Inaugurado por Pepê e Carolina Gayoso em 1986, o endereço atravessou gerações, ajudou a popularizar a culinária japonesa na cidade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sushi Leblon completa 40 anos — Foto: Divulgação Dois de setembro de 1986. Estacionados na Dias Ferreira, carros com asas-delta no teto enchem a rua de cor. A calçada é das turmas do surf, da música e do voo livre. É noite de festa dupla. Ao lado de Carolina Gayoso, com quem se casou meses antes, Pepê comemora 29 anos e abre o Tatsumi Sushi Bar, o primeiro japonês da Zona Sul carioca, que logo viraria Sushi Leblon. Pepê e Akira San — Foto: Divulgação Comer peixe cru com pauzinhos de madeira numa rua com ares de interior parecia bastante exótico. Mas combinava com Pepê. Pioneiro do surfe profissional no Brasil e campeão mundial de voo livre no Japão, voltou encantado com aquela comida leve e fresca. “O clima, a simpatia, a alegria, essa coisa da vida saudável carioca e de juntar gente eram a cara do Pepê", lembra o cantor Leo Jaime, presente na inauguração. Ambiente do Sushi Leblon na Dias Ferreira — Foto: Denise Leão Quarenta anos depois, a Dias Ferreira é um dos endereços mais movimentados da cidade e ninguém precisa explicar para um carioca o que é um niguiri. O clima daquela primeira noite, no entanto, ficou. “Tem ali, como diria o Caetano, uma tensão flutuante do Rio", diz Leo. A casa nunca foi muito ortodoxa. Mesmo com uma equipe japonesa à frente do balcão, as receitas logo ganharam sotaque local. “A gente tentou ser tradicional, mas foi se modernizando", conta Carol. Vieram califórnias, filadélfias e outras novidades importadas dos Estados Unidos. Na outra ponta, chegaram peixes especiais, vieiras, lagostins e uni. “Há ali um pioneirismo incrível, que abriu as portas para a criatividade em uma culinária muito tradicional", diz Claude Troisgros, que participa da festa de 40 anos na cozinha. Pepê no Sushi Leblon — Foto: Divulgação A história do restaurante e a da família se misturariam de vez em 1991, quando Pepê morreu num acidente de voo livre no Japão. Carol tinha 28 anos, Bianca e João Pedro ainda pequenos e precisava decidir o futuro da casa. Ficou seis meses afastada. Depois, voltou para ficar. “O Sushi Leblon era nosso filho mais velho. Não tinha como abandoná-lo.” Só não imaginava o tipo de desafio que encontraria. Malcriado, o chef não aceitou receber ordens de uma mulher e abandonou o barco. A crise trouxe o paulistano Jun Sakamoto, então jovem sushiman e estudante de arquitetura. “Em meio ano, mudamos tudo", conta Jun. “Até no projeto mexemos.” Sushi Leblon completa 40 anos — Foto: Divulgação Enquanto tocava o restaurante, ela criava os filhos por ali. Bianca cresceu entre o caixa e as mesas, convencida de que fazia parte do quadro de funcionários. “Era o quintal da minha casa.” Hoje, divide com a mãe a administração. Reconhece, porém, o protagonismo de Carol, que tem ainda João Pedro e a irmã Bia Gayoso como sócios. “Não sinto o sushi como filho, mas como irmão mais velho”, diz Bianca. Bianca, Carol e Bia — Foto: Divulgação A intimidade se percebe no salão. Enquanto clientes discutem cortes e procedências, o Sushi Leblon continua sem cerimônia. Uns entregam o jantar nas mãos do chef César, outros repetem a mesma sequência há anos. Frequentadores dos anos 1980 chegam com netos. Olívia e Joaquim, filhos de Bianca, são habitués. Quando aprontam, a punição é uma semana sem bolinhos de arroz com peixe. “É a pior coisa que pode acontecer para eles", diverte-se. Nem o incêndio de 2024, que fechou temporariamente a casa, abalou o otimismo de Carol. “Entendi aquilo como uma limpeza espiritual”, diz. Às vezes, ela sonha que Pepê voltou. Se acontecesse, estranharia muita coisa. A rua, a intimidade com hashis, o cardápio. O clima, não. “A energia dele está ali. Ele tratava todo mundo de igual para igual”, diz. Isso, para a nossa sorte, ninguém pretende modernizar. E nunca vai envelhecer.