O Rock in Rio é capaz de unir organizações, artistas e público em torno de uma causa: construir um mundo melhor 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O Pratômetro, na Cidade do Rock, que acompanha emn tempo real as doações à Ação da Cidadania — Foto: Divulgação Em 1985, eu era um comunicador e acreditava que podíamos fazer um movimento, uma mobilização. Saíamos de anos obscuros da ditadura, que me marcaram fundo. Precisávamos de uma resposta, viver ao vivo, nos unir. Será que este país vale a pena? Era a pergunta da época que fazemos até hoje. Aí a gente iluminou o Rio de Janeiro para o mundo. Aquela vontade de transformar nunca me deixou e sempre esteve ligada à nossa cidade, que, na minha visão, tem na cultura e no turismo o caminho de redenção e justiça social. A música nos une, ela não tem lado. Ela convoca, celebra, conta histórias. Repara só: precisamos de menos raiva e mais solidariedade e união. Precisamos olhar em volta! O mundo é o que construímos. O universo me traz a necessidade de me juntar a pessoas na luta por causas necessárias, justas. Depois de unir mais de 1 milhão de pessoas em 1985, na década de 1990, ao lado do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, fomos às ruas e paramos o país pelo fim dos sequestros. Conseguimos. E seguimos juntos. Há anos, Rock in Rio e Ação da Cidadania somam forças para amenizar a fome. Muitos perguntam: isso resolve? A resposta é simples: sou um publicitário vira-lata. Se mudarmos a vida de uma pessoa, já adiantou. Fazemos muito mais. Além dos milhares de pratos de comida doados, chamamos atenção para o problema. Colocando o megafone, o movimento cresce, e novas políticas surgem. Por quê? Juntos vamos mais longe. Recentemente, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da ONU. A insegurança alimentar severa caiu para 0,6%, menor patamar da História. Os dados do IBGE (2025) confirmam: entre 2023 e 2024, os domicílios com algum grau de insegurança alimentar caíram de 27,6% para 24,2%. É uma conquista, mas não é excelente: quase um em cada quatro lares vive essa realidade. A insegurança alimentar grave, sinônimo de passar fome mesmo, chega a 3,2% dos domicílios. Se pensarmos em seres únicos, são mais de 6,4 milhões. É muita gente. São 85 Maracanãs lotados. Podíamos encher o estádio de comida, já pensou? Os números melhoraram, é verdade. Mas, enquanto existir uma família de barriga vazia, não podemos descansar. O sonho é zerar! E sonhos existem para ser realizados. Por que somos capazes de ajudar em desastres naturais e pandemias, mas não damos sequência para seguir amenizando esse quadro? Novamente, me junto à Ação da Cidadania, agora com Daniel, um guerreiro que luta por um mundo melhor como seu pai, Betinho. A meta é ambiciosa, mas possível. Queremos chegar a 2 milhões de pratos de comida até o fim de setembro. Instalamos um pratômetro na Cidade do Rock. Em tempo real, sabemos quanto estamos avançando juntos. Já ultrapassamos 500 mil pratos antes da abertura dos portões. Com o início do Rock in Rio, o número crescerá. Nunca é tarde para reforçar esperança. Faço a provocação: quantas famílias você quer ver jantar hoje? Doar é simples. Um valor simbólico é capaz de mudar uma vida. Tenho pensado muito sobre isso. Seguir olhando o mundo pela ótica do próximo alimenta a alma. O bem que fazemos não desaparece. Volta fortalecendo o Brasil que queremos deixar para quem vem depois de nós. Um país alimentado tem capacidade produtiva maior, com custos públicos reduzidos e diminuição da pobreza. Crianças alimentadas aprendem mais e se tornam, no futuro, profissionais mais capazes. Se em 1985 mobilizamos o Brasil com um sonho e um palco, num momento tão difícil, hoje o festival carrega um poder de mobilização gigantesco, capaz de unir organizações, artistas e público em torno de uma causa: construir um mundo melhor. E um mundo melhor é um mundo sem fome. Mais que alimentar pessoas, plantamos esperança — que, como música, é coisa que se multiplica e se divide. A fome tem pressa. Nossa vontade de ajudar também. *Roberto Medina é presidente do Rock in Rio
Com fome, sonhos não têm vez
O Rock in Rio é capaz de unir organizações, artistas e público em torno de uma causa: construir um mundo melhor









