Iniciando a série de sabatinas do GLOBO, Extra, Valor e da rádio CBN com candidatos ao governo do Rio, nesta terça-feira, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Douglas Ruas (PL) procurou associar seu adversário, Eduardo Paes (PSD), a políticos envolvidos com o crime organizado em sua aliança partidária. Ruas também buscou se apresentar como representante da "mudança", mesmo sendo do mesmo partido e secretário da gestão Cláudio Castro (PL), e tentou se desvencilhar de seus aliados dos últimos anos, como o ex-governador e o deputado cassado Rodrigo Bacellar (União). Nota da redação: Devido a uma falha técnica, a transmissão em vídeo desta sabatina foi interrompida por um breve instante. Para ter acesso à íntegra da sabatina, ouça o áudio clicando neste link. A entrevista, iniciada às 10h30 com duração de 90 minutos, teve transmissão ao vivo na rádio, nos sites dos jornais e no Youtube (assista no link abaixo). Antes de ser candidato ao governo, Ruas chegou a manifestar apoio a Bacellar, que era o nome preferido de Castro para concorrer -- antes de ser preso e cassado devido a uma investigação da Polícia Federal (PF). Questionado sobre a prisão de Bacellar por suspeita envolvimento com a facção criminosa Comando Vermelho, Ruas argumentou que "as condutas precisam ser individualizadas" e passou a citar integrantes da aliança de Paes que são alvos de investigações: -- Sou o primeiro a estar à disposição das instituições para levar a punição. Os casos sabidos de envolvimento, como da deputada Lucinha, com milícia, pertence ao PSD de Eduardo Paes. O (ex-deputado) TH Joias (preso por envolvimento com o Comando Vermelho) chegou na política pelo MDB. (...) E o MDB é o partido que indicou a vice do Eduardo Paes -- disse Ruas. As falas ocorrem em meio a uma ofensiva da Justiça Eleitoral contra candidaturas que, segundo o MPE, podem representar uma tentativa de organizações criminosas de ampliar sua influência sobre o processo eleitoral. Ao menos oito candidatos no Rio foram alvo de ações de impugnação por associação ao crime organizado desde o início do período de registro de candidaturas. Um dos alvos de impugnação é o candidato a deputado estadual Tadeu Amorim de Barros Júnior, o Júnior da Lucinha (PSD), filho da deputada Lucinha. O MP Eleitoral sustentou que sua candidatura poderia representar uma continuidade da estrutura política atribuída à mãe. Relação com Castro O candidato do PL disse ainda "nunca teve relação de intimidade" com Castro, seu colega de partido e alvo de três operações da Polícia Federal (PF) nos últimos meses. Ruas foi secretário estadual de Cidades no governo Castro, e depois recebeu o apoio do então governador para concorrer à sua sucessão. Castro renunciou ao cargo em março e posteriormente foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico, ficando inelegível. Ruas disse que é Paes, seu concorrente, quem tem registros "sambando" e "tomando cerveja" com o ex-governador. O candidato do PL também buscou associar Paes ao ex-governador Sérgio Cabral (MDB), antigo aliado do postulante do PSD e preso pela Lava-Jato. -- Meus adversários representam uma geração de políticos que está aí há 30 anos. Quando a gente fala de mudança, é mudança de uma geração de políticos que fracassou. Estou me apresentando com meus 37 anos como uma nova geração. Estou no meu primeiro mandato eletivo. Estamos falando de mudança na maneira de governar -- argumentou Ruas. O candidato ao governo do Rio, Douglas Ruas, é entrevistado por Leandro Resende, Chico Goes, Bernardo Mello Franco , Bianca Santos e Thiago Prado — Foto: Ana Branco/ Agência O Globo Ruas também chamou de "vergonha" os indicadores do estado na área de Educação, e de "barbaridade" os desvios de recursos do Rioprevidência em favor do Banco Master, durante a gestão de Castro. Ao criticar o desempenho estadual na Educação, o candidato do PL também acusou a prefeitura do Rio, que foi comandada por Paes, de promover uma "aprovação automática", e disse que não irá "enganar pais e mães" com medidas que fazem o aluno "passar de ano sem ter o aprendizado". Questionado se alguma área do governo Castro, do qual fez parte por três anos, merecia elogios, Ruas citou o programa "Limpa Rio", voltado para desassoreamento de rios e prevenção de enchentes, e o "apoio a municípios em obras de infraestrutura". Os dois pontos citados resvalam na atuação do próprio Ruas na máquina estadual: ele recebeu seu primeiro cargo no governo do Rio ainda em 2019, na gestão de Wilson Witzel, quando foi superintendente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), órgão responsável pelo Limpa Rio; e chefiou obras pelo interior do estado na secretaria de Cidades. -- Eu não era o governador. O ex-governador não é candidato. Não sou responsável pelos atos dele. Tudo o que eu fiz na secretaria de Cidades eu respondo com muita tranquilidade. Minha atuação era restrita às obras de infraestrutura nas cidades -- alegou Ruas. Suspeitas em secretaria Na sabatina, Ruas também buscou se desvencilhar de suspeitas de irregularidades envolvendo a secretaria estadual de Cidades, pasta que chefiou no governo Castro. O candidato do PL foi questionado sobre o fato de uma pedreira da família do deputado federal Altineu Côrtes (PL), seu padrinho político, ter recebido pagamentos de uma empresa contratada para obras de pavimentação da secretaria de Cidades, em um caso revelado pelo GLOBO. Ruas argumentou que "não cabe" à secretaria fiscalizar quem são os fornecedores das empresas contratadas por ela. Ruas também tentou rebater suspeitas apontadas em uma auditoria da Controladoria-Geral do Estado (CGE) na sua antiga pasta, e disse que a apuração do próprio governo contém "inúmeras inverdades". A auditoria identificou possíveis irregularidades, conforme revelou o GLOBO, em um aditivo de 45% a um contrato para obras de asfalto apenas duas semanas depois da assinatura do vínculo. -- Já informei ao governador em exercício (o desembargador Ricardo Couto) e vou levar a todas as consequências esse vazamento de informação. (...) Esse contrato foi auditado pelo Tribunal de Contas do Estado. Não há que se falar em irregularidades -- argumentou Ruas. Douglas Ruas (PL) com os entrevistadores Leandro Resende, Chico Goes, Bernardo Mello Franco, Bianca Santos e Thiago Prado — Foto: Ana Branco/ Agência O Globo Em sua resposta, Ruas disse ainda que os aditivos citados na auditoria por suspeita de irregularidades "são de outubro de 2024", alegando que houve um intervalo temporal longo entre esse momento e a assinatura original do contrato. A fala, porém, não procede, de acordo com a auditoria da CGE. Como revelou O GLOBO, a auditoria aponta que um dos aditivos foi concedido apenas 17 dias depois da assinatura de um contrato de R$ 99,6 milhões para obras de pavimentação. O acréscimo de 45,4%, autorizado pela secretaria de Ruas, fez o valor total do contrato em questão subir para R$ 144,9 milhões. Segurança pública Ruas afirmou que é contrário à "gratificação faroeste", como ficou conhecida uma bonificação por "bravura" dada a policiais que incluía, em alguns casos, a morte de suspeitos por envolvimento com o crime. O candidato do PL propôs, no entanto, gratificar policiais por novos parâmetros de "avaliação de desempenho" que, segundo ele, incluirão um critério de "retomada do território". Ele criticou o fato de o índice de mortes por intervenção policial fazer parte do indicador de letalidade violenta, cujo aumento ou redução é um critério para dar bonificações a agentes de segurança. -- Hoje, na realidade dos fatos, o estado pune o policial que vai enfrentar o crime organziado. Se o criminoso vai a óbito, ele perde o bônus na avaliação do desempenho. É como se a gente tivesse descontando salário de bombeiro que apaga incêndio. Não vi nenhum outro candidato propor retirar a legítima defesa do policial do indicador de letalidade violenta -- argumentou. Ainda na área de segurança, Ruas criticou o processo de implementação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no governo Sérgio Cabral, ao qual associou a expansão de facções criminosas na região metropolitana e interior do estado. Ele também afirmou que Castro, seu antigo aliado, não enfrentou devidamente os problemas da área. Ruas também disse que seguirá uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para o uso de câmeras corporais pela Polícia Militar do Rio, mas alegou que a câmera "não vai ser usada de maneira a cercear o trabalho do policial". Aceno a Flávio e crítica a Lula O candidato do PL ao governo do Rio também aproveitou a sabatina para elogiar o senador Flávio Bolsonaro, postulante de seu partido à Presidência, e criticou o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ruas chamou Lula de "cara de pau" por ter participado da assinatura da adesão do estado do Rio ao Propag, programa de refinanciamento de dívidas do governo federal, após ter vetado parcialmente o texto aprovado pelo Congresso. Os vetos de Lula, segundo Ruas, atingiram "dispositivos importantes que permitiam alívio nas contas do Rio". O discurso é similar ao adotado pelo então governador Cláudio Castro na ocasião dos vetos. Ruas também referiu-se às condenações de Lula na Lava-Jato, posteriormente anuladas pelo STF. -- Lula foi condenado em três instâncias. Como ele pode voltar a ser candidato? Deveríamos fazer uma reflexão, porque a gente vota no mesmo e acabam voltando os mesmos personagens -- alfinetou. Ruas se referiu ainda a Flávio Bolsonaro como "próximo presidente", e creditou ao senador a destinação de recursos, via emenda parlamentar, para elaborar estudos de uma futura implementação da Linha 3 do metrô, projetada para ligar a capital fluminense a Niterói e São Gonçalo. Ruas não garantiu, porém, que conseguirá tirar o projeto do papel caso seja eleito governador. Série de sabatinas A série de sabatinas continua nesta quarta-feira, com William Siri (Psol) . Anthony Garotinho (Republicanos) será sabatinado na quinta-feira. E Eduardo Paes (PSD) fecha a programação, na sexta. Cada entrevista terá uma hora e meia de duração. As entrevistas, realizadas no estúdio da redação do GLOBO, são conduzidas pelos apresentadores da CBN Rio Bianca Santos e Leandro Resende, pelo editor de Política do GLOBO, Thiago Prado, pelo colunista do GLOBO Bernardo Mello Franco e por Francisco Góes, chefe da sucursal do Valor no Rio. O eleitor fluminense também poderá acompanhar as entrevistas por meio de reportagens nos veículos e cortes de vídeos nas redes sociais. Em agosto, GLOBO, Valor e CBN realizaram sabatinas com os candidatos ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT). Estão programadas ainda sabatinas dos candidatos ao governo de Minas Gerais e debates entre os postulantes ao Senado em Rio e São Paulo.
Em sabatina, Douglas Ruas (PL) busca se desvencilhar de Castro e Bacellar e associa Paes a envolvidos com crime
Série de entrevistas do GLOBO, Extra e Valor e da rádio CBN também receberá Eduardo Paes, Anthony Garotinho e William Siri ao longo da semana, com transmissão ao vivo






