Tônicos, séruns e shampoos ganharam espaço nas rotinas de cuidados, mas a promessa de estimular o crescimento exige cautela 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 K-beauty agora é para os cabelos: produtos coreanos podem fazer os fios crescerem? — Foto: Magnific A K-beauty, conhecida pela rotina de cuidados com a pele que popularizou essências, máscaras e produtos com ativos fermentados, ganhou um novo território: o couro cabeludo. Nas redes sociais, tônicos, séruns, ampolas e shampoos de marcas coreanas aparecem em vídeos de cuidados capilares, muitas vezes associados à promessa de fios mais fortes e crescimento acelerado. A tendência, porém, esbarra em uma questão menos simples: até que ponto esses produtos podem ajudar quando o problema é queda de cabelo? A resposta depende da causa. Melhorar as condições do couro cabeludo e reduzir a quebra dos fios são objetivos diferentes de tratar uma alopecia, por exemplo. Por isso, a popularidade de um cosmético ou a presença de ingredientes de origem vegetal não são, por si só, indicativos de eficácia contra doenças que levam à perda capilar. Para a dermatologista e tricologista Amanda Caroline Costa Leitão, é importante desconfiar de produtos que prometem resolver diferentes tipos de queda com uma única fórmula. "Não existe um único produto que consiga acabar com todas as formas de queda de cabelo. Podemos ter eflúvio telógeno, alopecia androgenética, alopecia areata, alterações relacionadas a doenças do couro cabeludo e diversas outras causas. Alguns cosméticos podem contribuir para a saúde dos fios e do couro cabeludo, mas isso é diferente de tratar a origem de uma alopecia", explica. K-beauty chega ao couro cabeludo A lógica dos cuidados coreanos com a pele também aparece nessa nova rotina capilar: o couro cabeludo passa a ser tratado como uma extensão da pele do rosto, com etapas de limpeza, esfoliação, hidratação e aplicação de produtos específicos. A ideia de prestar atenção à região faz sentido, mas não significa que quanto mais etapas, melhores serão os resultados. A dermatologista e tricologista Dra. Bianca Almeida destaca que alterações como oleosidade excessiva, dermatites e inflamações precisam ser identificadas antes da escolha de qualquer cosmético. "O couro cabeludo é pele e precisa estar saudável para exercer adequadamente suas funções. Oleosidade excessiva, dermatites e processos inflamatórios precisam ser avaliados e tratados quando presentes. O problema é acreditar que adicionar vários produtos à rotina necessariamente fará o cabelo crescer mais. Em alguns casos, o excesso pode inclusive provocar irritação e piorar sintomas", afirma. Também é preciso considerar a função de cada produto. Um shampoo, por exemplo, tem um papel diferente de um sérum que permanece na pele por mais tempo. "O shampoo permanece pouco tempo em contato com o couro cabeludo e tem como principal função promover a higiene. Já determinados tônicos e séruns podem permanecer mais tempo na região e conter ativos interessantes. Ainda assim, precisamos analisar a formulação, as evidências disponíveis e, principalmente, qual é a causa da queda. Um produto viralizar não significa que seja um tratamento universal", ressalta Bianca. Ingrediente natural não é sinônimo de tratamento Extratos vegetais e substâncias associadas à medicina tradicional asiática aparecem com frequência nas formulações que circulam nas redes. O apelo de ingredientes naturais, no entanto, não deve ser confundido com comprovação de eficácia para tratar uma alopecia. Para Amanda, existe uma diferença entre o efeito cosmético percebido no cabelo e uma ação capaz de interferir na origem da queda. "Um produto pode melhorar hidratação, reduzir quebra, deixar os fios com aparência mais encorpada ou proporcionar uma sensação agradável no couro cabeludo. Tudo isso pode ser positivo. Mas perceber o cabelo mais bonito não significa necessariamente que houve aumento da quantidade de folículos ou reversão da doença que estava provocando a queda", diz. K-beauty para o cabelo: produtos coreanos podem combater a queda? — Foto: Magnific E quando o folículo já foi comprometido? Outro ponto de atenção é a expectativa de recuperar regiões que já apresentam rarefação significativa. Segundo o médico especialista em transplante capilar Alan Wells, é importante diferenciar um folículo que ainda está ativo, mas produz fios cada vez mais finos, de uma área em que a capacidade de produzir cabelo foi perdida de forma irreversível. "Existe uma diferença entre um folículo que ainda está presente, mas produz fios progressivamente mais finos, e áreas em que houve perda irreversível da capacidade de produzir cabelo. Nenhum shampoo ou sérum consegue criar novos folículos. Por isso, quando existe uma rarefação progressiva, entradas aumentando ou áreas do couro cabeludo cada vez mais aparentes, o ideal é investigar precocemente", alerta. A sucessão de produtos vistos nas redes também pode criar a falsa sensação de que é possível resolver o problema apenas mudando a rotina de cuidados. Para o especialista, esse comportamento pode atrasar a identificação da causa. "Na medicina capilar, tempo pode ser importante. Existem condições em que conseguimos preservar melhor os fios quando o diagnóstico e o tratamento são feitos precocemente. O risco das promessas milagrosas é fazer a pessoa acreditar que basta trocar de shampoo ou usar determinado tônico enquanto a alopecia continua avançando", pondera. Afinal, produtos coreanos funcionam contra a queda? A resposta não está na origem do produto, mas no que ele se propõe a fazer. Cosméticos coreanos podem integrar uma rotina de cuidados e contribuir para aspectos como limpeza, hidratação e aparência dos fios. Isso não significa, porém, que sejam capazes de tratar todas as causas de queda de cabelo. A mesma lógica vale para produtos fabricados em outros países. Composição, segurança, evidências sobre os ativos e indicação para cada situação são mais relevantes do que a nacionalidade da fórmula. "Não devemos demonizar esses produtos, porque existem formulações interessantes e uma preocupação crescente com a saúde do couro cabeludo. O que precisamos evitar é transformar tendência em tratamento médico. Se existe uma queda persistente, aumento da rarefação, falhas ou sintomas no couro cabeludo, é necessário investigar", conclui Bianca.