O governo dos Estados Unidos está negociando uma participação significativa nas reservas de petróleo da Venezuela por meio de uma possível parceria entre o Departamento de Defesa e Alejandro Betancourt López, controverso investidor do setor de energia que se tornou um importante intermediário entre os dois países. As negociações têm como foco até 17 campos de petróleo espalhados pelas principais bacias petrolíferas venezuelanas, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. O Escritório de Capital Estratégico (OSC) do Pentágono é apontado como a possível agência responsável por supervisionar o investimento. Criado em 2022 pelo governo de Joe Biden, o escritório surgiu como parte de um esforço para desenvolver tecnologias críticas com a ajuda de capital privado. Durante o governo Donald Trump, o OSC passou a ser utilizado para lidar com lacunas nas cadeias de abastecimento. A possibilidade de o Pentágono assumir o controle de reservas de energia em um país estrangeiro é o mais recente aspecto pouco convencional a surgir nos esforços americanos para ampliar o controle sobre o setor petrolífero da Venezuela. Uma das modalidades em discussão prevê que os EUA obtenham uma concessão sobre áreas de petróleo por 100 anos. Trump anunciou na sexta-feira um acordo entre os EUA e a Venezuela relacionado à produção de petróleo. Segundo Trump, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, Marco Rubio, chegaram a um entendimento com o governo venezuelano para garantir bilhões de barris em reservas de petróleo “por meio de uma parceria com empresas privadas”. O acordo daria ao Pentágono a opção de adquirir uma participação de até 35% na empresa controladora da companhia de Betancourt, a North American Blue Energy Partners. A participação viria na forma de um instrumento financeiro conhecido como warrant, além de acesso preferencial a grande parte do petróleo produzido pela empresa. Os warrants dariam ao governo americano o direito de comprar ações da empresa petrolífera a um preço predeterminado. O valor desses instrumentos, que podem ser comprados e vendidos, varia de acordo com o valor da companhia que os emitiu. Segundo duas pessoas familiarizadas com o acordo, os warrants em questão seriam do tipo conhecido como “penny warrants”, que poderiam ser convertidos em ações por muito pouco dinheiro, muitas vezes apenas 1 centavo. No caso do acordo venezuelano, a Casa Branca afirmou, na noite de segunda, que a operação seria realizada “sem nenhum custo para os EUA”. Segundo Washington, a parceria e seu aval poderiam facilitar a captação de recursos da empresa junto a investidores privados e protegê-la de escrutínio jurídico ou de turbulências políticas na Venezuela. Betancourt afirmou que o acordo liberaria o potencial da Venezuela “para o benefício tanto dos venezuelanos quanto dos americanos”. A North American Blue Energy Partners é a principal produtora independente de petróleo da Venezuela e é controlada por Betancourt. Novo cenário Desde a captura do ex-presidente Nicolás Maduro, em janeiro, e sua substituição por Delcy Rodríguez, Trump tem defendido a reconstrução da combalida indústria petrolífera venezuelana, que já foi a maior da América Latina. Washington agora controla, na prática, as vendas de petróleo venezuelano e flexibilizou as sanções para permitir que empresas americanas façam negócios no país. Ainda assim, a produção de petróleo da Venezuela aumentou apenas marginalmente neste ano, e a entrada de novos investimentos estrangeiros tem sido um processo lento. Enquanto isso, a guerra dos Estados Unidos com o Irã e a interrupção do fornecimento do Oriente Médio elevaram os preços globais de energia, evidenciando os possíveis benefícios de uma retomada rápida da produção venezuelana. Enquanto grandes empresas petrolíferas americanas, como ExxonMobil Holdings Corp. e ConocoPhillips, permaneceram à margem à espera de um ambiente político e de investimentos mais favorável, Betancourt se movimentou rapidamente para consolidar seus interesses no setor. Ele também se tornou um intermediário tanto para os EUA quanto para investidores dispostos a correr riscos em busca de novos negócios. Os campos de petróleo em discussão entre o Pentágono e Betancourt incluem a área de Junín, na região de petróleo pesado do Orinoco, e campos no entorno do Lago Maracaibo, berço da indústria petrolífera venezuelana há mais de um século, segundo as pessoas familiarizadas com o assunto e uma lista de propriedades analisada pela Bloomberg. O que dizem as críticas A entrada direta do governo Trump no setor petrolífero venezuelano por meio do Departamento de Defesa deve levantar questões jurídicas e políticas nos dois países. Ao contrário da Corporação Financeira Internacional de Desenvolvimento dos EUA (DFC), criada pelo Congresso para investir em países em desenvolvimento e em projetos de infraestrutura no exterior, o OSC não tem autorização explícita para assumir participações acionárias diretas em projetos. — Isso transformaria a posição dos EUA nos mercados internacionais de petróleo, sua influência sobre a Venezuela e sua participação no futuro do país — disse Evan Ellis, pesquisador do Center for Strategic and International Studies (CSIS) e ex-integrante do Departamento de Estado. — Mas a magnitude do acordo, a velocidade com que ele está avançando, o instrumento utilizado e os parceiros e a estrutura jurídica do lado venezuelano naturalmente geram preocupações. O acordo também foi alvo de críticas de parlamentares democratas americanos. Na segunda-feira, o senador Jack Reed, de Rhode Island, principal democrata da Comissão de Serviços Armados do Senado, afirmou que “a tentativa do presidente Trump de transformar as Forças Armadas dos EUA em investidor em petróleo venezuelano é um abuso flagrante de poder e do dinheiro dos contribuintes”. Reed disse ter exigido a prestação de contas completa sobre a autoridade legal para a medida e sobre os termos financeiros integrais do acordo. No sábado, o principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, afirmou que o Escritório de Capital Estratégico “não assume participações acionárias em empresas privadas”. A fala, porém, contradiz a nota divulgada pela Casa Branca na segunda-feira sobre o acordo. Vínculo com Trump Jr. O escritório do OSC está subordinado a Stephen A. Feinberg, vice-secretário de Defesa. Empresário bilionário e nomeado político de Trump, ele recebeu a missão de tentar revitalizar a base industrial de defesa dos EUA. É Feinberg quem aprova os acordos do escritório. O OSC foi criado na gestão do então secretário de Defesa Lloyd J. Austin III. Na época, em 2022, autoridades americanas estavam preocupadas com o fato de que itens essenciais para alguns sistemas de armas eram fabricados na China. Elas também enfrentavam fragilidades na produção de armamentos expostas pela guerra na Ucrânia e problemas nas cadeias globais de abastecimento revelados pela pandemia. Essas questões se tornaram ainda mais agudas diante da redução dos estoques de armas dos EUA durante a guerra contra o Irã iniciada por Trump e Israel em fevereiro. A autoridade inicial do escritório para conceder US$ 1 bilhão em empréstimos aumentou para US$ 100 bilhões, em parte devido a um impulso proporcionado pela principal legislação de política doméstica de Trump, aprovada pelo Congresso em julho de 2025. O diretor do escritório agora é David Lorch, que trabalhou na Cerberus Capital Management, empresa cofundada por Feinberg. Em novembro, mês em que Lorch começou no cargo, o OSC anunciou um empréstimo de US$ 620 milhões à Vulcan Elements e outro, de US$ 80 milhões, à ReElement Technologies para ampliar a produção doméstica de ímãs e “fortalecer as cadeias de abastecimento americanas de minerais críticos”. O escritório afirmou que receberia warrants dessas empresas, o que, por sua vez, ajudaria os Estados Unidos a reduzir sua dependência da fabricação chinesa. A Vulcan Elements, porém, tem vínculos financeiros com Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente, o que levou senadores democratas a criticarem o acordo. Peter Navarro, assessor da Casa Branca e amigo de Trump Jr., solicitou o financiamento, segundo informou a ProPublica. Em julho, a ReElement Technologies, empresa especializada em terras raras, abandonou o processo de empréstimo porque enfrentava dificuldades para cumprir os padrões federais de diligência prévia, publicou a Reuters. Posição incomum No acordo com a empresa de Betancourt, além dos warrants, o governo federal americano teria garantidos 20% do petróleo produzido pela companhia “a preço de custo”, segundo a Casa Branca. O Departamento de Estado também teria direito de preferência para comprar os 80% restantes da produção da empresa. Alejandro Betancourt em Caracas, em 2014 — Foto: Vladimir Marcano /Bloomberg News A possibilidade colocaria o Departamento de Estado em uma posição incomum, já que normalmente são empresas petrolíferas e outros operadores comerciais que compram e vendem petróleo. Qualquer decisão de comprar petróleo para reabastecer os estoques do governo americano exigiria autorização, inclusive do Congresso, e normalmente seria conduzida pelo Departamento de Energia. A Casa Branca também afirmou que o governo americano teria poder de veto sobre a nomeação de qualquer membro do conselho de administração da empresa de Betancourt, e que a maioria dos integrantes teria de ser cidadã americana. Ainda assim, levaria anos para que novos projetos na Venezuela gerassem quantidades significativas de petróleo. Betancourt recebeu contratos de petróleo na Venezuela sem licitação muitos anos atrás. Ele foi alvo de investigações na Espanha e na Suíça sob acusações de lavagem de dinheiro e fraude fiscal. Costuma viver no Reino Unido e foi impedido pelo governo britânico de viajar para o exterior enquanto estava no país devido a um acordo de extradição com a Suíça, onde promotores emitiram um mandado de prisão contra ele. Rubio, no entanto, queria levar Betancourt à Venezuela para trabalhar em acordos e na produção de petróleo. Nos últimos meses, o Departamento de Estado pressionou os governos suíço e britânico para que aliviassem as restrições impostas a ele. (Com Bloomberg)