Júlio Delgado conta que candidato tem recebido adesões tanto de influenciadores de esquerda quanto de direita, interessados na quebra da polarização 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Julio Delgado, candidato a vice na chapa de Augusto Cury — Foto: Alan Rones/Câmara dos Deputados Candidato a vice-presidente na chapa de Augusto Cury (Avante), o ex-deputado federal Júlio Delgado diz que é possível que influenciadores ligados ao empresário Pablo Marçal estejam apoiando a candidatura presidencial, mas ressalta que a colaboração, se existir, tem caráter “orgânico e espontâneo”. Segundo Delgado, nos últimos dias Cury tem recebido adesões tanto de influenciadores de esquerda quanto de direita, interessados na quebra da polarização nacional. Marçal é um aliado do bolsonarismo, que se apresentou como candidato a presidente este ano pelo PRTB, mesmo estando inelegível, para servir como linha auxiliar de Flávio Bolsonaro (PL). Na última semana de agosto Cury teve grande crescimento digital. Ganhou 1,7 milhão de seguidores no Instagram apenas entre os dias 25 e 27 de agosto e suas menções diárias na rede X saltaram de 2,4 mil no dia 22 para 48,4 mil cinco dias depois. O candidato do Avante conseguiu mais engajamento do que a soma dos obtidos por Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), que estavam à sua frente nas pesquisas de intenção de voto. Em levantamentos feitos por método telefônico ou de painel online ele já apareceu em terceiro lugar, atrás apenas de Flávio e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ex-deputado federal com cinco mandatos entre 2002 e 2022, o mineiro Delgado foi um dos muitos políticos varridos pela polarização entre lulismo e bolsonarismo. Em 2024, dois anos depois de perder a reeleição, conseguiu somente 6% para prefeito em Juiz de Fora, pelo MDB. Ele conta que foi procurado por um amigo comum de Cury no começo do ano. Ouviu que o escritor queria ajuda para encontrar um partido que viabilizasse a aventura de entrar na política e decidiu então entrar no Avante e interromper a aposentadoria. A seguir, trechos da entrevista do vice de Cury ao Valor: Valor: O crescimento digital da candidatura de Cury surpreendeu o mundo político e chama a atenção as mensagens de apoio de pessoas ligadas a Marçal. Existe colaboração do grupo do influenciador com a candidatura de vocês? Ele está ajudando no impulsionamento? Júlio Delgado: Existe uma conversa de que o Marçal tem relação pessoal com o doutor Augusto Cury, mas com a campanha ele não tem participado de forma ostensiva. Você pode falar que ele coloca influenciadores que lhe são ligados. Eventualmente pode ser, mas se isso for de forma orgânica e espontânea... Acabei de saber, por exemplo, que uma blogueira do mundo da moda resolveu também gravar para o Cury, sem ter contato nenhum conosco. O que a gente for impulsionar tem que estar na campanha. A campanha até agora recebeu doações apenas do próprio Cury e estamos trabalhando para elevar a arrecadação justamente para poder fazer o impulsionamento adequado. Na semana passada, parece que se impulsionou R$ 20 mil ou R$ 25 mil, com o dinheiro que o Cury depositou. Se isso for comparado com o que os outros estão fazendo de forma oficial... O problema é que as pessoas estão assustadas com o crescimento do Augusto e querendo explicar isso por algo que não aconteceu. Valor: E o que aconteceu? Delgado: Ele tinha uma base orgânica de 8,5 milhões de seguidores no Instagram e aumentou 30%. Eu mesmo tinha 14,7 mil e aumentei 25%, fui para 18 mil. É um processo normal em uma campanha. A base dele era muito grande. A gente tem recebido, de institutos de pesquisa e amigos que trabalham com empresas que acompanham o mercado, relatos dizendo que, de forma espontânea, estão vendo nos trackings aumentos de citações de forma espontânea e orgânica. Ou seja, estão procurando pelo em ovo, entendeu? Valor: Mas o que justifica este crescimento? Delgado: Nós tivemos dois fatores que se combinaram para isso. O primeiro é que as pessoas estão de certa forma saturadas da polarização entre Lula e Bolsonaro. Há uma saturação que estava latente. Quando os eleitores viram que tinha um nome com um mínimo de credibilidade, como o do escritor, professor, médico, e palestrista Augusto Cury, que se tratava da mesma pessoa do candidato Augusto Cury, houve um ‘link’ e isso fez com que ele já partisse para uma base que fosse diferenciada. O segundo fator é que ele é um cara que foge de briga, não fica fazendo ofensa nem ataca ninguém. Na entrevista para o Jornal Nacional, apesar de ter sido tratada de forma jocosa, ele falou 40 minutos sem ter que se defender de corrupção. Não teve que ficar 25 minutos se desculpando por causa do seu filho ou por causa do filme do seu pai. Valor: O senhor esteve muito próximo da campanha presidencial de Marina Silva em 2014. Na ocasião, ela teve um crescimento muito forte no momento em que se tornou candidata, mas rapidamente perdeu eleitores ao começar a ser atacada pelos dois polos da polarização de então, sem ter tempo na televisão para se defender. Não há o mesmo risco agora? Delgado: São personalidades diferentes. Ali em 2014 surgiu o trabalho dos dois flancos que tinham interesse comum de manter, naquela época, a disputa entre o PT e o PSDB. A ascensão da Marina deu-se em cima da comoção provocada pela morte do Eduardo Campos. Era base muito frágil, lastreada na emoção, ela não tinha nem sustentação nem estrutura para fazer o enfrentamento dos ataques que recebeu. Com o Cury a situação é outra. Ele é um nome fora da política e com mais condições para fugir da polarização do que Ronaldo Caiado, Renan Santos ou Romeu Zema. O Cury ficou como o único no campo que não é de esquerda ou direita que pode atender ao eleitor que está cansado disso. Em 2014, não havia o esgotamento do eleitor com a discussão ideológica, não havia essa fadiga. O apelo que ele resgata é o do “outsider”, da eleição de 2018, que levou uma pessoa como o Zema se elegesse governador de Minas Gerais saindo de 2% nas pesquisas. O Zema deixou claro naquele momento que era possível furar uma bolha de uma polarização que parecia estabelecida. Valor: O discurso é contra a polarização, mas se ele for para o segundo turno vai contra um dos dois polos, quase certamente o Lula. E nos pronunciamentos recentes dele há muitas mais críticas direcionadas ao presidente do que ao bolsonarismo. Ele não está fazendo uma opção estratégica pelo antipetismo? Delgado: Se ele for ao segundo turno, enfrenta o lulismo sem a pecha do bolsonarismo. Será uma ruptura da polarização, porque ele terá condições de compor com nomes da esquerda e da direita. Valor: Na área econômica ele tem falado com quem? Delgado: Temos conversado com o Tirso Meirelles, com o Marcos Lisboa, com o Mansueto Almeida. São pessoas que ele escutou na formulação do plano. Ele os escutou com enorme respeito e tem se baseado em algumas sugestões que eles têm colocado, mas se serão responsáveis pelo plano econômico não posso garantir. São pessoas que Cury citou em conversas conosco. O que eu estou sendo mais demandado desses dias é sobre esse nome que vai responder em nome da equipe econômica, mas não sei se vai haver uma indicação. Acho que deveria haver até para poder aliviá-lo.