Farm Rio, joia da coroa do grupo, será uma unidade separada e com controle compartilhado 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Loja pop-up da Farm em Saint-Tropez — Foto: Divulgação Perto de um ano e meio após a crise no comando do Azzas 2154 vir a público — consequência de diferenças “irreconciliáveis” entre os controladores da gigante de moda brasileira, Alexandre Birman e Roberto Jatahy —, o casamento da Arezzo&Co com o Grupo Soma teve os termos de seu divórcio selados. Assessores financeiros colocaram os executivos à mesa juntos, após um par de anos, para definir a partilha, conta fonte próxima às negociações. O aperto de mão veio às 22h de terça-feira, com o anúncio da reorganização feito ontem antes da abertura do mercado. Pela redivisão acertada, Birman vai levar Arezzo&Co, Carol Bassi e o ZZMall, além da Hering, que originalmente integrava o portfólio do Soma. Já Jatahy terá sob seu chapéu vestuário feminino e masculino premium (como Animale e Foxton) — ficando com a Reserva, que era da Arezzo. Ele abre mão, porém, da Farm Rio, joia da coroa do grupo. A marca carioca — colosso de vendas no Brasil e no exterior — será uma unidade separada e com controle compartilhado entre as duas novas empresas, com 57,4% nas mãos da Arezzo&Co e 42,6% com o Soma. Ações disparam 11,28% O mercado reagiu positivamente. As ações da companhia saltaram 11,28%, a R$ 16,77. Os papéis vinham refletindo perdas diante do acirramento dos conflitos na Azzas, com recuo de quase 34% no ano. Os ganhos previstos com a criação da gigante de moda não se concretizaram. Com a turbulência no comando, uma dezena de executivos desembarcou do projeto. Divórcio Grupo Azzas — Foto: Criação O GLOBO Quando o casamento foi oficializado, em agosto de 2024, a companhia valia R$ 10 bilhões. A avaliação caiu para R$ 3,46 bilhões. Arthur Bonifácio, analista do setor varejista da Eleven Financial, pondera que a desvalorização está atrelada à exposição cíclica da companhia, com a demanda por vestuário pressionada pelo endividamento das famílias em patamar recorde. E diz que, segundo dados do Azzas, mais de cem lojas foram fechadas (próprias e franquias) entre dezembro de 2024 e o fim de junho último, recuando de 2.129 para 2.024. A redivisão do grupo não foi tarefa fácil. Birman teve assessoria do BTG Pactual; Jatahy, do G5 Partners. Várias opções de estruturas operacionais foram discutidas ao longo dos últimos meses. Prevaleceu a que entregou as marcas a cada executivo a partir de um alinhamento com a expertise de cada um, conta uma fonte a par das discussões. Assim, calçados e bolsas e o que está mais ligado a negociações entre empresas couberam a Birman, daí a Hering ter ficado com o empresário (já que tem franqueados e multimarcas). Jatahy, de outro lado, já vinha no comando das marcas femininas e masculinas do grupo no vestuário, o que justifica levar a Reserva. A Farm é, de longe, o centro das atenções no divórcio. Na prática, Birman será presidente do conselho dessa unidade, com Jatahy atuando como CEO já a partir de agora, embora a conclusão da reorganização da companhia, que precisa passar por aprovações legais, esteja prevista apenas para o primeiro trimestre de 2027. Farm rumo ao voo solo Para Lucca Silva, gestor da Persevera Asset, a sinalização do divórcio traz reflexos positivos às ações, ainda que, em sua leitura, não esteja completo. Ele avalia que, com a eventual venda da Farm, o papel pode se valorizar ainda mais: — Se for mantida a estrutura atual da Farm (dividida entre Birman e Jatahy), o grande problema permanecerá, mesmo com ela independente. Ainda há um certo vínculo. Mas a ação pode subir mais, caso haja a cisão completa, em que se tenham claras as avenidas de cada companhia — diz. — É uma descompressão, mas não resolve por completo. O processo está sendo coordenado pelo banco de investimento americano Morgan Stanley. O preço pedido pela marca está na casa de US$ 1 bilhão, valor que grandes fundos globais com presença no Brasil não querem pagar, segundo a coluna. Para grandes grupos de moda globais, de outro lado, a transação seria pequena, valendo o mesmo para um IPO nos Estados Unidos. O acordo coloca um ponto final nas controvérsias legais entre Birman e Jatahy, que se comprometeram a extinguir o procedimento arbitral e a medida cautelar em curso. Seguir nesse ritmo de litígio, diz fonte próxima aos executivos, levaria o grupo a perdas já conhecidas de grandes disputas societárias. O entendimento é que o divórcio do Azzas veio de “uma decisão inteligente, que privilegia eficiência operacional e resultado”. “Tivemos, ao longo desse processo, diferentes visões sobre a melhor estrutura para o próximo ciclo. Conseguimos transformar essas diferenças em uma solução empresarial que preserva o valor construído e cria condições para que cada negócio siga seu caminho”, disse Birman, em nota. Jatahy comentou em nota: “Chegamos a uma solução que respeita o trabalho construído até aqui, reconhece as características próprias dos diferentes negócios e cria uma base clara para o futuro”. Ana Paula Tozzi, que dirige a AGR Consultores, enxerga duas facetas do acordo selado entre Birman e Jatahy: — A separação ficou boa para todos. E vão ter a guarda compartilhada do “filho” Farm, que tem espaço de crescimento, internacionalização, apesar de Birman ter o controle da maioria das ações. Para ele, foi a forma mais cara de comprar a Hering — avalia Ana Paula. — Mas não foi positivo para o varejo, porque traz desconfiança ao investidor, ainda que a operação não tenha dado certo por diferenças culturais de liderança.