Onde está o petróleo? Margem Equatorial A Margem Equatorial é uma região marítima no norte da América do Sul que se estende da Guiana ao Rio Grande do Norte, na costa do Brasil. Segundo o geólogo Pedro Zalan, que estuda a área desde os anos 1980, o reservatório de petróleo no local tem o formato de um lençol, ou de um canal. — O petróleo se encontra distribuído entre vários reservatórios de arenitos turbidíticos, em níveis diferentes, superpostos ou não, apresentando geometrias em formas de lençóis ou canais e com espessuras mais discretas, da ordem de dezenas de metros. Trata-se de um subsolo marítimo muito profundo, mas completamente diferente do pré-sal, já explorado pela Petrobras. Pré-sal A exploração de petróleo no pré-sal também é feito em águas ultraprofundas, porém num subsolo marítimo distinto. Nesta formação geológica, há uma densa camada de sal que "sela" o reservatório de petróleo, localizado embaixo. O petróleo fica em reservatórios próximos às rochas geradoras — ou seja, as rochas antigas onde detritos orgânicos foram comprimidos, submetidos a altas temperaturas e transformados em petróleo. E é armazenado em bolsões, diferentemente do que ocorre na Margem Equatorial, onde os reservatórios de petróleo têm o formato de lençóis ou canais. Mas, em ambos os casos — pré-sal e Margem Equatorial — o petróleo está em águas ainda mais profundas do que no pós-sal. Pós-sal Em áreas de exploração no pós-sal, como na pioneira Bacia de Campos do Brasil, o petróleo está em bolsões ainda de grande profundidade, no subsolo marítimo, porém nem tão distante do fundo do mar quanto no pré-sal ou na Margem Equatorial. O petróleo, nesses bolsões, saiu das rochas geradoras e "subiu" até as rochas sedimentares, onde ficou armazenado. Do Rio Grande do Norte à Guiana Com 2.200 quilômetros na costa brasileira, a Margem Equatorial se estende do Rio Grande do Norte até o Amapá. Segue ainda por países vizinhos, até a Guiana. Trata-se de uma região marítima com alto potencial petrolífero que se formou durante a abertura do Oceano Atlântico, a partir da fragmentação do antigo supercontinente Gondwana e da separação entre a América do Sul e a África. Desde 2015, a Guiana acumulou descobertas de petróleo que levaram a estimativa de quase 11 bilhões de barris de óleo equivalente recuperáveis apenas no bloco Stabroek, operado pela ExxonMobil. No Suriname, descobertas no bloco 58 também confirmaram a presença de reservas. — Quando se observa toda a região, os estudos indicam, com base na história geológica, que as rochas geradoras podem ter características semelhantes entre os países — explica o geólogo Paulo Moreira, da Universidade Federal da Bahia. Foz do Amazonas A Bacia da Foz do Amazonas é uma das cinco bacias que integram a Margem Equatorial no Brasil. Ela fica a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. Apenas uma dessas cinco bacias, a Potiguar, já tem exploração de petróleo. Se as previsões de que a Foz do Amazonas abriga uma grande reserva de petróleo se confirmarem, será um novo marco na exploração petrolífera do Brasil. A Petrobras descobriu petróleo em águas profundas na Bacia de Campos em 1974 e se tornou referência global para exploração deste tipo. Em 2006, foram descobertas as reservas do pré-sal, em águas ultraprofundas. E o início da explroação dessa área fez as reservas de petróleo do país saltarem. Mas o pico da produção no pré-sal deve ser em 2034 ou 2035, por isso, especialistas alertam que é preciso fazer novas descobertas para manter a atividade petrolífera no Brasil. Como será a exploração na Margem Equatorial? Após a descoberta de petróleo no poço Morpho, a Petrobras aguarda agora autorização o Ibama para para perfurar três novos poços exploratórios nas adjacências. Entenda, agora, quais são as principais etapas da exploração de petróleo e como a Petrobras vai atuar na região. Sísmica É a primeira etapa de um processo de exploração de petróleo e consiste em estudos detalhados da região. Funciona assim: um navio lança cabos com sonares, que emitem ondas sísmicas. Outra embarcação captura essas ondas para ter imagens do solo analisado, como uma espécie de tomografia. A partir daí, geofísicos e geólogos interpretam os dados para estimar o potencial de petróleo. Esta etapa já foi realizada na Margem Equatorial. Exploração É aqui que entra em ação a primeira broca. Os métodos da fase sísmica são indiretos. Para saber a viabilidade de fato da região é preciso perfurar os poços. É nesta fase que a Petrobras está agora. É um processo complexo que, em sua última etapa, usa uma broca de diamante. Confira abaixo: Produção Se as informações coletadas na fase de exploração levarem à conclusão de que há uma jazida e viabilidade econômica para retirar petróleo e gás natural, pode ser necessário perfurar outros poços para dimensionar a reserva. O passo seguinte é apresentar um plano de desenvolvimento à Agência Nacional do Petróleo (ANP) e ao Ibama. Com aval dos órgãos, a empresa contrata sistemas de produção, definindo o número de navios-plataforma (FPSOs) e sistemas submarinos a serem utilizados. Salto na produção de petróleo Se a estimativa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) se confirmar, a Bacia da Foz do Amazonas pode levar o Brasil ao grupo dos quatro maiores produtores de petróleo do mundo a partir de 2030, chegando 5 milhões de barris diários, contra 3,9 milhões atualmente. Avanços tecnológicos Os especialistas afirmam que explorar petróleo na Margem Equatorial pode abrir uma nova fronteira para o Brasil, um marco histórico como foi o pré-sal e, antes disso, a Bacia de Campos. Os desafios, agora, são diferentes. Na Bacia de Campos (cujas descobertas coincidiram com o choque internacional de petróleo, quando países árabes reduziram drasticamente sua produção jogando o mundo numa recessão), houve o desafio tecnológico de explorar petróleo em águas profundas. Na ocasião, a Petrobras colocou em operação a primeira plataforma flutuante do mundo. No pré-sal, a expertise em exploração no mar alcançou outro patamar: o das águas ultraprofundas. A profundidade total dos poços ultrapassa 7 mil metros, o equivalente à altura do ponto mais alto da Cordilheira dos Andes, no Chile. E com um complicador: a camada de sal a ser atravessada. Margem Equatorial Desafios ambientais Se na Bacia de Campos e no pré-sal as águas profundas e a distância da costa eram grandes desafios tecnológicos, na Margem Equatorial há ainda as dificuldades logísticas e ambientais. A região é classificada como de elevada sensibilidade ecológica, segundo ambientalistas e o Ibama, por abrigar um ecossistema marinho diverso, com recifes e espécies ameaçadas de extinção, como o peixe-boi-marinho, o boto-cinza, o boto-vermelho, entre outros. O Amapá também concentra uma grande quantidade de manguezais, com cerca de 141 mil hectares, cerca de 2% da área do estado. Colaborou Letícia Lopes Fontes: Petrobras, PPSA, ANP, EPE, Wood Mackenzie, Trading Economics, e Márcia Karam, pesquisadora sênior do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce) da Coppe/UFRJ