Ofensiva ocorre em meio a retomada da campanha por terra dos rebeldes contra o governo do Iêmen, apoiado por Riad, em disputa por área perto do Estreito de Bab el-Mandeb 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagem divulgada pelos Houthis em 7 de setembro mostra ataque com míssil contra caminhões que transportavam equipamentos militares da Arábia Saudita para o acampamento militar de al-Wadiah, no Iêmen — Foto: ANSARULLAH MEDIA CENTRE / AFP Os Houthis, grupo rebelde do Iêmen apoiado pelo Irã, lançaram uma ofensiva contra a Arábia Saudita nesta terça-feira, em uma ação que mirou alvos do setor do petróleo e deixou 73 feridos, segundo anúncios oficiais das fontes nos dois países. As forças sauditas revidaram horas depois com bombardeios aéreos, incluindo contra a província de Taiz, onde as tropas do governo iemenita, apoiado por Riad, combatem em solo uma ofensiva do grupo rebelde, que estrategistas afirmam estar tentando conquistar posições ao longo do Estreito de Bab el-Mandeb — via navegável estratégica que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Centenas de pessoas morreram no Iêmen desde que os enfrentamentos de alta intensidade começaram na quinta-feira. Drones e mísseis foram disparados pelos Houthis contra o Aeroporto Internacional de Abha, a base Rei Khalid e instalações do grupo petrolífero saudita Aramco em Abha e Jazan, segundo o Ansarollah, um meio de comunicação próximo aos rebeldes. O porta-voz militar Yahya Saree reivindicou pouco depois o que chamou de operação "de grande envergadura e de longo alcance", afirmando se tratar de uma resposta a "121 bombardeios" efetuados pelos sauditas no Iêmen nos últimos três dias. Em um comunicado, a coalizão militar internacional liderada pela Arábia Saudita e aliada ao governo internacionalmente reconhecido do Iêmen informou que os bombardeios tiveram como alvos "locais civis e econômicos", anunciando que tomaria "todas as medidas e ações necessárias para responder à origem da ameaça e neutralizar o perigo que representa". O Ministério de Energia da Arábia Saudita informou, em comunicado nas redes sociais, que os ataques mais recentes a instalações de energia causaram incêndios em alguns locais e interromperam temporariamente as operações. O ministério não divulgou a autoria dos ataques. O preço do petróleo bruto Brent, a referência internacional, atingiu US$ 99 o barril após os ataques mais recentes, seu nível mais alto desde o final de julho. Horas depois, a mídia vinculada aos Houthis confirmou ataques aéreos sauditas no território iemenita. "A agressão saudita lança uma série de ataques aéreos contra o distrito de al-Waziyah", informou a emissora Almasirah, referindo-se à região na província de Taiz, onde combates intensos ocorrem há dias. Quatro ataques também foram relatados na província de Marib. Houthis e Arábia Saudita trocam ataques aéreos — Foto: Arte/O GLOBO As regiões sudoeste da Arábia Saudita e do Iêmen, onde os ataques áereos e operações por terra se concentram neste momento, são banhadas pelo Mar Vermelho, que se transformou em um campo de disputa militar e estratégica entre Riad e os rebeldes. Com a guerra entre EUA, Israel e Irã fechando o Estreito de Ormuz, o governo saudita redirecionou suas exportações de petróleo para portos a oeste, por onde consegue acessar mercados europeus e asiáticos via Canal de Suez e Estreito de Bab el-Mandeb. Entretanto, os Houthis, aliados de Teerã como parte do Eixo da Resistência e desafetos de Riad — que se opõem ao grupo —, passaram a atacar navios petroleiros sauditas, desde que um bombardeio a um aeroporto em uma região do Iêmen controlada pelo grupo foi atribuída aos sauditas. A violência entre as tropas rebeldes e do governo internacionalmente reconhecido atingiram o maior nível desde um cessar-fogo que havia sido assinado em 2022, rompido em julho. A ofensiva por terra mais recente começou na última quinta-feira, com um balanço atualizado pela AFP nesta terça citando mais de 500 mortos. Analistas apontam que os Houthis avançam a oeste da Taiz e ao sul de Hays, cidades em províncias costeiras perto do Estreito de Bab el-Mandeb, que o grupo fez a promessa de fechar — o que estrangularia ainda mais o mercado de petróleo global. Um dos objetivos táticos parece ser cortar o acesso das tropas do governo à cidade portuária de Mocha, e avançar em direção às áreas que margeiam o estreito. Embora tanto os ataques contra as tropas pró-Riad quanto os disparos contra o território saudita e aos navios-petroleiros sejam prioritariamente executados com foguetes e drones — uma capacidade que o grupo desenvolveu com colaboração iraniana —, o controle da faixa litorânea contígua ao estreito seria um elemento importante para a execução do plano de fechar a rota navegável. Deslocados montam acampamento após fuga de área de conflito entre Houthis e tropas do Iêmen — Foto: Ahmad al-Basha/AFP A intensificação dos confrontos — que incluíram tropas do governo se deslocando em alta velocidade por estradas nas províncias em disputas, em veículos equipados com metralhadoras e laça-foguetes — tem cobrado um alto custo civil. Ainda na sexta-feira, a ONU havia estimado que 1,8 mil famílias teriam sido deslocadas. Relatos de quem fugiu do front indicam confrontos massivos, com disparos ameaçando a população local partindo dos dois lados da linha. A AFP aponta 29 civis mortos, entre o total contabilizado junto a fontes locais. Os Houthis culparam os sauditas e o governo oficial por incidentes recentes. A agência de notícias Saba, vinculada ao movimento rebelde, noticiou que forças sauditas, usando mísseis e bombardeios aéreos, atacaram as províncias iemenitas de Jawf (norte), Al Bayda e Marib (centro) e Taiz (sudoeste), atingindo uma série de alvos. Um deles teria sido a prisão de Al Hazm, onde 11 pessoas teriam morrido, incluindo uma criança que visitava um parente. Ahmed Nagi, analista sênior para o Iêmen no International Crisis Group, disse que o país estava "voltando a caminhar para uma guerra em larga escala", em entrevista ao New York Times. Ele acrescentou que a desescalada "não é impossível", mas que "realisticamente, está se tornando muito difícil". (Com AFP e NYT)