Lei aprovada na Câmara coíbe uso da autoridade monetária para fins que sabotam controle da inflação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Congresso Nacional da Argentina, em Buenos Aires — Foto: Erica Canepa/Bloomberg Ainda que desgastado pelos efeitos no mercado de trabalho do bem-sucedido choque anti-inflacionário que impôs à Argentina, o presidente Javier Milei obteve no final de agosto uma vitória importante na Câmara dos Deputados para prosseguir com seu plano de estabilização. A aliança partidária da Casa Rosada aprovou sua proposta para impedir que o Banco Central (BC) continue a financiar gastos do Estado, do governo federal ou das províncias. Se a lei for referendada no Senado, a Argentina se livrará do mecanismo que equivale a imprimir moeda para cobrir rombos nas contas públicas, nos moldes do que acontecia no Brasil até o Plano Real. Na posse de Milei, a inflação anual argentina estava em 211,4%. Com as medidas de estabilização, ela desabou para 31,5% no ano passado. Em julho último, a taxa anualizada estava em 33,8%. Ao mesmo tempo, de sua entrada na Casa Rosada até o primeiro trimestre deste ano, a taxa de desemprego subiu de 5,7% para 7,8%, e sua aprovação caiu de 53% para 38%. Em 2023, o PIB argentino encolheu 1,3%, índice que se repetiu em 2024, primeiro ano do ajuste. No ano passado, a economia cresceu 4,4%, mas não o suficiente para recuperar os postos de trabalho perdidos — ou a popularidade de Milei. Ele promoveu um choque logo no começo de sua gestão. Desvalorizou o peso em mais de 50%, cortou subsídios, liberou preços administrados e reduziu o tamanho de um Estado inchado por sucessivos governos peronistas. As medidas eram imprescindíveis. Ainda assim, o governo precisa persistir no programa de ajuste para derrubar a inflação a patamares razoáveis. Para isso, é fundamental cuidar das finanças públicas e evitar o descontrole advindo do uso do BC para fins alheios ao papel de autoridade monetária, financiando a gastança de governantes sem nenhum compromisso com a responsabilidade fiscal. O projeto aprovado pela Câmara permite que lucros obtidos pelo BC sejam distribuídos entre os governos, mas sob o compromisso formal de os recursos serem destinados ao abatimento da dívida pública. Também retira da lei um adendo feito na gestão Cristina Kirchner (2007-2015) estabelecendo o “duplo mandato” para a autoridade monetária: além do controle da inflação, o BC também tem como missão “promover o emprego e o desenvolvimento econômico com equidade social”. Esse “duplo mandato” é um equívoco com consequências perniciosas sobre o controle da inflação. Para aprovar o projeto na Câmara, Milei e seu partido A Liberdade Avança contaram com o apoio de uma coalizão de centro-direita. No Senado, das 72 cadeiras, a coalizão peronista ocupa 25. Para conseguir os 37 votos necessários a sancionar as mudanças no BC, Milei terá de demonstrar capacidade de negociação maior que a empregada na formação da aliança na Câmara. Será uma votação vital para o governo e o país. A Argentina já demonstrou na prática que é impossível estabilidade política com caos econômico.
Argentina avançará se Senado apoiar projeto que disciplina missão do BC
Lei aprovada na Câmara coíbe uso da autoridade monetária para fins que sabotam controle da inflação







