Montado a cavalo no interior, entre plantações e produtores rurais, Eduardo Paes (PSD) escolheu o Rio distante da capital para abrir sua primeira propaganda eleitoral na televisão. Do outro lado, ainda desconhecido para 59% do eleitorado, segundo a última Genial/Quaest, Douglas Ruas (PL) começou em São Gonçalo, onde cresceu e é filho do prefeito Capitão Nelson (PL), para se apresentar e falar do que chama de “Rio real”. Com estratégias diferentes, os dois candidatos recorrem a uma mesma lógica nesta sexta-feira: associar os rivais a administrações que, segundo eles, são responsáveis pelos problemas atuais do estado. A diferença está nos personagens escolhidos para representar esse passado. Paes aponta para as gestões dos ex-governadores Wilson Witzel e Cláudio Castro e para a crise política recente do Rio, enquanto Ruas associa o ex-prefeito ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e aos ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão — sem mencionar que foi secretário de Cidades no governo Castro. A propaganda para governador foi ao ar às 13h16, após os programas para o Senado e a Assembleia Legislativa, e teve uma ausência: Anthony Garotinho (Republicanos), que abriria o bloco, está temporariamente impedido de participar do horário eleitoral por uma decisão liminar do Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ). Com isso, a sequência começou com Paes, seguido por Ruas e William Siri (PSOL/Rede). Gado, queijo e plantações Eduardo Paes (PSD) — Foto: Reprodução Com o maior tempo entre os candidatos ao governo, Paes começa a propaganda em uma linda paisagem do interior, montado a cavalo. O programa percorre diferentes regiões do estado, em uma tentativa de ampliar a imagem do candidato para além da capital. Na narração, o Rio é apresentado como um estado que “abraça o mar”, “sobe a serra” e “passeia por vales e campos”. Paes aparece entre trabalhadores do campo e produtores da agricultura familiar, em visitas a propriedades rurais. Em uma sequência, dá mamadeira a bezerros; em outra, visita uma produção de queijo e recolhe ovos em um galinheiro. Também aparece tocando sanfona e usa um chapéu de cangaceiro. O programa termina novamente no campo, com o candidato diante de uma cerca e o gado ao fundo. Depois do giro pelo interior, a propaganda muda de cenário e de tom. Paes passa a tratar da segurança pública, que ocupa um dos principais eixos de sua campanha. Em parte do programa, aparece em um estúdio, diante de uma estante, em um cenário semelhante ao usado pelo candidato em outras campanhas. Entre os livros expostos está uma biografia do ex-presidente americano Barack Obama. A peça apresenta um diagnóstico do que a campanha chama de crise política, institucional, fiscal e de segurança no estado e associa os problemas a grupos que comandaram o Rio a partir de 2019. É nesse momento que Paes tenta estabelecer um vínculo entre Douglas Ruas e os governos de Witzel e Castro. O programa também explora a crise política recente envolvendo o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar, preso em uma investigação que apura suspeitas de ligação entre a política e o crime organizado. Bacellar era o candidato original de Castro à sucessão. Nesta última área, a propaganda recupera realizações de sua gestão na prefeitura, com destaque para terminais do BRT. ‘O Rio que não sai nas novelas’ Douglas Ruas (PL), em vídeo de campanha — Foto: Reprodução A sequência produziu uma mudança brusca de tom. Depois de Paes, Ruas entrou no ar com uma São Gonçalo de vielas e uma narrativa centrada na violência. Ao falar que “o crime tomou conta do estado” e que a insegurança é “a maior ferida do Rio”, o candidato passa a correr, literalmente, enquanto descreve as dificuldades enfrentadas pela população diante de roubos, assaltos e da criminalidade. Com 2 minutos e 29 segundos, Douglas Ruas apostou na cidade que também é o reduto político de seu pai para se apresentar e protagonizar, praticamente sozinho, uma peça construída em um estilo próximo de um plano-sequência. Logo no início, apresenta a ideia de que existem “dois Rios”. De um lado, diz, está “o Rio do cartão-postal, da orla, da praia, do turista, da vida bacana”. Do outro, “o nosso: da Baixada, de São Gonçalo, da Zona Norte, da Zona Oeste, do interior”. “Meu nome é Douglas Ruas, tenho 37 anos, sou filho do Rio que não sai nas novelas”, afirma no vídeo. Depois de dizer que “o crime tomou conta do estado”, Ruas entra em uma viela e começa literalmente a correr. Enquanto avança, fala sobre problemas enfrentados pela população e apresenta a insegurança como “a maior ferida do Rio”. Durante a corrida, Ruas afirma que, como secretário de Cidades, levou obras para mais de 70 municípios do estado. O programa, porém, não informa que ele ocupou o cargo durante o governo de Cláudio Castro (PL), um dos principais alvos das críticas de Paes. Castro também não aparece na linha do tempo apresentada pela propaganda do postulante do PL. Siri encerra bloco Definindo-se como "economista, evangélico e socialista", William Siri, da Federação PSOL/Rede, foi o último candidato a aparecer. Em 32 segundos de propaganda, ele apresentou sua trajetória e seu perfil político, além de afirmar que a direita “destruiu o Rio”. 'Velha política', personagens diferentes Trecho da propaganda de Ruas associa Paes a Cabral e Lula — Foto: Reprodução As primeiras peças revelaram uma ironia política: Paes e Ruas tentam atrelar um ao outro ao cenário das administrações que associam à crise do Rio, mas os dois selecionam passados diferentes para responsabilizar pelos problemas do estado. Paes aponta para o ciclo de Witzel e Castro, do qual Ruas fez parte como secretário. Ruas, por sua vez, mira Cabral e Pezão, além de Lula e do próprio Paes, classifica o ex-prefeito como integrante da “turma que há 30 anos se reveza no poder” e exibe imagens deles juntos. Ao contrário de Paes, que não exibe imagens de Lula na peça, mesmo tendo cumprido agendas com o presidente e candidato à reeleição, Ruas faz questão de mostrar sua proximidade com a família Bolsonaro para contrapor os dois grupos: “Do outro estamos nós, a geração que perdeu amigo para a violência, que esperou o transporte que não veio, que nunca viu a saúde da mulher ser tratada como deveria. Para nós, bandido é bandido e merece a cadeia. Vítima é a mãe que enterrou o filho”, diz Ruas, que aparece numa imagem ao lado do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-presidente Jair Bolsonaro, antes de contrapor os dois grupos. Garotinho de fora A ausência de Garotinho modificou a estreia do bloco na televisão. O ex-governador teria 1 minuto e 6 segundos e seria o primeiro candidato a aparecer, mas ficou temporariamente impedido de usar o horário eleitoral após decisão liminar do TRE-RJ. Na quinta-feira, o tribunal decidiu suspender os repasses do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha à candidatura do ex-governador. A decisão também impede, por enquanto, sua participação em debates de rádio e televisão e no horário eleitoral gratuito. A medida foi tomada em uma ação movida pela coligação de Paes, que pediu a suspensão dos recursos e a retirada de Garotinho dos debates e da propaganda. Relator do caso, o desembargador Bruno Bodart votou pelo acolhimento do pedido, e o entendimento foi acompanhado por unanimidade pelos demais integrantes da corte. A discussão está ligada à situação eleitoral de Garotinho, mas sua candidatura ainda não foi julgada definitivamente. O entendimento que prevaleceu na decisão liminar é o de que o ex-governador estaria inelegível por oito anos em razão de uma condenação por improbidade administrativa que transitou em julgado em 2025. A defesa sustenta, porém, que o prazo da inelegibilidade começou a ser contado em 2018, quando houve a condenação em segunda instância, e que, por isso, a punição já teria se esgotado.
De Paes no interior a Ruas correndo da violência: horário eleitoral na TV começa com disputa por quem representa o ‘velho Rio’
Na primeira propaganda para governador, ex-prefeitodo Rio associa rival a Witzel e Castro, enquanto candidato do PL liga Paes a Lula, Cabral e Pezão; Ruas omite passagem pelo governo Castro e se apresenta ao lado dos Bolsonaro








