Encontro da Organização de Cooperação de Xangai reúne líderes de dez países em meio às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e à disputa comercial entre Washington e Pequim 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente da China, Xi Jinping, passa pela guarda de honra do Quirguistão durante uma cerimônia de boas-vindas antes de conversas com seu homólogo quirguiz em Bisqueque, em 31 de agosto de 2026 — Foto: VYACHESLAV OSELEDKO / AFP Enquanto os líderes de China, Rússia, Índia, Irã e de outras nações convergiam para a Ásia Central para uma cúpula de dois dias iniciada na segunda-feira, uma coisa estava clara desde o princípio: mesmo enquanto o presidente americano, Donald Trump, tenta fazer o mundo girar em torno de Washington, o presidente chinês, Xi Jinping, tem sua própria e poderosa órbita. A chegada do líder chinês a Bisqueque, capital do Quirguistão, para uma reunião da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), grupo político e de segurança formado por dez países, ressaltou a ampla capacidade de Xi de sustentar os adversários de Washington, tanto em tempos de paz quanto de guerra. O presidente da China, Xi Jinping, participa de uma cerimônia de assinatura com seu homólogo do Quirguistão após conversas em Bisqueque, em 31 de agosto de 2026 — Foto: VYACHESLAV OSELEDKO / AFP As conversas ocorrem sob o pano de fundo de duas guerras que empurraram o mundo para um período de intensa instabilidade geopolítica, reprimindo o crescimento econômico e elevando a inflação. Esses desafios estavam no centro das discussões realizadas simultaneamente do outro lado do planeta, em Asheville, na Carolina do Norte, durante uma reunião de ministros das Finanças dos países do G20. O encontro em Bisqueque, em contraste, foi uma vitrine da enorme influência que as guerras deram a Xi. Nenhum país foi mais importante para a Rússia e o Irã na sustentação de suas economias e esforços de guerra do que a China. Xi enfraqueceu os esforços dos Estados Unidos e de seus aliados para pressionar economicamente Moscou e Teerã, usando o enorme peso geopolítico e econômico de Pequim como maior importador de petróleo bruto e exportador de bens de consumo do mundo. O principal rival de Xi, os EUA, foi distraído pela guerra no Irã e retirou parte de suas forças militares da Ásia e da Europa. No mês passado, o líder chinês pôde ignorar ameaças do presidente Trump de que Washington imporia um "Dia D econômico" aos países que oferecessem uma tábua de salvação a Teerã. Trump já havia feito ameaças semelhantes contra compradores de petróleo russo, mas não tomou nenhuma medida contra Pequim. — Depois do último ano, Trump enfrenta um problema fundamental de credibilidade com Xi — afirma Julian Gewirtz, que foi diretor sênior para Assuntos da China e de Taiwan no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Biden. — Tanto suas ameaças quanto suas garantias parecem a Pequim, como disse outro líder mundial, estar escritas a lápis. Em Bisqueque, a prioridade de Xi é fortalecer sua imagem como líder das nações não ocidentais e reagir ao que chama de hegemonia dos EUA. Apesar disso, é provável que seja cauteloso quanto ao nível de apoio que oferecerá publicamente ao Irã. O líder chinês não pode se dar ao luxo de provocar Trump a menos de um mês de sua viagem a Washington, onde deverá tentar estender a frágil trégua econômica entre EUA e China. Antes de seguir para os EUA, Xi viajará ao Egito e à Índia para visitas de Estado. A série de viagens que antecede sua cúpula com Trump tem como objetivo apresentar Xi como um estadista poderoso em um momento em que Trump desgastou as relações americanas com países de todo o mundo, dizem analistas. — Xi parece enxergar uma oportunidade de mostrar que a China tem amigos e opções ao redor do mundo justamente no momento em que Washington está afastando muitos de seus aliados — destaca Gewirtz. O alcance da influência chinesa A cúpula desta semana em Bisqueque é um lembrete dos limites da guerra econômica liderada pelos EUA. O presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, ambos criticamente dependentes da China, chegaram à capital do Quirguistão na segunda enquanto buscam desafiar os esforços ocidentais para isolá-los e perseverar em seus próprios objetivos de guerra. Pequim, em grande medida, atendeu a essas necessidades, estendendo linhas de sustentação econômica a Moscou e Teerã e usando seu peso econômico para frustração de Washington. Embora o poder de Xi esteja em ascensão, há limites para sua influência. Apesar da OCX ser, em parte, uma organização de segurança, Pequim não tem se mostrado disposto a mobilizar suas forças militares para defender membros como o Irã, que entrou na organização em 2023, ou a Rússia. Em vez disso, tem defendido formalmente o diálogo e o fim dos conflitos. De acordo com analistas, Xi não quer se envolver em guerras estrangeiras, pois acredita que elas sejam uma das principais razões pelas quais os EUA perderam poder ao longo das últimas décadas. Pequim, porém, está disposta a ampliar o comércio e fornecer tecnologias que podem ser utilizadas no campo de batalha. O líder chinês se reuniu com Putin para conversas bilaterais em Bisqueque na segunda-feira e elogiou o que chamou de perspectivas cada vez mais promissoras para as relações entre China e Rússia. Putin, por sua vez, destacou o sucesso da isenção de vistos entre os dois países e afirmou estar disposto a tornar o acordo permanente. O líder russo também observou que a primeira viagem programada de um navio porta-contêineres chinês passou, em meados de agosto, pela chamada Rota Marítima do Norte, antecipando uma cooperação mais ampla no Ártico. A eventual reunião de Xi com o líder iraniano separadamente da cúpula indicará até que ponto o presidente chinês está disposto a avançar nessa direção antes da visita programada aos EUA. Rússia, Irã e os caminhos alternativos Embora inicialmente reunisse apenas Rússia, China e quatro países da Ásia Central, a Organização de Cooperação de Xangai foi ampliada em 2017 para incluir Índia e Paquistão e, mais recentemente, Bielorrússia e Irã. Nesse processo, tornou-se um contraponto cada vez maior aos grupos políticos e de segurança liderados pelo Ocidente. Alguns dos líderes reunidos para a cúpula em Bisqueque ajudaram Putin a manter sua guerra contra a Ucrânia, que já entrou em seu quinto ano, e auxiliaram o Irã em sua tentativa de resistir a uma ofensiva de meses de Washington. Pouco depois de Putin lançar a invasão em larga escala em 2022, o Irã forneceu à Rússia drones Shahed e ajudou Moscou a estabelecer instalações domésticas para a produção dessas armas. Os países da Ásia Central se tornaram rotas importantes de importação e pagamento para a Rússia, enquanto Moscou contorna as restrições ocidentais. O Irã recorreu à Ásia Central como uma rota alternativa de importação em meio ao bloqueio imposto pelos EUA. Índia, Cazaquistão e Bielorrússia estão entre os países que passaram a enviar gasolina para a Rússia nas últimas semanas, enquanto ataques ucranianos de longo alcance devastaram refinarias russas. A Índia se tornou uma das maiores compradoras de petróleo russo após a invasão de Putin. Embora suas importações tenham caído após a pressão de Trump e as novas sanções dos EUA contra grandes empresas russas do setor petrolífero, a guerra americana contra o Irã abalou os mercados de petróleo e levou fornecedores indianos a voltar a recorrer às importações da Rússia. A China é a maior importadora de petróleo bruto russo e iraniano. A relação de Xi com Putin é cada vez mais favorável a Pequim. As sanções ocidentais relacionadas à guerra da Rússia contra a Ucrânia permitiram que a China acumulasse petróleo russo comprado com desconto, amortecendo o impacto de um bloqueio no Estreito de Ormuz. Influência na Ásia Central Até mesmo o local da cúpula desta semana evidencia a crescente influência da China sobre a Rússia. Ex-república soviética, o Quirguistão esteve firmemente na esfera de influência de Moscou. Mas a influência chinesa no país da Ásia Central cresceu, e as cinco nações da região se aproximaram em resposta à guerra da Rússia contra a Ucrânia. Em comentários iniciais antes de uma reunião com o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, na segunda-feira, Xi afirmou que as relações entre Pequim e Bisqueque haviam "dado um salto à frente" e que a cooperação estava "florescendo em todas as áreas". Na noite de segunda, os líderes participaram de uma luxuosa cerimônia de abertura dos Jogos Mundiais Nômades, realizada em um estádio recém-construído em Bisqueque e organizada por Japarov. Dançarinos e cantores vestidos com trajes tradicionais se apresentaram enquanto cavaleiros percorriam uma área do palco cercada por explosões de fogo. Quando Xi chegar aos EUA, Trump provavelmente buscará a cooperação do líder chinês tanto em relação ao Irã quanto à Coreia do Norte, mas não está claro se a China atenderá ao pedido, observa Gewirtz. — Trump se colocou em um beco sem saída — diz ele. — O governo está tendo dificuldades para conciliar dois objetivos aparentemente irreconciliáveis: aumentar a pressão sobre o Irã e manter sua trégua com a China.