Mesmo com selo de identificação 55% dos pesquisados não identificam conteúdo sintético, aponta estudo do Ibpad. E nos últimos seis meses, a circulação de notícias falsas está mais frequente para 48% dos pesquisados 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A maioria dos brasileiros tem dificuldade de distinguir uma publicidade feita inteiramente com inteligência artificial de produções gravadas com pessoas. Paralelamente, a maior parte da população nota que o volume de notícias falsas aumentou nos últimos seis meses, mostra a pesquisa "Informação e confiança", um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (Ibpad). O levantamento foi realizado on-line com 1.005 pessoas de 18 anos ou mais nas cinco regiões do país, entre 22 e 29 de julho. Quando expostos ao vídeo de uma campanha publicitária 100% gerado por IA sem qualquer aviso, apenas 30% identificam corretamente o conteúdo sintético, enquanto 41% acreditaram que o conteúdo era real e 29% não sabiam diferenciar. No experimento, um vídeo publicitário que circulou nas redes sociais no início de agosto, gravado com pessoas reais, foi inteiramente recriado com inteligência artificial pela produtora Trópico AI Studio. Entre os pesquisados que assistiram a versão gravada da forma tradicional, com humanos, 66% acharam que o conteúdo era real, 11% acreditaram que foi feito com IA e 23% não souberam a diferença. A disseminação de imagens geradas por IA durante as eleições está na mira do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A corte eleitoral determinou que propagandas eleitorais criadas ou alteradas com uso de ferramentas de IA, devem ser informadas pelos responsáveis "de modo explícito, destacado e acessível" tanto para textos, áudios, vídeos e imagens. O TSE também proibiu a veiculação de novos conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) nas 72 horas que antecedem e nas 24 horas depois dos dias de votação. Na terça-feira (1º), o TSE rejeitou a aplicação de multa ao candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, pela exibição de um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro feito por inteligência artificial e exibido durante a convenção do partido. Na ocasião, os magistrados reforçaram a definição de conteúdos falsos produzidos com imagens manipuladas por IA. A corte considera "deepfake" aquele conteúdo sintético produzido ou manipulado por IA ou tecnologia equivalente que apresente grau de realismo ou verossimilhança e crie, reproduza ou altere a imagem, a voz ou a manifestação de pessoa viva, falecida ou fictícia. O levantamento do Ibpad mostra que, na prática, o selo não corrige totalmente a percepção do público sobre conteúdos sintéticos. Ao inserir o aviso "Imagens geradas com inteligência artificial" como uma legenda abaixo do vídeo de publicidade feito por IA, a taxa de acerto entre os pesquisados subiu de 30% para 44,5%. No entanto, mesmo com a informação escrita no próprio vídeo que acabou de assistir, a maioria (55,5%) ainda não conseguiu identificar a origem do material. O formato do aviso sobre conteúdos gerados ou alterados com IA pode fazer diferença. "O ideal seria termos um selo padronizado, em um formato específico e de fácil identificação pelo eleitor", afirma o diretor-executivo do Ibpad, Max Stabile, em entrevista ao Valor. O nível de confiança do consumidor sobre marcas que veiculam conteúdos sintéticos muda conforme a familiaridade com ferramentas de IA, identificam os pesquisadores. "Entre dois consumidores que acreditam que o anúncio foi feito com IA, aquele que usa a tecnologia toda semana segue confiando e comprando o produto. Já o consumidor que nunca usou a tecnologia demonstra a intenção de compra e a confiança menores", destaca a coordenadora de pesquisa e análises do Ibpad, Luiza Aikawa. "Na desconfiança [sobre o uso de IA], o consumidor tende a punir a marca e há uma queda de 15% em intenção de compra ", acrescenta a pesquisadora. O levantamento constatou que não há distinção de idade, renda, escolaridade nem lado político entre os consumidores que acham que um anúncio foi feito com IA. "Todos nesses grupos acusam errado igualmente", dizem os pesquisadores. A presença de um selo que identifique propagandas geradas com IA é defendida por 93% dos pesquisados, segundo o estudo. Percepção sobre notícias falsas aumentou em seis meses A maioria dos pesquisados (63,7%) respondeu que se depara com uma notícia que acredita ser falsa, sendo 50,3% frequentemente e 13,4% o tempo todo, mostra o estudo do Ibpad. O volume mais do que dobrou em relação à percepção de 28% em 2018, quando o mesmo mapeamento foi feito pela pesquisa “A Cara da Democracia do Brasil”, realizado por Stabile, do Ibpad, e pela professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Marisa von Bülow. Nos últimos seis meses, a circulação de notícias falsas está mais frequente para 48% dos pesquisados, enquanto 39% consideram o fluxo igual e 13,4% menor. "Mesmo entre quem raramente recebe notícias falsas [31,1% dos pesquisados], quase um terço diz que está recebendo com mais frequência do que seis meses atrás", nota Stabile. A pesquisa mostra características em comum entre os pesquisados que dizem receber mais notícias falsas nos últimos meses. Neste grupo, o perfil predominante é formado por pessoas que decidem as compras da casa (68%), ganham 10 salários mínimos ou mais (78%), possuem idade a partir de 60 anos (74%), ensino superior completo (72%) e avaliam bem o governo atual (70%). "É um público mais desconfiado em relação a notícias falsas", nota Aikawa. Considerando a amostra total da pesquisa, entre os 1.005 participantes, 53% desaprovam a atual gestão do governo federal e 47% são favoráveis. Nos últimos seis meses, a circulação de notícias falsas está mais frequente para 48% dos brasileiros, diz pesquisa do Ibpad — Foto: Pixabay