Bloco europeu e aliança atlântica ampliam pressão sobre Moscou, enquanto o governo russo dispara contra iniciativas europeias de apoio à Ucrânia; polícia alemã identifica DNA de dois suspeitos com passaportes russos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante coletiva de imprensa após o encontro da Organização para a Cooperação de Xangai, na terça-feira — Foto: Kristina Solovyova/POOL/AFP O presidente da Rússia, Vladimir Putin, classificou nesta quarta-feira a decisão da Alemanha de atribuir diretamente a Moscou a culpa pelo incidente com drones armados com explosivos em um aeroporto no leste do país como "um erro grave", após o anúncio de Berlim ter provocado condenações por parte da União Europeia e da Otan. As lideranças do bloco europeu e da aliança militar ocidental prometeram aumentar a pressão sobre o regime russo e anunciaram medidas diplomáticas nesta quarta, enquanto autoridades próximas a Putin argumentaram que o Kremlin deveria tomar medidas decisivas contra os países que apoiam diretamente a Ucrânia. No mesmo dia, a polícia alemã identificou, por meio de vestígios de DNA, dois homens com passaportes russos suspeitos de envolvimento no caso, segundo veículos de imprensa alemães. Enquanto Putin taxou a decisão como um erro e questionou as evidências por trás das conclusões de Berlim, sugerindo que o governo alemão tentava causar uma distração para o seus próprios problemas internos, aliados do presidente foram os responsáveis por acirrar a disputa retórica. O ex-presidente da Rússia e vice-presidente do Conselho de Segurança do país, Dmitry Medvedev, acusou a Alemanha de adotar uma política "neonazista e ferozmente russofóbica". "Eles merecem um ataque direto contra todas as instalações alemãs que fabricam equipamentos militares [para a Ucrânia]", escreveu Medvedev em uma texto distribuído pelo aplicativo de mensagem Telegram, sugerindo também que um eventual trem transportando líderes europeus a Kiev poderia se tornar alvo de ataques russos, caso a Ucrânia concretizasse suas ameaças de fechar o espaço aéreo sobre a Rússia. As manifestações partindo de Moscou acompanham a escalada de tensões provocada pelo anúncio público de Berlim na terça-feira sobre a responsabilidade russa no que chamou de "ataque híbrido" ao Aeroporto Leipzig-Halle. Mais de uma dezena de países europeus registraram incidentes considerados atos de sabotagem e violações de espaço aéreo, mas uma atribuição direta a Moscou, sobretudo com acusações de uma ação planejada e consciente, foram pouco frequentes — e as medidas em reposta a elas, ainda menos. Polícia alemã identifica suspeitos Nesta quarta, a imprensa alemã revelou novos elementos da investigação sobre o ataque. Segundo o jornal Süddeutsche Zeitung e as emissoras públicas NDR e WDR, a polícia identificou o DNA de dois homens suspeitos de transportar e preparar os artefatos usados na ação. O primeiro suspeito seria um homem de nacionalidade bielorrussa que possui passaporte russo. Ele teria entrado no espaço Schengen com um visto turístico italiano emitido em Minsk e, segundo as reportagens, já havia cometido infrações nos países bálticos. O segundo suspeito possui passaportes russo e letão e nasceu na Rússia, segundo as mesmas fontes. Ele seria responsável pela logística da operação. O homem teria chegado à Alemanha pelo aeroporto de Berlim no fim de julho, alugado um carro e seguido para a região de Leipzig, antes de deixar o país dois dias antes do ataque. Os dois foram identificados a partir de vestígios de DNA encontrados pela polícia científica em um dos drones, em uma lata de conservas que continha explosivos e em uma antena presa a uma árvore. As suspeitas, segundo a imprensa alemã, também são respaldadas por bases de dados europeias e informações de serviços de inteligência. O drone foi descoberto perto de vários aviões de carga ucranianos, e um segundo artefato teria colidido com um avião da DHL minutos depois. Segundo a imprensa alemã, outro drone havia sido descoberto mais tarde perto do aeroporto, também com vestígios de substâncias explosivas. Europa endurece o tom O movimento de Berlim, porém, provocou uma onda imediata de condenações e medidas. A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou nesta quarta-feira que o caso envolvendo os drones em Leipzig apresentava "as características de um ato de terrorismo respaldado por um Estado", convocando o encarregado de negócios da Rússia em Bruxelas para esclarecimentos. Uma reunião entre os líderes diplomáticos e defesa europeus foi convocada em Dublin nesta quarta. Chanceler da UE, Kaja Kallas, em foto com representantes da Otan e líderes das pastas de Defesa e Relações Exteriores de países europeus, em Dublin — Foto: Paul Faith/AFP Em uma coletiva de imprensa conjunta, a presidente da Comissão Europeia (órgão Executivo da UE), Ursula von der Leyen, e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, prometeram manter a união e a defesa resoluta do território europeu. O responsável pela aliança militar atlântica criticou diretamente Moscou, a quem chamou de "imprudente". — Temos visto mais drones e mísseis cruzando nosso espaço aéreo ao longo do flanco oriental, criando um risco maior. Também observamos um aumento de atividades maliciosas visando diretamente nosso território, sejam incêndios provocados em fábricas que produzem equipamentos de defesa para a Ucrânia ou, de fato, o ataque híbrido russo em Leipzig — disse Rutte, reafirmando o compromisso do grupo com o princípio da defesa coletiva. — Se a Rússia acha que seremos divididos pelas ameaças, ou se pensa que seremos dissuadidos de apoiar a Ucrânia, está enganada. Nossa unidade permanece inabalável. As divergências entre os aliados europeus e o governo dos EUA sobre o apoio à Ucrânia e a contenção da Rússia criou rachaduras na coesão do grupo, que alguns suspeitam estar alimentando pretensões agressivas russas. A Casa Branca não se manifestou oficialmente após o anúncio de Berlim, enquanto o embaixador dos EUA na Otan, Matthew Whitaker, limitou-se a manifestar solidariedade à Alemanha "diante de esforços para causar danos e caos em território da Otan", sem citar diretamente a Rússia. Também reforçou a cobrança do presidente americano, Donald Trump, de que os países da aliança invistam em suas capacidades de dissuasão. Em sua fala no pronunciamento à imprensa, Von der Leyen afirmou que o uso de material de grau militar em uma ação realizada por agentes russos em solo europeu era intolerável, e que marca "uma nova escalada" nos limites territoriais do bloco. A líder, de nacionalidade alemã, prestou solidariedade ao país, e garantiu que intimidações não funcionarão. — Os europeus enfrentam a dura realidade de que este é o novo normal. Precisamos agir com mais firmeza, e isso significa estar prontos para responder à imprudência da Rússia de forma mais rápida e eficaz. A Europa e a Otan não apenas manterão a pressão, nós a aumentaremos — declarou a presidente da UE, argumentando que "cada brecha que a Rússia explora é uma que devemos fechar". (Com AFP)