O Banco Central (BC) decretou nesta quinta-feira (3) a liquidação extrajudicial da Trustee e da Banvox DTVM, administradoras de fundos ligadas ao ecossistema do Banco Master, aumentando para 21 o número de instituições que sofreram intervenção na gestão de Gabriel Galípolo na autoridade monetária. Desse total, 15 estão atreladas às irregularidades esquematizadas por Daniel Vorcaro. Na esteira das operações policiais Compliance Zero, que apura as irregularidades do Master, e Carbono Oculto, que apura a infiltração do crime organizado na economia real, o Banco Central vem promovendo um amplo processo de depuração no sistema financeiro brasileiro. Com outras DTVMs menores que orbitavam o Master e já foram alvo da Polícia Federal ainda em funcionamento, é provável que esse trabalho não tenha terminado. As liquidações da Trustee e da Banvox, segundo o BC, foram motivadas “pela existência de graves violações às normas legais que disciplinam as atividades das instituições”. — Foto: Valor Econômico Depois do Plano Real e com os efeitos de Proer (programa de reestruturação de bancos privados) e Proes (voltado a bancos públicos), o Brasil foi, por muitos anos, reconhecido por ter um sistema financeiro sólido e bem regulado, mas também concentrado. Em 2016, o BC de Ilan Goldfajn iniciou um processo de inovação e abertura, que foi vastamente ampliado na gestão de Roberto Campos Neto, em meio a um processo de digitalização que colocou novos competidores no mercado. Com o objetivo de promover competição e inclusão, esse movimento trouxe diversos avanços, como Pix, open finance e a expansão das fintechs. O outro lado dessa moeda é que menores exigências, inclusive de capital, geraram uma proliferação de “players” novos, alguns dos quais — propositalmente ou não — com controles mais frouxos. Em diversos casos, o processo de cadastro (“onboarding”) de clientes foi fragilizado. Operações da Polícia Federal e da Receita Federal mostraram a infiltração do crime organizado nas fintechs, ataques hackers se tornaram frequentes e, como indicam os casos ligados ao Master, muitas instituições foram usadas para fraudes. “É óbvio que esses trabalhos têm ciclos entre a hora que tem que ir para o ataque e colocar mais produtos e outra hora que tem voltar um pouco mais para a defesa e defender o que está acontecendo”, afirmou Campos Neto em evento nesta semana. “Eu acho que o Banco Central foi correto de saber a hora de atacar e saber a hora de defender. As medidas estão sendo muito boas no sentido de defender.” Trustee e Banvox pertencem a Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro. Elas também aparecem nas investigações da Carbono Oculto, que apura um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e fraudes no setor de combustíveis ligado ao crime organizado. Quadrado, por sua vez, foi alvo de busca da segunda fase da Compliance Zero, deflagrada em janeiro. No comunicado em que anunciou a liquidação, o BC disse que continuará tomando “todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades, nos termos de suas competências legais”. Em nota, Trustee e Banvox afirmaram que não há nenhuma irregularidade na estrutura de suas operações ou violações às normas do mercado de capitais. Alegaram ainda que jamais foram notificadas pelo regulador para qualquer enquadramento nesse sentido. “Trustee e Banvox vinham prestando todos os esclarecimentos demandados pela autoridade monetária nos últimos meses e sanando todas as dúvidas relacionadas às investigações envolvendo o Banco Master”, afirmou o comunicado divulgado pelas empresas. Segundo elas, a decisão do BC foi “recebida com surpresa pelas empresas, que, inclusive, não tiveram nenhum de seus executivos incluídos na denúncia do Ministério Público na operação Carbono Oculto”. Fontes com conhecimento do assunto dizem que as DTVMs de Quadrado vinham prestando esclarecimentos ao liquidante do Master sobre fundos envolvidos nos possíveis esquemas de corrupção. O executivo sempre alegou que saiu do Master quase um ano e meio antes da eclosão do escândalo. O que foi liquidado pelo BC foi a Banvox DTVM, e não a Banvox Holding, que abriga outros negócios. É essa holding que foi sócia do Master, usando uma emissão de debênture para comprar a participação no banco. A Trustee administrava fundos que foram usados pelo Master, inclusive veículos por meio dos quais o grupo de Vorcaro fazia negócios com o empresário Nelson Tanure, comprando participações em empresas em dificuldades. Fundos da Trustee também atuaram na polêmica compra coordenada de ações da Ambipar, que inflou os papéis da companhia em 2024. A liquidação de Trustee e Banvox deve ter impacto limitado para investidores. Como já apareceram nas investigações da PF há meses, havia um processo de esvaziamento dos fundos. Segundo dados da Anbima, a Trustee reunia R$ 66,9 bilhões em julho do ano passado, cifra que caiu a R$ 23,2 bilhões ao fim de julho deste ano. A Banvox, por sua vez, totalizava R$ 19,8 bilhões um ano atrás, ante R$ 7,5 bilhões agora. Em janeiro, a liquidação da CSBF DTVM, antiga Reag Trust DTVM, de João Carlos Mansur, paralisou as atividades de uma das maiores administradoras de fundos de investimentos e serviços fiduciários do país. Na ocasião, a administradora tinha R$ 352,9 bilhões debaixo do seu guarda-chuva e ocupava a 11 colocação no ranking da Anbima. Mansur fez nesta semana uma proposta de delação premiada para a Procuradoria-Geral da República (PGR), o que pode acabar implicando outros atores do setor financeiro. Com o debacle de Reag, da Sefer e das empresas do conglomerado Master, muitos fundos foram obrigados a migrar para outras administradoras. Outra delação que pode agitar o setor é a de Antonio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, da Entrepay, que também estava envolto em negócios com Master. Enquanto isso, permanece a grande incógnita sobre o Banco de Brasília (BRB), que pode aumentar a lista de intervenções do BC e elevar a conta para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Quase três semanas após uma audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), não houve avanço nas negociações para salvar o banco do Distrito Federal. Para conseguir pegar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões com o FGC, o governo distrital precisa de uma fiança oferecida pelos grandes bancos, mas as instituições privadas dizem não poder aceitar os recursos dos Fundos de Participações dos Estado (FPE) e Municípios (FPM) como garantia e não há saída clara para o impasse. O BRB se complicou ao comprar do Master quase R$ 12 bilhões em carteiras fraudulentas. Em depoimento ao STF, cujo conteúdo veio a público nesta quinta-feira, Vorcaro disse que tentou fazer um acordo com o banco do DF como forma de se proteger de “pressões” que estaria sofrendo de outros players do setor bancário, em sua visão incomodados com seu crescimento. Outro potencial foco de problemas é o Digimais. O banco do bispo Edir Macedo vinha enfrentando dificuldades nos últimos anos, mas também foi engolfado pelo caso Master. A instituição enfrenta um processo na Justiça após ter cedido uma carteira de R$ 659,8 milhões para um fundo, que depois disse ter encontrado problemas em 42% das cédulas de crédito bancário (CCBs) transferidas, parte delas originadas pelo Master. Em junho, o Digimais foi alvo da Operação Miragem, da PF. Dois meses antes, o BTG havia anunciado um acordo para a compra do Digimais. Porém, o negócio depende de um empréstimo bilionário do FGC, que vai lançar um leilão no modelo “stalking horse”. O fundo garantidor, de qualquer forma, está reticiente e tem feito uma diligência bastante extensa no Digimais para entender os problemas que podem haver ali dentro. Além das liquidações, é provável que o BC anuncie novas mudanças nas regras do FGC. Galípolo vem dizendo que é preciso avançar no alinhamento da remuneração entre distribuição e clientes. Ele também já havia dito que essa agenda é contínua e não tem uma linha de chegada. Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg