Aposta é de clima mais quente no segundo semestre deste ano por causa do El Niño, mas temperaturas mais baixas desde o ano passado têm feito o setor perder vendas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Segundo a Scanntech, cada grau adicional de temperatura eleva em 5% o volume de cerveja vendido no Brasil — Foto: Leo Martins/Agência O Globo Os balanços do segundo trimestre voltaram a colocar o clima entre as principais preocupações das fabricantes de cerveja no país. O efeito tem sido tamanho que nem mesmo o efeito positivo da Copa do Mundo foi suficiente para convencer os analistas do setor. O clima tem impacto direto sobre o consumo de bebidas no Brasil. Segundo levantamento da consultoria de dados para o varejo Scanntech, a cada 1º C de aumento na temperatura, o volume de vendas de bebidas sensíveis ao clima cresce, em média, 4,1%. O estudo cruzou dados de vendas captados pela empresa, que tem leitura de 85% do varejo de alimentos nacional, com informações de temperatura do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a partir de aproximadamente 600 estações meteorológicas. Entre as categorias analisadas, a cerveja está entre as que mais respondem ao calor: cada grau adicional de temperatura eleva em 5% o volume vendido, em média. Um aumento de 3º C está associado a uma alta de aproximadamente 12,8% no volume das bebidas que respondem positivamente ao calor. O efeito permanece positivo em toda a faixa de temperaturas analisada e ganha maior intensidade próximo dos 30º C. A aposta é de um clima mais quente no segundo semestre deste ano por causa do El Niño. Desde o ano passado, entretanto, as temperaturas mais baixas têm feito o setor de cerveja perder vendas. O frio afeta mais as categorias populares, uma vez que sua força está sobretudo nos bares. A exceção tem sido a categoria de bebidas premium, que cresce ano após ano e virou a menina dos olhos das cervejarias. A Heineken demonstrou insatisfação com seus números nas Américas. O diretor financeiro da gigante de bebidas, Harold van den Broek, disse que no Brasil o mercado continua sob pressão. Entretanto, o executivo sinalizou melhorias nos dados no fim do segundo trimestre e apontou otimismo com o negócio nesta segunda metade do ano. “Não estamos satisfeitos com nosso desempenho nas Américas. Mas não estamos estruturalmente preocupados. De acordo com nossos dados, o consumo nos três maiores mercados foi negativo, com o sentimento fraco do consumidor e questões macroeconômicas”, disse, em teleconferência com analistas recentemente. O executivo reconheceu a perda de participação por aqui. “No Brasil, a categoria continua sob pressão”, disse. O CFO apontou que a indústria brasileira de cerveja caiu 3,6% no primeiro semestre. “Mas as tendências melhoraram no fim do segundo trimestre”, disse o executivo, ponderando uma receita positiva com a recomposição de preço. Após meses de espera por uma definição, a Heineken anunciou, em 23 de junho, o brasileiro Rafael Oliveira como novo CEO global do grupo. À frente de uma das maiores cervejarias do mundo, o executivo assumirá em outubro o comando em um momento de desaceleração do consumo de bebidas alcoólicas entre os mais jovens e de maior pressão competitiva no Brasil, mercado em que a companhia perdeu espaço após mais de dez anos de liderança no segmento premium. Os volumes da Heineken no Brasil caíram um dígito médio (entre 4% e 6%) no primeiro semestre na comparação anual. Na contramão, o mercado premium e suas subcategorias - como produtos sem álcool e sem glúten - têm ganhado a atenção da indústria. O segmento premium representava cerca de 4% dos volumes de cerveja no Brasil em 2010. No ano passado, superou os 25%. Clima responde por quase toda a defasagem da indústria hoje contra 2024” Enquanto isso, a produção total de cerveja no Brasil apresentou queda de 8,85%, para 15,688 milhões de hectolitros no ano passado. Os números fazem parte do Anuário da Cerveja 2026, publicação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em parceria com o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv). Foi justamente o olhar para o premium que fez a Heineken lançar em maio uma cerveja também focada no público que busca escolhas mais equilibradas: a Heineken Ultimate. O grupo escolheu o Brasil para a estreia do novo rótulo, que tem 97 calorias (30% menos que a versão regular), é sem glúten e tem 3,5% de teor alcoólico. Já a Ambev teve um resultado que decepcionou o mercado. O volume de cerveja no Brasil subiu 5% no segundo trimestre na comparação anual, para 21,034 milhões de hectolitros. Segundo a empresa, o resultado foi amparado pela força da sua divisão premium e pela demanda incremental gerada pela Copa do Mundo da Fifa. O mercado, entretanto, esperava algo mais perto de 7% de crescimento. Segundo o presidente da Ambev, Carlos Lisboa, a indústria continua melhorando após um período apertado no ano passado. “Estimamos que a indústria ficou positiva ao fim do segundo trimestre”, afirmou. Ainda conforme Lisboa, as temperaturas médias continuam abaixo do que foram em 2024, pico de demanda de cerveja no Brasil. “Nossos modelos mostram que o clima responde por quase toda a defasagem da indústria hoje contra 2024”, disse o executivo, em teleconferência. Também no segmento premium, a Ambev lançou, em julho, uma nova cerveja sem álcool e com 10 gramas de proteína, a Spaten Pro. Esta é a primeira versão de cerveja de toda a AB InBev com proteína. Na época, Daniel Wakswaser, vice-presidente de marketing da Ambev, disse que a estratégia está conectada aos esforços do grupo para buscar novas ocasiões de consumo da bebida para além dos bares e festas nos fins de semana. Os lançamentos chegam exatamente nos segmentos premium, ponto central da disputa hoje entre as gigantes da indústria. Desde o terceiro trimestre do ano passado, a Ambev diz ter assumido a liderança do segmento no Brasil, após dez anos. A Heineken, entretanto, questiona essa liderança e aponta para uma guerra de preços, sobretudo com a marca Original. Essa disputa ocorreria, segundo a Heineken, nos supermercados, enquanto a marca Original se manteria mais cara nos bares, onde a Ambev tem mais força com seus contratos de exclusividade. A Heineken, por sinal, trava uma disputa com a Ambev no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) por causa dos contratos de exclusividade da concorrente nos bares. A Ambev nega qualquer irregularidade. A Superintendência-Geral do Cade ainda avalia o tema e não se manifestou acerca das reclamações da concorrente.