O mundo mudou (nem tão para melhor como se gostaria), filhos viraram pais (alguns, até avós), a música agora é outra, e o Rock in Rio inicia a sua 11ª edição carioca nesta sexta-feira, lá se vão 41 anos desde a sua estreia num Brasil que ainda era praticamente virgem de grandes shows internacionais. Uma tradição, no entanto, se conserva nesse primeiro dia: o tal do rock’n’roll, esse que dá nome ao festival e que faz tantos frequentadores da antiga reclamarem que ele anda sumido da programação (embora nem em 1985 o Rock in Rio fosse totalmente rock). Entre os grandes roqueiros daquela edição inaugural, histórica, alguns não estão mais por aqui (como Ozzy Osbourne e Freddie Mercury, do Queen), outros desfilam por aí, como orgulhosos (e até lucrativos) dinossauros que recusam a aposentadoria (AC/DC, Iron Maiden, Scorpions). A atração principal deste dia rock de 2026 sequer existia em 1985, mas pode ser considerada também um dinossauro, um belo e ágil dinossauro: o grupo americano Foo Fighters, que fecha hoje a programação do Palco Mundo, a partir da 0h05, com show que promete passar das duas horas de duração. Fundado em 1994 pelo baterista Dave Grohl, das cinzas do mítico Nirvana (que havia acabado naquele ano por causa do suicídio do líder Kurt Cobain), o grupo atravessou as décadas, as mudanças no cenário da música e até mesmo uma tragédia (a morte por overdose de drogas, em 2022, do baterista Taylor Hawkins) como um dos mais consistentes nomes do rock, com gigantescas vendagens de discos e, depois, músicas com massiva execução no streaming (“Everlong” e “The pretender” entraram no famigerado clube do bilhão de plays no Spotify). E mais do que isso: mesmo que alguns dos seus álbuns (como o recente “Your favorite toy”, lançado em abril) não tenham causado sensação, desde a sua consagração inicial o Foo Fighters nunca deixou de ser uma banda capaz de encher estádios e arenas, disputada como headliner pelos grandes festivais de música. Vice-presidente da Rock World (empresa que produz o Rock in Rio), Zé Ricardo conta que não foi fácil garantir esse show, o único do grupo no país este ano. — A gente fez uma oferta, e passou um tempão esperando, porque eles vinham ao Brasil para uma turnê, com outro grupo, mas não podiam revelar isso. Aí essa turnê foi cancelada e eles imediatamente falaram que queriam tocar o Rock in Rio — diz Zé. — E, quando o cara vem fazer o one off (show único), obviamente vem ganhando menos dinheiro, o que mostra um pouco a força da gente como festival. Para tocar no Rock in Rio, o Foo Fighters faz uma pausa em sua turnê pelos Estados Unidos. Depois, ele segue por Canadá, novamente EUA, Austrália, Nova Zelândia e Índia, antes de voltar ao Brasil em fevereiro, para shows em Belo Horizonte (dia 18, na Arena MRV) e São Paulo (20, no Estádio MorumBIS). Um dos grandes admiradores da banda de Dave Grohl é Dinho Ouro Preto, cantor do Capital Inicial, uma das maiores (e mais longevas bandas) do rock brasileiro, que se apresenta hoje no Palco Sunset. — Amo o Foo Fighters. E gosto muito do Dave Grohl, tanto como artista quanto pelo que ele diz em entrevistas. O que talvez haja em comum (com o Capital Inicial) é que eles, lá em Seattle, assim como nós, em Brasília, jamais pensamos em fazer, disso que fazemos, as nossas carreiras. Pelo que li de seus comentários, eles também ficaram muito surpresos com o que veio a acontecer — considera Dinho. — A diferença, claro, é que, no caso deles, tudo aconteceu numa escala planetária. Mas Dave Grohl me parece, assim de longe, um cara normal, com os pés no chão. Gosto de pensar que também sou assim. Capital Inicial — Foto: Divulgação/Leo Aversa Será a nona apresentação do Capital Inicial na edição carioca do festival. Do segundo Rock in Rio, em 1991, no Maracanã, ao último, de 2024, só não estiveram no de 2015. Uma constância que, para Dinho, talvez se deva a “uma combinação entre a natureza de nossas apresentações, que são energéticas e viscerais e a escolha do repertório”: — É curioso, algumas coisas mudaram completamente e outras permanecem inalteradas. Hoje as décadas de estrada nos dão uma experiência que se transforma em confiança. Aprendemos também a botar de pé um show à altura do evento. As luzes, pirotecnia e o conteúdo do telão serão de cair o queixo. Com o passar dos anos, nunca paramos de compor e lançar discos, então, também temos um grande repertório de onde podemos escolher o que é mais adequado à noite. Desta vez estreando no Palco Sunset, o Capital Inicial faz uma homenagem a Renato Russo, líder da Legião Urbana, no ano em que se completam 30 anos da sua morte. O Capital e a Legião, por sinal, se formaram em Brasília, no começo dos anos 80, a partir da dissolução do grupo Aborto Elétrico, do qual faziam parte Renato e os irmãos Fê e Flávio Lemos (fundadores do Capital). O show terá como convidado Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião, e amigo de infância de Dinho: — Conheço Dado desde que tenho 11 anos. Nossos pais foram casados. Somos muito amigos e eu amo a Legião. O que poderia ser melhor? O show vai ser épico! Biquini Cavadão. A banda encerra a programação de 2025 no próximo dia 20, em noite que terá também a Blitz — Foto: Divulgação/Biquini Cavadão Também resistência do rock brasileiro dos anos 1980, o grupo carioca Biquini Cavadão volta ao Rock in Rio depois de 25 anos, para uma participação em show dos também cariocas Detonautas Roque Clube (estrelas do BRock dos anos 2000), que acontece hoje no Sunset. — A gente é tipo um tio, um irmão mais velho. Foi engraçado porque, quando a gente tocou no Rock em Rio, eles deviam ter nem 18 anos de idade e assistiram a gente. Agora, eles fizeram essa enorme gentileza de nos convidar para participar do show deles — conta o guitarrista do Biquini, Carlos Coelho. Com quase a mesma idade que o Rock in Rio, o Biquini não só segue firme na estrada como em 2025 bateu o recorde de apresentações em um só ano: 125. Um dia, a banda pode estar em Maceió (Alagoas), no outro em Manaus (Amazonas), no outro em Matozinhos (Minas Gerais). — Não importa aonde a gente vai, o público tem um carinho imenso pelo nosso repertório — diz o cantor do grupo, Bruno Gouveia. — A nossa longevidade se dá inicialmente pela música que a gente faz. Costumo dizer que a menina de 15 anos que que se encanta com a letra de “Timidez” talvez não saiba que essa foi a música que o pai usou para conquistar a mãe. São músicas que não se perdem, elas falam de assuntos que ainda são do dia a dia das pessoas. O Palco Sunset do Rock in Rio 2026 — Foto: Guito Moreto Para Bruno, bandas do rock brasileiro dos 80 tiveram toda uma facilidade para se consagrar. — Nos 90, você continuou tendo isso, mas aí o rock já competia com o pagode, o sertanejo e a lambada. Já nos últimos 20 anos, a dominação do sertanejo e a chegada do funk tiraram o rock de cena — analisa. — Hoje, se existissem bandas novas trazendo uma mensagem legal, talvez as pessoas não pensassem tanto no Biquini e no Capital. O que aconteceu foi que se criou essa dificuldade muito grande para as bandas novas. Elas falam: “Quando a gente mostra nossas músicas, a casa noturna sempre pergunta quantos covers vamos tocar.” A dupla inglesa Nova Twins, atração do Rock in Rio 2026 — Foto: Divulgação E o caminho não tem sido fácil nem para os artistas de rock do exterior. Grupo que abriu para os Foo Fighters em sua turnê americana de arenas de 2024, a dupla feminina inglesa Nova Twins, que abre hoje o Palco Mundo, penou bastante. Isso, mesmo com o apoio de Dave Grohl e de Elton John — atração do Rock in Rio da segunda-feira — que já as apontou como um dos artistas que mais queria ver na edição de 2023 do festival inglês de Glastonbury e ainda as recebeu no camarim. — No Reino Unido, a indústria meio que evita o heavy metal, especialmente quando são mulheres tocando. Eles preferem o indie — diz a baixista Georgia South. — Mas sempre fomos grandes sonhadoras e seguimos em frente com tudo. Simplesmente tocamos, independentemente de tudo, e temos trilhado nosso caminho no Reino Unido, abrindo caminho a marretadas. Nos Estados Unidos, porém, nos receberam de braços abertos, incentivaram a nossa música, com gritos de “sim, sejam mais barulhentas, seja mais ousadas!”. Uma tradição do rock, a legitimidade sonora, elas gostam de manter. Georgia defende a forma com que as Nova Twins exploram o som de guitarra e baixo com pedais de efeito “num mundo onde é tão fácil criar coisas em um laptop”. — Gostamos de resgatar um pouco daquela vibe old school de pedais e equipamentos analógicos, porque cada som é único. Adoramos a autenticidade dos amplificadores reais. Nos nossos shows, não usamos guitarra ou baixo pré-gravados, porque tudo pode mudar ou soar diferente durante a apresentação, essa é a graça — diz. Vocalista e guitarrista do Nova Twins, Amy Love garante: “somos uma banda de palco e é lá que reside nossa essência”: — Se tivéssemos que escolher entre estúdio ou palco, acho que sempre escolheríamos o palco, para interagir com o público e sentir essa conexão em tempo real. Não há nada igual a isso. Tivemos experiências incríveis em shows, e não necessariamente por causa do tamanho. Pode ser um show pequeno, intimista, ou um dos nossos maiores, como no Hellfest (na França) ou em Glastonbury. É algo especial quando o público se conecta com a música e todos estão em sintonia, você sente que está se conectando com um monte de desconhecidos do mundo todo, de diferentes origens, sem nenhuma barreira. Pela segunda vez no Brasil (já fez um Lollapalooza em 2023), o grupo inglês Hot Milk estreia hoje em Rock in Rio no Sunset. Ele foi formado em 2018 em Manchester, cidade que já deu Oasis, Smiths, New Order e Happy Mondays. — Aqui é um caldeirão de gêneros musicais, mas o rock é o que ouvimos desde a infância. Não gostamos de nos limitar a um único estilo, porque não acho que a vida seja feliz assim. Gosto de ser flexível. E acho que uma boa música é uma boa música. Não importa o gênero — diz a vocalista e guitarrista Hannah Mee, que é definitivamente atraída pelo rock mais pesado. — Gostamos de fazer um pouco de cada coisa, mas adoramos tocar música pesada, acho que funciona melhor com a nossa personalidade. Somos artistas bastante raivosos e emotivos, e acho que isso (o rock pesado) meio que transcende a linguagem. O grupo inglês Hot Milk — Foto: Divulgação Olhando para o estado geral do rock em 2026, Dinho Ouro Preto se mostra otimista de que ele ainda vai dar muito pano para mangas do Rock in Rio: — Há muito talento por ai, e daqui a pouco vamos ver bandas novas encabeçando o festival. Me vem à cabeça o Wet Leg, uma banda inglesa, e o Black Pantera, uma banda mineira (que se apresenta no Sunset no sábado em show no qual convida o grupo brasileiro de thrash metal Nervosa). O rock tem tido a renovação necessária, e precisa dela!
Rock in Rio 2026: gênero que dá nome ao festival abre 1º dia, com atrações como Foo Fighters e Nova Twins; roqueiros comentam esta edição
'É curioso, algumas coisas mudaram completamente e outras permanecem inalteradas', diz Dinho, do Capital Inicial









