O poço Morpho (1-BRSA-1405-APS) está localizado a cerca de 175 quilômetros da costa do estado do Amapá, em uma profundidade de 2.886 metros. A Margem Equatorial é a principal aposta da Petrobras para abrir uma nova fronteira exploratória. Porém, a região, que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte, está envolta em polêmicas ambientais. O que é a Margem Equatorial? A Margem Equatorial é uma região marítima no norte da América do Sul que se estende da Guiana ao Rio Grande do Norte, na costa do Brasil, com alto potencial petrolífero. Na Guiana e no Suriname, países vizinhos do Brasil e contíguos a essa área, já foram descobertas grandes reservas de petróleo, reforçando a expectativa de depósitos petrolíferos relevantes também no lado brasileiro. No Brasil, se forem confirmadas as projeções da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o petróleo da região pode ampliar em mais de 50% as reservas provadas do país. O que é a Bacia do Foz do Amazonas? A Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá, é uma das cinco bacias que integram a Margem Equatorial no Brasil. Apenas uma dessas cinco bacias, a Potiguar, já tem exploração de petróleo. Na Margem Equatorial, o maior interesse da Petrobras está localizado na Bacia da Foz do Amazonas. A área foi licitada em 2013, durante a 11ª Rodada de Licitações, por um consórcio formado pela Petrobras e a britânica BP. O pedido de licenciamento foi iniciado em 2014. Em 2020, a Petrobras assumiu o bloco todo ao comprar a participação da BP, que desistiu do projeto por não conseguir o aval do órgão ambiental. Por ser uma área ambientalmente sensível, a licença do Ibama para a Bacia da Foz do Amazonas só foi concedida após o cumprimento de várias exigências, como a construção de centros de reabilitação e despetrolização de fauna, estruturas dedicadas ao resgate e ao tratamento de animais marinhos em caso de incidentes. Perfuração em curso Somente no fim de 2025, a estatal, após forte pressão sobre o governo, obteve a licença do Ibama para perfurar o primeiro poço, chamado de Morpho, localizado a 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas e a 175 quilômetros da costa do Amapá. De olho no potencial da área, a Petrobras iniciou a perfuração no dia em que obteve o aval do Ibama, em 20 de outubro. Nessa fase, o navio-sonda instala tubos de aço até o leito do oceano, a 2.880 metros de profundidade. Depois, brocas perfuram as rochas até chegar ao ponto onde a companhia espera encontrar o reservatório, a mais de 3 mil metros de profundidade. Entenda, agora, quais são as principais etapas da exploração de petróleo e como a Petrobras vai atuar na região. Sísmica É a primeira etapa de um processo de exploração de petróleo e consiste em estudos detalhados da região. Funciona assim: um navio lança cabos com sonares, que emitem ondas sísmicas. Outra embarcação captura essas ondas para ter imagens do solo analisado, como uma espécie de tomografia. A partir daí, geofísicos e geólogos interpretam os dados para estimar o potencial de petróleo. Esta etapa já foi realizada na Margem Equatorial. Exploração É aqui que entra em ação a primeira broca. Os métodos da fase sísmica são indiretos. Para saber a viabilidade de fato da região é preciso perfurar os poços. É nesta fase que a Petrobras está agora. É um processo complexo que, em sua última etapa, usa uma broca de diamante. Produção Se as informações coletadas na fase de exploração levarem à conclusão de que há uma jazida e viabilidade econômica para retirar petróleo e gás natural, pode ser necessário perfurar outros poços para dimensionar a reserva. O passo seguinte é apresentar um plano de desenvolvimento à Agência Nacional do Petróleo (ANP) e ao Ibama. Com aval dos órgãos, a empresa contrata sistemas de produção, definindo o número de navios-plataformas (FPSOs) e sistemas submarinos a serem utilizados. Se a estimativa da EPE se confirmar, a Bacia da Foz do Amazonas pode levar o Brasil ao grupo dos quatro maiores produtores de petróleo do mundo a partir de 2030, chegando 5 milhões de barris diários. Nova fronteira petrolífera Os especialistas afirmam que explorar petróleo na Margem Equatorial pode abrir uma nova fronteira para o Brasil, um marco histórico como foi o pré-sal e, antes disso, a Bacia de Campos. Os desafios, agora, são diferentes. Na Bacia de Campos, cujas descobertas coincidiram com o choque internacional de petróleo, quando países árabes reduziram drasticamente sua produção jogando o mundo numa recessão, houve o desafio tecnológico de explorar petróleo em águas profundas. Na ocasião, a Petrobras colocou em operação a primeira plataforma flutuante do mundo. No pré-sal, a expertise em exploração no mar alcançou outro patamar: o das águas ultraprofundas, A profundidade total dos poços ultrapassa 7 mil metros, o equivalente à altura do ponto mais alto da Cordilheira dos Andes, no Chile. E com um complicador: a camada de sal a ser atravessada. Desafios ambientais Se na Bacia de Campos e no pré-sal as águas profundas e a distância da costa eram grandes desafios tecnológicos, na Margem Equatorial há ainda as dificuldades logísticas e ambientais. A região é classificada como de elevada sensibilidade ecológica, segundo ambientalistas e o Ibama, por abrigar um ecossistema marinho diverso, com recifes e espécies ameaçadas de extinção, como o peixe-boi-marinho, o boto-cinza, boto-vermelho, entre outros. Como exigência do Ibama, a estatal construiu dois Centros de Reabilitação e Despetrolização de Fauna — estruturas dedicadas ao resgate e tratamento de animais marinhos em caso de incidentes. O Ibama chegou a ressaltar, em seu parecer que aprovou a perfuração, que é preciso dar atenção especial aos peixes-boi na região, que estariam sob ameaça. Também é considerada sensível a grande quantidade de manguezais concentrada na costa do Amapá, com cerca de 141 mil hectares, cerca de 2% da área do estado.