidos e apenas 28% no Brasil. Ao todo, “Dark Horse” teria custado US$ 13,39 milhões, o equivalente a R$ 75,18 milhões na cotação de câmbio utilizada pelo perito Anísio Costa Castelo Branco. Os gastos nos EUA incluem não apenas a pré-produção (US$ 2,66 milhões) e a pós-produção do filme (US$ 1,96 milhão), mas também a produção (US$ 1,97 milhão), além de despesas com o desenvolvimento do projeto (US$ 383,2 mil) e a fase chamada de "soft production" (US$ 2,69 milhões), focada em questões logísticas e administrativas, anterior à pré-produção. Segundo cinco produtores do mercado audiovisual brasileiro ouvidos reservadamente pelo blog, os gastos com as etapas iniciais do filme foram estratosféricos. Eles chamam atenção para o fato de que, segundo a perícia, os gastos na “soft produção” (uma fase embrionária de definição de questões conceituais do filme) de US$ 2,68 milhões representam 20% do orçamento total de US$ 13,39 milhões. Em média, um filme reserva entre 3% a 5% do seu orçamento para essa etapa. Na “soft pré”, como é chamada no mercado, são realizadas reuniões preparatórias apenas com o núcleo duro da produção, nas quais começam a ser definidas as principais diretrizes criativas e técnicas do filme, como a escolha de atores e locações, definição sobre fotografia (como os tipos de câmeras que vão ser usadas para as filmagens), além de conceitos de figurinos, por exemplo. Já a pré-produção de “Dark Horse” custou US$ 2,66 milhões, ligeiramente menos que a soft, de acordo com o documento elaborado pelo perito Castelo Branco. Isso também provocou estranhamento, já que essa segunda etapa envolve a mobilização das diversas equipes de cada área, com a elaboração de figurinos, viagens de preparação técnica para as filmagens e ensaios com o elenco escolhido. No mês passado, a PF cobrou da Go Up esclarecimentos sobre “aspectos financeiros, contratuais e operacionais” do filme. A resposta foi encaminhada na última sexta-feira (4). Roteiro Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, o filme recria cenas como um debate presidencial, mas sem usar os nomes dos adversários que enfrentaram Bolsonaro naquele pleito. O autor do atentado em Juiz de Fora (MG) é retratado como um militante de esquerda, mas não se chama Adélio Bispo. Um rascunho do roteiro explora a relação de Bolsonaro e Michelle, com cenas do casamento dos dois, o parto da filha Laura e o apoio da mulher durante a campanha eleitoral de 2018. “As coisas que dizem sobre você... Isso me assusta. Estão tentando provocar alguém para te machucar”, afirma a personagem da ex-primeira-dama, em tom premonitório. “Nossa filha precisa de você. Eu preciso de você.” Em outra cena, os personagens de Michelle, Flávio e Eduardo Bolsonaro conversam com o “doutor Tavares” nos corredores de um hospital após o atentado. “Deus está com ele, doutor”, afirma Michelle ao médico. O uso de imagens reais ocorre no final do filme, com registros da posse presidencial de Bolsonaro em Brasília. No entorno de Flávio, a leitura é a de que as escolhas narrativas do roteiro, co-assinado por Mário Frias (PL-SP), e a estreia após as eleições afastariam os argumentos de que o filme pode promover a candidatura do senador à Presidência da República. Estratégia de lançamento Conforme informou o blog, a Europa Filmes planeja um lançamento de grande porte para o filme sobre o atentado à faca contra Bolsonaro em 2018. A ideia é que "Dark Horse" seja exibido em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2” – e com cópias dubladas espalhadas por todo o país. Em meio à polarização política que pode invadir os cinemas, o diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, trabalha com três cenários para a performance comercial de “Dark Horse”. Na pessimista, o filme sobre Bolsonaro repete o fraco desempenho de “Lula, o Filho do Brasil”, lançado em 2010, e atrai 800 mil espectadores. Na realista, faz entre 1,5 milhão e 2 milhões de espectadores. Na otimista, supera os 2 milhões – um patamar alcançado por poucos filmes nacionais lançados no pós-pandemia, especialmente os voltados para o público adulto. Para efeito de comparação, “O agente secreto” atraiu 2,4 milhões de espectadores ao longo de quatro meses em cartaz, turbinado pelo mar de premiações e as quatro indicações ao Oscar – algo que “Dark Horse” não deve ter a seu favor, como admite o próprio Feitosa.
André Mendonça homologa delação premiada de operador de 'Dark Horse'
Mineiro relatou aos investigadores ter efetuado uma série de entregas em dinheiro vivo, inclusive em malas, para pessoas indicadas por Daniel Vorcaro










