Clubes já têm resultados expressivos nas categorias inferiores, mas ainda tentam superar barreiras para fazer frente ao futebol feminino de São Paulo. Retenção de talentos, investimento em estrutura e ampliação do calendário são caminhos a percorrer 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jogadoras do Flamengo comemoram título do Brasileirão sub-20, conquistado em maio sobre o São Paulo. No profissional, última taça foi em 2016 — Foto: Nayra Halm/CBF Daqui a menos de um ano o Maracanã voltará ao centro do futebol mundial, ao receber nove jogos da Copa feminina, entre eles a abertura e a final. No “entorno” do estádio, porém, a modalidade vive uma espécie de paradoxo: se na base os times do Rio são referência, no profissional ainda convivem com limitações estruturais, oscilações no investimento e a dureza de competir com projetos mais consolidados em São Paulo. Os resultados recentes ajudam a dimensionar o fenômeno. Desde a criação da Copinha feminina, todos os títulos ficaram no Rio, com Flamengo (2023 e 2025) ou Fluminense (2024). No Brasileirão Sub-20, a decisão de 2025 foi um clássico entre o Botafogo e o rubro-negro, com título alvinegro. Já em maio deste ano, o Flamengo retomou a taça ao superar o São Paulo na final. O panorama muda na elite. Na primeira fase do Brasileiro A1 deste ano, São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Ferroviária ocuparam as primeiras posições. O Flamengo, quinto colocado, foi o único carioca a avançar ao mata-mata. Já o Botafogo acabou rebaixado à segunda divisão e trocará de lugar com o Vasco, que disputou a última temporada por lá. CELEIRO PRECOCE Esse cenário não surpreende quem trabalha com a modalidade. Amanda Storck, gerente de futebol feminino do Fluminense, lembra que São Paulo estruturou seus projetos mais cedo, enquanto clubes de outros estados só aceleraram o processo após as exigências impostas a partir de 2019 — para disputar a Série A masculina, os clubes foram obrigados a manter equipes femininas. Sob o comando de Amanda, o tricolor tenta encurtar o caminho através da formação. Após reviver seu departamento de futebol de campo em 2018, numa parceria com o projeto social Daminhas da Bola, colhe os primeiros resultados na base: campeão brasileiro sub-18 em 2020, carioca sub-18 em 2021 e sub-17 em 2022 e da Copinha em 2024. — O que a gente vê agora na A1 são atletas que vieram das categorias de base, já na esteira desse novo futebol feminino. Se em tão pouco tempo a gente já consegue ter tanto resultado, imagina quando a gente tiver essa mesma conversa daqui a dez anos — projeta Amanda. O diagnóstico da gerente tricolor encontra eco nos rivais. Técnico do sub-20 do Botafogo, Alexander Alves vê uma “crescente boa” no trabalho dos grandes. Campeão brasileiro em 2025, o treinador aponta os títulos recentes como a evidência de que o Rio ocupa um espaço central na formação, mas ressalta uma diferença importante em relação a São Paulo: o calendário. — Ainda precisamos de mais investimentos e competições. Hoje, temos campeonatos sub-20 e sub-17. Em São Paulo, já há festivais sub-12 e sub-14. Isso dá resultado lá na frente — diz o treinador do Botafogo, em que as atletas têm acompanhamento psicológico, nutricional e assistência social. Dirigentes enxergam uma fresta para avançar. A partir deste ano, o cruz-maltino passou a trabalhar também com um time sub-15. Simone Lourenço, coordenadora do futebol feminino do clube, gostaria de iniciar ainda antes a formação. De preferência, integrada ao colégio de São Januário, oferecendo bolsas universitárias e cursos de idiomas às atletas. — As menores, mais jovens, estão vindo cada vez melhores. É essencial que a gente antecipe os trabalhos, porque elas vão chegar ao adulto muito mais qualificadas — defende Simone. A decisão reflete uma mudança geracional: meninas de 13 e 14 anos chegam mais preparadas do que no passado por consequência da redução do preconceito de gênero e da maior presença feminina no esporte. Amanda relata uma situação parecida. O Fluminense recebe consultas sobre meninas de 9 e 10 anos, mas não dispõe de competição regular no Rio para absorvê-las de forma estruturada. Fluminense tem conseguido usar a base para alimentar o adulto — Foto: MARINA GARCIA/FLUMINENSE ADAPTAÇÃO RUBRO-NEGRA No Flamengo, a jornada começa antes de as atletas chegarem ao clube. André Rocha, gerente do feminino, destaca a rede de projetos parceiros espalhados pelo país. Segundo ele, mais de 600 meninas praticam futebol nesses núcleos, que recebem apoio financeiro e metodológico do rubro-negro. Há ainda festivais em cinco estados e cursos de formação de treinadores. A estrutura permite ao Fla acompanhar o processo de desenvolvimento antes de uma eventual incorporação às categorias de base. O rubro-negro é o exemplo mais evidente de tentativa de transformar a base em ponte para o profissional. Bicampeão da Copinha e do Brasileiro sub-20, o clube recuperou em 2026 a diretriz “craque, o Flamengo faz em casa”. Jovens como Anna Luiza, Emilly, Brendha, Isabela Nunes, Sofia e Kaylane Vieira passaram a integrar com frequência o elenco principal. O rubro-negro também foi o clube com mais convocadas para o Sul-Americano sub-20 deste ano, vencido pelo Brasil. André pondera, porém, que a passagem entre as categorias não é automática. O clube trabalha individualmente a promoção das atletas, levando em consideração minutagem, evolução técnica, capacidade de lidar com pressão e metas físicas. É importante ressalvar que a estratégia rubro-negra nasceu de uma abrupta readequação orçamentária do departamento, após cortes feitos pela gestão do presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, alvo de críticas por parte da torcida e que culminaram na saída da técnica Rosana Augusto. Situações como a do Fla expõem o principal desafio carioca: formar bem não significa competir, de imediato, com equipes consolidadas no adulto. A diferença aparece em orçamento, qualidade do elenco, calendário, estrutura de treinos e capacidade de reter talentos. No Botafogo, Alexander procura reduzir esse impacto aproximando base e profissional. O sub-20 reúne atletas mais jovens e no fim do processo formativo, e as duas equipes compartilham espaço e rotinas. Algumas atletas já chegaram à titularidade no time principal. Profissional do Vasco conseguiu acesso e voltará ao Brasileirão A1 — Foto: Beatriz de Sá/Vasco/ PRÓXIMO DEGRAU A estrutura é outro fator decisivo no debate sobre o futebol de mulheres no Rio. Desde que passou a utilizar o Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan), na Penha, o Fluminense ganhou acesso a campos, academia, equipamentos para treinamento de força e piscinas. Anteriormente, o espaço foi utilizado pelo Flamengo, numa parceria com a Marinha do Brasil, de 2015 a 2025. Para Amanda, esse tipo de ambiente é determinante para que o futebol feminino deixe de ocupar estruturas originalmente montadas para homens. No Vasco, a Casa do Marinheiro cumpre função semelhante. A parceria firmada neste ano foi planejada para integrar profissional e categorias de base e facilitar a transição entre elas. Simone ainda enxerga como ideal, porém, a existência de uma estrutura própria e definitiva para o feminino. A preocupação se estende aos estádios. Com o retorno à A1 em 2027, o clube precisará conciliar calendário, custos e disponibilidade de São Januário, que já é uma questão na atual temporada: — Não vou conseguir fazer todas as partidas em São Januário, tenho que dividir com o masculino. Adoraria disputar a semifinal lá, por exemplo, mas ficamos a depender da situação do masculino na Sul-Americana. A coordenadora defende que a proximidade da Copa seja usada para uma discussão mais ampla. Em vez de depender de grandes estádios, cuja operação é cara, ela propõe recuperar arenas menores e criar no Rio um espaço com identidade ligada ao futebol feminino. O Fluminense, por exemplo, atua no Estádio Luso-Brasileiro. O Flamengo, também, e, em paralelo, articula uma parceria com a prefeitura de Maricá para o desenvolvimento de um estádio na cidade voltado especificamente para a modalidade. — É uma situação que certamente incomoda a todos. Não pode ser resolvida na base do “se vira”. O que juntos nós podemos fazer com isso? — questiona Simone, ao citar a necessidade de articulação entre clubes, Ferj, CBF e outras instituições. Amanda defende que falta à Ferj uma liderança dedicada exclusivamente à modalidade, nos moldes do que ocorreu na federação paulista, na qual a criação de uma diretoria específica ajudou a articular clubes e desenvolver competições. Já André pondera que as competições de base precisam ser mais extensas e menos caras para permitir a entrada e, principalmente, a permanência de projetos menores. Também avalia que, embora tenha crescido, o apoio da CBF às categorias inferiores pode aumentar. Procurada pelo GLOBO, a Ferj argumentou que seu “futebol feminino é integrado ao Departamento de Competições” e conta com uma gerente própria, Julieta Reggi. Acrescentou que a estreia da Copa Rio Sub-14, no mês que vem, é “mais um passo na direção de crescimento” da modalidade e disse ainda que espera que a Copa do Mundo feminina atraia investidores para expandir a prática do esporte. HOLOFOTES DA COPA A meses do Mundial, quem trabalha no futebol feminino carioca se vê entre a oportunidade de atrair novos públicos e a urgência para capitalizar apoio sob os holofotes do torneio da Fifa. Amanda reconhece a dificuldade para transformar a ida a partidas dos clubes cariocas em um hábito do torcedor. Para ela, a Copa pode funcionar como catalisador de um interesse que ainda não se consolidou. Alexander faz ressalva semelhante, mas alerta para o risco de o entusiasmo se restringir ao período do torneio. Entre as 23 jogadoras chamadas por Arthur Elias na última convocação da seleção feminina, quatro tiveram passagem pela base dos clubes cariocas: Tarciane, cria do Flu; Kaylane, revelada pelo Fla; Marta, que iniciou a carreira no Vasco, em 2000; e Angelina, que estreou profissionalmente pelo Santos, mas passou pela formação no cruz-maltino. Já na seleção sub-20, a presença de cariocas é mais forte. A lista de 21 jogadoras convocadas por Camilla Orlando para a Copa do Mundo inclui Sofia, Emilly, Kaylane e Brendha, do Flamengo; Thaynara, do Botafogo; e Carioca, do Fluminense. O Rio terá, em 2027, a responsabilidade de mostrar que também abraça o futebol feminino. Até lá, os principais clubes da cidade seguem na missão de formar, reter e levar suas campeãs da base ao protagonismo profissional e, quem sabe, a futuras Copas do Mundo. *Aluno do curso Jornalismo do Futuro, sob supervisão de Gabriel Rodrigues
Transição para o profissional desafia bases dos clubes do Rio no futebol feminino
Clubes já têm resultados expressivos nas categorias inferiores, mas ainda tentam superar barreiras para fazer frente ao futebol feminino de São Paulo. Retenção de talentos, investimento em estrutura e ampliação do calendário são caminhos a percorrer









