Em discurso na cúpula da Organização para Cooperação de Xangai, Masoud Pezeshkian fez aceno à diplomacia com Washington e tentou contrapor sanções com aprofundamento de laços no bloco 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, durante o encontro da Organização para Cooperação de Xangai — Foto: Iranian Presidency / AFP O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou nesta terça-feira que a República Islâmica está pronta para retornar aos termos do memorando de entendimento assinado com os EUA — que suspendeu as hostilidades entre os dois países em junho e estabeleceu um processo diplomático — se Washington optar por retomar a via negociada. A promessa de "reciprocidade" a um movimento americano foi feita durante a reunião de cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), no Quirguistão, que reúne líderes não-ocidentais, como o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin — que analistas apontam como um fórum que os iranianos pretendem utilizar para contrapor a nova campanha de sanções econômicas anunciada pelos EUA. — Afirmo explicitamente que, se os EUA retornarem aos seus compromissos previstos no referido memorando de entendimento, a República Islâmica do Irã tomará imediatamente medidas recíprocas — afirmou Pezeshkian nesta terça-feira, em uma declaração que acompanha a mensagem levada pelo ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, que falou em uma "volta aos trilhos" em caso de os americanos retomarem ao compromisso "que o presidente deles assinou". Apesar do novo ataque americano no começo desta semana e da promessa de um isolamento ainda maior por parte dos EUA — por meio de uma política de sanções que o secretário do Departamento do Tesouro Scott Bessent tenta emplacar em uma reunião do G20 em paralelo à cúpula da OCX — a diplomacia pública iraniana indica que não será fácil para o governo do presidente americano, Donald Trump, forçar Teerã a fazer concessões. Em seu discurso no evento, Pezeshkian disse que a Organização para a Cooperação de Xangai deveria criar seu próprio banco e uma agência de crédito à exportação. Em conversa com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e do Paquistão, Shehbaz Sharif, ouviu sinalizações parecidas sobre o desejo de fortalecimento de relações "em diversos setores". O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, pediu uma maior cooperação "em vários campos comerciais e econômicos", enquanto o líder do Quirguistão, Sadyr Japarov, propôs que Teerã investisse em uma refinaria de petróleo na Ásia Central. Nenhum acordo concreto foi anunciado, mas as sinalizações servem como um termômetro inicial à adesão do restante do mundo à "maior ofensiva financeira já mobilizada", segundo Bessent anunciou ao Financial Times. Analistas especularam após o anúncio que a campanha atual só teria efeitos para além de outros pacotes de sanções se o isolamento fosse hermético. Para isso, alguns argumentaram, seria necessária a adesão da China, principal compradora do petróleo iraniano — algo que o secretário americano tentou minimizar em entrevistas antes do G20. As autoridades de Teerã têm alternado o discurso sobre a campanha americana. Ao público interno, Pezeshkian admitiu que o país enfrenta "muitas dificuldades", prometendo que o governo tomaria as medidas necessárias para mitigar os efeitos sobre a população — em paralelo, a liderança suprema, aiatolá Mojtaba Khamenei, reforçou o controle sobre os organismos de repressão social, a fim de evitar distúrbios sociais. Para fora, Teerã prometeu retaliação contra quem aderisse à campanha de sanções de Washington, afirmando que seria tratado "como inimigo". Em Bishkek, Pezeshkian tem na agenda encontros com Putin e Xi, em uma estratégia de usar a proximidade com Rússia e China como contraponto geopolítico aos interesses americanos. O objetivo remonta ao sentido inaugural da Organização para a Cooperação de Xangai, criada no início dos anos 2000 para contrapor Washington. O encontro com o presidente russo aconteceu após a plenária da OCX, no qual Pezeshkian agradeceu pela posição de Moscou durante os meses desde o início da guerra com Israel e EUA no Oriente Médio. — Agradecemos suas posições em cada etapa, tanto no período em que estavam ocorrendo combates e atos de agressão, como em circunstâncias normais, quando os EUA estavam nos impondo sanções, nas Nações Unidas e em fóruns internacionais — afirmou. Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e do Irã, Masoud Pezeshkian, encontram-se durante encontro da OCX — Foto: Kristina Solovyova/POOL/AFP O jornal iraniano Shargh publicou nesta terça-feira que a presença de Pezeshkian na cúpula "carrega uma mensagem política clara: o Irã está fortalecendo seus laços com estruturas asiáticas e eurasiáticas e seus esforços para enfrentar a pressão econômica", escreveu. "Em condições de pressão máxima, Teerã está tentando se estabelecer como um ator indispensável na rede econômica, de trânsito e geopolítica da Eurásia". Outras lideranças do bloco já demonstraram resistência à ideia de isolar o Irã. Além de Pequim, que emitiu um posicionamento público dizendo que salvaguardaria seus interesses e condenou decisões unilaterais americanas, Paquistão e Turquia reagiram contra a ideia de encerrar as relações comerciais e empresariais com o Irã, ou simplesmente ignoraram as ameaças. Confluência de interesses Enquanto Teerã tenta assegurar aliados, a necessidade de se contrapor aos EUA se alinha a interesses chineses. Xi chegou à Ásia Central para transmitir a mensagem de que tem amigos e influência e está preparado para ajudar ser a fonte de estabilidade e defensora da "ordem mundial multipolar ordenada" — uma oposição à ordem mundial centrada nos EUA. Analistas apontam que Pequim está usando a solidariedade com a Rússia e o Irã, países em guerra com o Ocidente, para projetar influência, o que ofereceria a Xi uma margem de manobra enquanto se prepara para uma cúpula com Trump no fim do mês — ao passo que o presidente americano aumenta a pressão sob aliados. — A teoria chinesa para justificar a transformação da ordem política internacional na direção que considera preferível é acumular apoio da "maioria global" — disse Ryan Hass, ex-diplomata de carreira e ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, atualmente no Brookings Institution. — É por isso que a participação de Xi nesses agrupamentos é tão importante para Pequim. Isso constrói uma narrativa em torno do avanço da China na obtenção de apoio para desempenhar um papel mais central no cenário mundial. (Com Bloomberg, AFP e NYT)
Presidente do Irã propõe reciprocidade imediata caso EUA retornem a acordo, enquanto busca apoio de China e Rússia
Em discurso na cúpula da Organização para Cooperação de Xangai, Masoud Pezeshkian fez aceno à diplomacia com Washington e tentou contrapor sanções com aprofundamento de laços no bloco






