Nos meses angustiantes que se seguiram aos ataques ao World Trade Center, em 2001, autoridades asseguraram aos nova-iorquinos que o ar ao redor das torres destruídas era seguro para respirar. Mas, dez meses depois, autoridades de saúde ainda encontravam evidências de amianto a até 800 metros do local, segundo uma amostra de registros sobre a qualidade do ar divulgada nesta terça-feira. Os documentos, analisados pelo New York Times antes de sua divulgação, fazem parte de mais de 170 mil páginas de relatórios sobre a qualidade do ar, registros de contaminação e correspondências entre autoridades municipais. O material estava armazenado em 68 caixas em um escritório da cidade, escondido por mais de duas décadas e, segundo autoridades municipais, foi descoberto apenas no ano passado. O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, determinou que sua administração divulgue os registros ao público por meio de um portal on-line, em uma iniciativa programada para coincidir com a lembrança do 25º aniversário dos ataques, esta semana. Ao longo do próximo ano, sua administração pretende revisar, editar e tornar públicos muitos outros documentos, encontrados em escritórios municipais e de seguradoras, relacionados às toxinas ambientais provocadas pelo 11 de Setembro. Os registros oferecem um retrato dos meses frenéticos que se seguiram aos ataques, quando Nova York e seus líderes buscavam avançar na recuperação da cidade enquanto lidavam com o temor de novos ataques terroristas e a presença persistente de substâncias tóxicas. Os documentos, no entanto, têm alcance limitado, oferecendo apenas uma fração dos relatórios sobre a qualidade do ar coletados nos arredores do marco zero. E, embora também incluam alguns memorandos internos — entre eles o chamado memorando Harding, no qual a cidade discutia sua possível responsabilidade legal decorrente da qualidade do ar após os ataques —, muitos outros documentos provavelmente estão perdidos. Mas, ainda que de forma parcial, os registros reforçam a ideia de que os nova-iorquinos foram orientados a retornar à região do ataque antes que fosse seguro, potencialmente expondo trabalhadores e moradores a toxinas perigosas. "O mínimo que nossa cidade deve às famílias, aos sobreviventes e aos socorristas cujas vidas foram para sempre transformadas pelo terrível ataque terrorista de 11 de Setembro é transparência e responsabilidade" disse Mamdani em um comunicado. Destroços após ataques ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 — Foto: Doug Kanter/AFP A divulgação dos documentos encerra uma disputa judicial movida pela 9/11 Health Watch, organização que atua em defesa de pessoas afetadas pelas consequências dos ataques e que processou a cidade de Nova York para obrigá-la a tornar os registros públicos. Ben Chevat, diretor-executivo do grupo, afirmou que os documentos mostram que a cidade tinha conhecimento dos riscos associados às substâncias tóxicas, mesmo enquanto autoridades municipais continuavam transmitindo ao público a mensagem de que o ar era “seguro e aceitável”. A divulgação também pode abrir caminho para novos processos contra a cidade ou influenciar ações judiciais já em andamento. As informações devem ainda fortalecer os pedidos de indenização de pessoas que adoeceram nos anos seguintes ao 11 de Setembro e recorrem aos fundos federais de compensação destinados às vítimas. A publicação dos registros representa não apenas um enorme desafio logístico — para o qual o prefeito destinou US$ 34 milhões —, mas também o reconhecimento de que, mesmo depois de tantos anos, os ataques continuam cobrando um preço alto da saúde dos moradores. Acredita-se que mais pessoas tenham morrido de doenças relacionadas aos ataques do que as quase 3 mil pessoas vítimas fatais em 11 de Setembro. Entre as doenças estão cânceres de pulmão e do sangue, além de problemas cardíacos e respiratórios. Registros relacionados ao edifício de número 15 da John Street — uma das ruas mais antigas e históricas do Distrito Financeiro na baixa Manhattan — situado a menos de 1,6 km do World Trade Center, oferecem um vislumbre do longo, e muitas vezes caótico, trabalho de limpeza realizado nos arredores do marco zero. Em 13 de julho de 2002, enquanto os nova-iorquinos ainda tentavam lidar com o impacto dos ataques ao World Trade Center, que haviam coberto o sul de Manhattan de destroços, inspetores trabalhavam na coleta de amostras de poeira no edifício. Cada relatório repetia o anterior: amianto presente na borda da fachada. Amianto presente no lado esquerdo do telhado. Amianto presente no cabo elétrico superior. Alguns documentos indicam que os níveis do material poderiam permanecer abaixo dos limites estabelecidos pelos órgãos de proteção ambiental e de segurança dos trabalhadores. Outros, porém, sugerem que esses níveis podem ter sido excessivamente altos — embora muitos desses registros não sejam acompanhados de uma análise escrita que permita avaliar essa conclusão. Agentes de emergência trabalham para resgatar sobreviventes dos escombros do World Trade Center, que desabou, em Nova York — Foto: Ruth Fremson/ The New York Times Os documentos mostram que o amianto encontrado no edifício não era um caso isolado: listas de medições de qualidade ambiental feitas por órgãos municipais, pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) e por laboratórios contratados de forma privada demonstram a presença do material, às vezes em níveis superiores aos limites aceitáveis, na poeira e no ar de outras partes de Manhattan após o 11 de Setembro. Uma carta enviada ao Departamento de Proteção Ambiental da cidade por um nova-iorquino em fevereiro de 2002 ressalta o quanto as pessoas se sentiam isoladas e assustadas naquele momento. Marisa Ramírez de Arellano, moradora do número 333 da Rector Place, em Battery Park City, um bairro à beira do rio na região sul de Manhattan, detalhou o que considerava uma série de erros cometidos por autoridades municipais e pelo administrador do prédio na tentativa de remover amianto e outros contaminantes do local. "Senti que precisava fazer alguma coisa. Eu recolhi poeira da mesa de centro e coloquei em um saco de papel. Também comecei a limpar o chão com toalhas de papel molhadas. Um esforço em grande parte inútil", diz um trecho da carta. Procurada pelo New York Times, a mulher, hoje com 80 anos, disse que passou vários anos após os ataques sob os cuidados de um alergista e de um pneumologista. Segundo Arellano, foram prescritos esteroides e outros medicamentos porque exames respiratórios levaram os médicos a temer que ela tivesse sofrido danos pulmonares. Ela disse que passou várias horas em seu apartamento naquele 11 de Setembro porque não percebeu que "aquela poeira muito leve que estava entrando pela janelas era tão prejudicial aos seres humanos quanto acabou se revelando". Ela só deixou o apartamento quando bombeiros chegaram para retirá-la. Quando voltou ao local, algumas semanas depois, as autoridades disseram que o ar era seguro para respirar. Ainda assim, ela continuou desconfiada, especialmente certa noite, quando uma equipe especializada em materiais perigosos foi ao local para remover a grama de uma pequena rotatória do bairro. — Eles cavaram vários centímetros, levaram tudo embora e substituíram por terra nova e grama nova, ou seja, um gramado novo. E pensei: se eles achavam que a grama estava contaminada, então o que todos nós estamos respirando? — disse. Integrante de equipe de resgate observa os escombros das Torres Gêmeas, em Nova York, depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001 — Foto: Doug Kanter / AFP Um documento preliminar com dados coletados pelo Departamento de Proteção Ambiental da cidade listava locais em todo a parte sul de Manhattan onde os níveis de amianto em algumas amostras de poeira excederam os limites considerados perigosos nos dias imediatamente posteriores aos ataques. Outro relatório, sem data, lista amostras do ar que também estavam acima dos limites aceitáveis de amianto. Uma auditoria de novembro de 2001, preparada por uma empresa privada e apresentada à EPA com base em dados coletados por órgãos municipais e estaduais de Nova York, revelou outras descobertas preocupantes. A auditoria demonstrou que a concentração no ar do agente cancerígeno benzeno ainda apresentava picos perto da área onde ficavam as torres, e que a concentração de amianto no ar do aterro de Fresh Kills, em Staten Island, havia aumentado após os ataques. Mas a incerteza sobre a qualidade do ar em edifícios residenciais e comerciais no sul de Manhattan já despertava preocupação entre autoridades públicas, incluindo o deputado Jerrold Nadler, democrata de Manhattan cujo distrito incluía o marco zero na época. "O congressista Nadler acredita que a EPA negligenciou sua responsabilidade de monitorar a qualidade do ar em ambientes internos nos arredores do marco zero", diz um memorando de uma autoridade municipal, Ester Fuchs, enviado a outras seis pessoas, incluindo o principal advogado da cidade, Michael Cardozo, em 28 de fevereiro de 2002, dois meses depois de Michael Bloomberg assumir o cargo de prefeito, substituindo Rudy Giuliani. Ela observou que Nadler havia dito que a Agência de Proteção Ambiental federal transferiu a responsabilidade pela medição da qualidade do ar em ambientes internos para a cidade sem estabelecer medidas adequadas de supervisão, responsabilidade que a cidade repassou aos proprietários dos imóveis. Uma análise de reportagens e transcrições de entrevistas publicadas nos dias e semanas seguintes ao 11 de Setembro mostra que Giuliani continuou a garantir que a qualidade do ar era segura. — Venho aqui pela manhã e, às vezes, o cheiro é terrível. Você sente o cheiro e acha que deve haver alguma coisa errada. Mas o que me dizem é que isso não é perigoso para a saúde — disse ele no fim de outubro de 2001, segundo uma reportagem do The New York Daily News, que havia noticiado sobre produtos químicos e metais tóxicos liberados no ambiente ao redor do marco zero. Em fevereiro de 2002, Bloomberg disse: — Todos os testes realizados dizem que a qualidade do ar estava dentro dos limites aceitáveis. Acho que algumas pessoas simplesmente nunca vão querer acreditar nisso. Um porta-voz de Bloomberg se recusou a comentar. Um porta-voz de Giuliani não respondeu a um pedido de comentário. Correspondências entre o Deutsche Bank, localizado no número 130 da Liberty St., e o Departamento de Proteção Ambiental da cidade discutem testes realizados de setembro de 2001 a abril de 2002 que encontraram amianto em amostras de poeira acima do limite de 1% considerado prejudicial em todo o edifício, além da presença de contaminantes orgânicos cancerígenos, metais pesados, fungos e bactérias. Os especialistas do banco — recomendaram um programa sistemático de testes — para quantificar o risco e identificar métodos adequados para o manuseio e descarte dos materiais, escreveu o diretor administrativo de imóveis corporativos da empresa em uma carta de junho de 2002 ao comissário do Departamento de Proteção Ambiental. O edifício acabaria sendo demolido. A exposição ao amianto pode causar cicatrizes no tecido pulmonar, mesotelioma e câncer de pulmão. Poeira, fumaça e outros poluentes do local também foram associados a linfoma, leucemia e outros tipos de câncer. O prefeito e o principal advogado da cidade, Steven Banks, concordaram que era importante tornar os documentos públicos, lembrou Banks em uma entrevista recente.