Antonio Carlos Freixo Junior, dono da Entre Investimentos, enviou dinheiro ao Havengate, fundo indicado por Flávio Bolsonaro nos EUA para supostamente financiar o filme sobre a trajetória do pai 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Antonio Carlos Freixo Junior, dono do Grupo Entrepay, liquidado pelo Banco Central nesta sexta-feira (27) — Foto: Reprodução/LinkedIn A Procuradoria-Geral da República (PGR) fechou acordo de colaboração premiada com o dono da Entre Investimentos e Participações, Antonio Carlos Freixo Junior, o "Mineiro", que realizou repasses de dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção de "Dark Horse", a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). "Mineiro" foi um dos alvos da segunda fase Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes relacionadas ao Banco Master. O empresário também é citado em uma esquema de manipulação de preços de ativos investigado pela Comissão de Valores Imobiliários (CVM), que, conforme as investigações, foi liderado por Vorcaro. Ele não está, atualmente, preso nem utiliza tornozeleira eletrônica. Freixo Junior conta que seu primeiro emprego foi como office-boy em uma agência do Banco Nacional em Santa Rita do Sapucaí, no interior de Minas Gerais. Tinha quase 14 anos e seu avô já tinha experiência no setor, pois abriu o primeiro Banco Hipotecário em Pouso Alegre, sua cidade natal. Ele passou quase 30 anos no Banco Garantia e Credit Suisse até decidir fundar o seu próprio grupo, a Entre Investimentos, em 2016. Em 2022, seu grupo adquiriu a Global Payments, dando origem à Entrepay, e recebeu a licença de instituição de pagamento do Banco Central em 2024. Com uma estratégia de reforçar a capacidade de antecipação de recebíveis, o grupo adquiriu uma série de negócios e criou o "ecossistema Entre". A Entrepay fez acordos com diversos bancos estatais para parcerias na parte de adquirência, como o Banco da Amazônia, Banco do Estado do Pará (Banpará) e o Banco do Nordeste (BNB). O portal da Editora Três, que inclui as edições digitais das revistas IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, entre outros títulos, foi adquirido pela Entre Investimentos, controladora da EntrePay, em leilão judicial, em julho de 2022, por R$ 15 milhões. Já a Pmovil foi comprada em 2023 por US$ 3,5 milhões. Especialista em soluções de serviço de valor agregado (SVA) móveis e provedor de monetização, a Pmovil promove cobranças de outros serviços na conta telefônica do cliente. Em março deste ano, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento e, por extensão, da Acqio Adquirência e da Octa Sociedade de Crédito Direto, instituições integrantes do Conglomerado Entrepay. Como o Valor mostrou na ocasião, a liquidação foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da instituição líder do conglomerado, "bem como por infringência às normas que disciplinam sua atividade e por prejuízos que sujeitam a risco anormal seus credores" Caso 'Dark Horse' O envolvimento da Entre no caso "Dark Horse" veio à tona com a reportagem do site Intercept Brasil, em maio, que revelou troca de áudios entre senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, e Daniel Vorcaro. As mensagens mostram Flávio pedindo dinheiro ao ex-banqueiro para financiar o filme sobre o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a publicação, os repasses de Vorcaro foram feitos pela empresa de Freixo Junior ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas (EUA), administrado pelo advogado Paulo Calixto, que é próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A informação sobre o acordo de delação foi antecipada pela jornalista Malu Gaspar em O Globo nesta quinta-feira (3). Segundo a reportagem, Freixo Junior deu detalhes sobre as remessas. A publicação diz ainda que o acordo de colaboração já foi encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Caberá a ele decidir se homologa ou não. O filme "Dark Horse" é um dos principais focos de desgaste da campanha de Flávio para a Presidência da República. Em março, quando a relação com Vorcaro veio à tona, o senador admitiu ter pedido dinheiro ao ex-banqueiro, mas negou qualquer irregularidade, por, segundo ele, se tratar de uma operação privada, sem nada em troca. Coaf indica pagamento extra Nessa semana veio à tona um relatório do Coaf indicando que os repasses foram maiores e duraram mais tempo que o admitido por Flávio. Um nova parcela, de US$ 1,6 milhão, ao fundo Havengate foi identificada em setembro de 2025. A informação foi revelada na terça-feira (1) pela revista Piauí e confirmada pelo Valor. Com essa transferência identificada pelo Coaf, o valor total repassado ao fundo seria ainda maior do que os US$ 10,6 milhões revelados pelo site Intercept Brasil no início do ano. O valor também contraria a versão dada por Flávio em entrevista à GloboNews, logo após a revelação das negociações com Vorcaro, na qual disse que o último repasse seria de maio de 2025. Questionado na terça-feira por jornalistas no Congresso, Flávio Bolsonaro disse, inicialmente, que as perguntas deveriam ser direcionadas à produtora do longa-metragem. Depois, diante da insistência — e demonstrando irritação — afirmou não haver “nenhum fato novo” na prestação de contas do filme. A reportagem da Piauí também afirma existir indícios de outro pagamento, no fim de outubro do ano passado. A revista teve acesso a mensagens trocadas por WhatsApp entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que ajudou a captar dinheiro para “Dark Horse”. Segundo a revista, Miranda enviou uma mensagem a Vorcaro em 22 de outubro de 2025 perguntando se o ex-banqueiro conseguia liberar as parcelas do filme. “Senão vai parar tudo lá”, escreveu. Vorcaro, então, responde: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Miranda diz, na sequência, que Flávio iria ligar para Vorcaro. O ex-banqueiro responde com um pedido de desculpas ao senador pelos atrasos nas parcelas. Eles não detalham, no entanto, o valor que teria sido enviado. Menos de 30 dias depois, em 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela primeira vez. (Colaborou Álvaro Campos)