Comitiva da Índia em visita a produtores de algodão no Brasil. A exportação disparou — Foto: Wenderson Araujo/Divulgação Os desafios para as empresas brasileiras com cadeias de valor internacionais ganharam complexidade nos últimos anos, em um ambiente mais fragmentado e imprevisível. A competitividade ainda depende de elementos básicos como câmbio, preço e qualidade. Mas passou a pesar mais na equação a capacidade de diversificar mercados, reduzir a dependência de fornecedores, fortalecer cadeias de suprimentos, antever movimentos políticos e aproveitar oportunidades criadas pela reorganização do comércio global. Mesmo com tantos desafios, as exportações brasileiras seguem positivas, garantindo superávits recorrentes na balança comercial. Nos últimos cinco anos, diversos acontecimentos no cenário global exigiram flexibilidade extrema de muitas empresas. A série começou com a crise das cadeias de suprimentos causada pela pandemia de covid-19. Na sequência, a invasão da Ucrânia pela Rússia mudou a lógica internacional do comércio de energia, fertilizantes e grãos. O acirramento da guerra comercial entre China e Estados Unidos deslocou fluxos de comércio de bens e serviços. A guerra no Irã acentuou a instabilidade. Mais recentemente, a adoção de políticas protecionistas pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos obriga parceiros comerciais, incluindo o Brasil, a rever suas estratégias. “A gente claramente tem um mundo mais instável, embora nossa balança comercial venha muito bem. O ambiente tem exigido mais [das empresas e governos], com instabilidade de preços e questões geopolíticas”, comenta Livio Ribeiro, professor associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV). Ele acrescenta que as mudanças reforçaram a tendência da pauta de exportações brasileira de se concentrar em produtos básicos e na China. “A concentração da pauta de exportações em commodities não surgiu agora, mas se intensificou. Isso não é necessariamente um problema, mas gera implicações sobre quais setores geram valor adicionado na economia brasileira”, diz Ribeiro. O pesquisador afirma que outros atores se reposicionaram e fizeram o Brasil perder espaço nas vendas de manufaturados para a América Latina, em particular para a Argentina. “Os eventos globais dos últimos anos aceleraram um processo que já ocorria, de um mundo menos cooperativo, o que ganhou muita força a partir desta segunda gestão do Trump”, explica. Cardoso, da LCA: saímos do período de cooperação para uma insegurança global — Foto: Antonio C. Carreiro/Divulgação Na visão de Verônica Lazarini Cardoso, diretora da LCA Consultoria Econômica, nada alterou tanto o comércio internacional quanto o posicionamento americano sobre seus parceiros. “O mundo, com a mudança de postura da principal potência mundial, sai de uma ordem de cooperação e vai para um momento que gera insegurança em todos”, afirma. O reflexo no comportamento das empresas atuantes no comércio exterior, destaca a diretora, ainda é difícil de medir. “Uma parte pode se concentrar mais no mercado interno, para não ficar refém do protecionismo americano. Outro caminho é buscar ‘rotas de fuga’ e achar novos parceiros para exportar”, explica. Esses movimentos demoram para se consolidar. Um exemplo de mudança em andamento ocorre nas exportações do agronegócio para a Índia, que cresceram 47% no primeiro trimestre de 2026. As tarifas dos Estados Unidos têm impacto perceptível. As exportações do Brasil para o mercado americano caíram 13% (de US$ 20 bilhões para US$ 17,4 bilhões) no primeiro semestre, em comparação com o mesmo período em 2025, quando o efeito das medidas ainda não se fazia sentir completamente. Como comparação, no mesmo período, as vendas à China saltaram 12%, de US$ 52,1 bilhões para US$ 58,3 bilhões. Ainda no mesmo período, as exportações do Brasil, como um todo, e o superávit na balança comercial tiveram alta expressiva. As exportações aumentaram 11,5%, o que sugere algum sucesso na substituição das vendas para os Estados Unidos. O superávit saltou 40,3% no primeiro semestre deste ano ante a igual período de 2025, para US$ 42,4 bilhões. A participação dos Estados Unidos nas vendas brasileiras caiu de 12% em 2024 para 9,4% neste ano. A mais recente novidade nesse cenário instável é o movimento tarifário americano anunciado em julho, que afeta um montante expressivo de produtos brasileiros e, conforme destaca a diretora da LCA, emprega um instrumento juridicamente mais robusto. “Agora, a tendência é que permaneça por mais tempo, mantendo as dificuldades altas para algumas empresas exportadoras”, comenta Cardoso. O anúncio foi de uma tarifa de 25% sobre cerca de três mil produtos (devido a supostas práticas comerciais desleais) e uma taxa adicional de 12,5% sob a alegação de combate insuficiente ao trabalho forçado. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a tarifa de 12,5% alcança US$ 12,4 bilhões em vendas brasileiras ao mercado norte-americano. Isso representa 29,4% de todas as exportações do Brasil para os Estados Unidos e alcança 4.060 produtos. O novo movimento tarifário dos Estados Unidos, ao lado do peso crescente das commodities na pauta exportadora brasileira, preocupa a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “O Brasil acumula superávit graças a produtos primários vendidos ao exterior, o que não é de hoje, mas se intensifica”, comenta José Augusto de Castro, presidente-executivo da AEB, estimando um superávit no ano de US$ 94 bilhões. “Não fosse o cenário com guerras, tarifas e cotas, teríamos ido melhor ainda. O lado ruim, que não é de hoje, é a perda de espaço em manufaturados. Nosso principal parceiro era a Argentina, que hoje compra da China e dos Estados Unidos”, diz. Em 2000, informa Castro, o déficit de manufaturados era de US$ 6 bilhões. Neste ano, deve chegar aos US$ 140 bilhões. A intensificação dos conflitos nos últimos anos — do levantamento de barreiras comerciais de forma unilateral às guerras abertas — também sacudiu as cadeias de suprimentos. “A pandemia foi um marco importante e acelerou em uns dez anos processos que estavam em curso. Trouxe complexidade maior”, comenta Márcio Silva, sócio de soluções de supply chain da Deloitte. A covid-19 evidenciou fragilidades variadas nas cadeias, em processos, tecnologia, sustentabilidade e regulações. O novo desenho das cadeias de suprimentos, destaca o sócio da Deloitte, busca mais resiliência, como uma espécie de seguro contra riscos e incertezas. “Todos os esforços, nesse ambiente mais difícil, visam deixar a cadeia mais responsiva, seja com mais estoque, mais disponibilidade ou com melhor tempo de resposta, o que leva a repensar a reconfiguração de centros de distribuição e fábricas, na busca por alternativas de fornecimento para além da China”, comenta Silva. Outros esforços para dar mais resiliência às cadeias tentam deixá-las mais curtas ou mais descentralizadas. Silva acrescenta que o Brasil, por ser considerado neutro nos conflitos em andamento, tem a oportunidade de se tornar fornecedor estratégico para diferentes parceiros. O cenário global complexo tem efeitos diferentes sobre os vários setores da economia. “Bens de consumo, que incluem uma parte da agroindústria, e o agro como um todo sentem bastante a maior complexidade, com guerras afetando fornecedores e preços. O mesmo ocorre com cadeias complexas, de eletrônicos e parte da automotiva, pelos semicondutores”, diz Silva. Como se não bastassem as tensões entre países, o clima vem ganhando peso maior no processo decisório, como explica Marcos Pereira, também sócio de supply chain da Deloitte. O executivo lembra que há três ou quatro anos a crise climática era lateral nos debates. Hoje, exige reavaliações profundas das operações. “Para lidar com essa questão, não adianta olhar só para o fornecedor direto, a parte mais próxima na cadeia. É preciso avaliar o fornecedor do fornecedor — se ele tem resiliência, onde está localizado. Porque a ruptura em qualquer ponto da cadeia pode trazer problemas”, afirma.Guerras, tarifas e crise climática exigem nova estratégia global das empresas brasileiras
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