Pesquisa nacional A Cara da Democracia mostra que 40% dos brasileiros afirmaram “não confiar” ou “confiar pouco” nessas instituições, contra 57% que declaram “confiar” ou “confiar muito” 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Centro de Tecnologia no Campus do Fundão da UFRJ — Foto: Márcia Foletto As universidades públicas são um patrimônio brasileiro. Apesar de continuamente subfinanciadas e com inúmeros problemas de gestão, elas respondem por mais de 90% da produção científica nacional indexada em bases bibliométricas, oferecem cursos de graduação e de pós-graduação de qualidade e prestam serviços essenciais à sociedade, em especial na área de saúde. Ainda assim, segundo dados da pesquisa nacional A Cara da Democracia, organizada por professores da UFMG, Uerj, Unicamp e UnB, e realizada em julho de 2026 com 2.010 entrevistas presenciais, 40% dos brasileiros afirmaram “não confiar” ou “confiar pouco” nas universidades públicas, contra 57% que declaram “confiar” ou “confiar muito”. Não há base comparativa para esses resultados, mas eles revelam que parcela razoável da sociedade não vê as universidades públicas com bons olhos. Nível de confiança nas universidades públicas (em %) Fonte: A Cara da Democracia, 2026 Mas por quê? Na mesma pesquisa, os respondentes que afirmaram “não confiar” ou “confiar pouco” foram perguntados sobre possíveis razões para esse posicionamento. Para 35% desses (14% do total), “as universidades ensinam mais ideologia política do que conteúdo de qualidade”, para 29% (11% do total), “as universidades são distantes dos problemas do dia a dia das pessoas”, e para 22% (9% do total), “a qualidade do ensino é baixa”. As duas primeiras respostas parecem oferecer bons caminhos para compreendermos o posicionamento daqueles que desconfiam das universidades públicas. A direita radical no Brasil, em ascensão desde meados da década passada, elegeu as universidades públicas como um dos seus principais alvos para combater a suposta dominação de ideologias de esquerda na sociedade. O filósofo Olavo de Carvalho, o ex-ministro da Educação (!) Abraham Weintraub e o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, entre outros, fizeram várias menções às universidades públicas como espaço exclusivo de doutrinação ideológica e, em alguns casos, produção e consumo de drogas. Apenas como exemplo da reverberação desse discurso, mais recentemente, o ex-jogador do Botafogo Túlio Maravilha disse que não matricularia sua filha, Tulliane Maravilha, em uma instituição pública para preservar os “valores familiares”. Não é o caso aqui de entrar no mérito da decisão da família Maravilha. O fato é que os dados demonstram que a acirrada disputa política e ideológica dos últimos anos parece impactar na percepção sobre as universidades públicas. Entre os que se colocaram à esquerda do espectro político, 26% desconfiam (“não confiam/confiam pouco”) das universidades públicas, entre os que se posicionaram ao centro, 37%, e entre os que se localizaram à direita, 54%. Confia/confia muito nas universidades públicas (em %) Fonte: A Cara da Democracia, 2026 Confia pouco/ não confia muito nas universidades públicas (em %) Fonte: A Cara da Democracia, 2026 Análises controlando pelo sexo, pela idade e pela escolaridade dos entrevistados confirmam os resultados dos cruzamentos simples. Enquanto as características sociodemográficas não estão associadas a maior ou menor nível de confiança nas universidades públicas, colocar-se ao centro e à direita ampliavam as chances de desconfiar dessas instituições, com relação aos que se localizaram à esquerda, em 77% e 237%, respectivamente. Diante de um cenário de preferências políticas marcadas por afetos e/ou ideologias em que o papel das universidades públicas teve lugar privilegiado no debate, é muito pouco provável que essa percepção mais negativa por parte dos brasileiros que se colocam mais à direita seja alterada no curto e no médio prazos. O mais provável é que as preferências por lideranças e/ou ideologias prevaleça sobre qualquer tentativa de demonstrar como as universidades públicas merecem, de uma maneira geral, a confiança dos brasileiros, e de como boa parte dos argumentos sobre doutrinação e “perversão” dos valores familiares nos campi não passam de fantasia – eventuais casos isolados não podem ser tomados como regra. Isso nos leva à segunda resposta mais mencionada na pesquisa: a de que a universidade pública está distante do cotidiano da sociedade. Essa foi a alternativa mais mencionada entre pessoas de centro (34%) e de esquerda (39%) e é aqui que as instituições públicas devem concentrar seus esforços para melhorar a percepção que a sociedade tem delas. O diagnóstico é antigo, embora nem sempre amparado em dados. Nos últimos anos, pesquisadores, universidades e agências de fomento têm investido mais em comunicação científica para público amplo, tentando mostrar como o que acontece dentro dos campi pode trazer benefícios diretos para a vida das pessoas. Esse esforço é importante e deve continuar. No entanto, ainda é preciso avançar em três áreas: mostrar que a pesquisa básica importa, ainda que seus resultados não sejam imediatos ou diretamente aplicáveis; promover as ações nas áreas de saúde, que são responsáveis por salvar e melhorar a vida de milhões de pessoas todos os anos; e investir na integração com as comunidades por meio de programas de extensão. Em tempos de permanente pressão fiscal e de questionamentos ao papel das universidades públicas, é sempre urgente defender seu legado e importância social, ressaltando seus feitos e reconhecendo seus problemas. * Oswaldo E. do Amaral é professor de Ciência Política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da mesma instituição.
Artigo: quem não confia nas universidades públicas?
Pesquisa nacional A Cara da Democracia mostra que 40% dos brasileiros afirmaram “não confiar” ou “confiar pouco” nessas instituições, contra 57% que declaram “confiar” ou “confiar muito”






