Encontro da Organização de Cooperação de Xangai, no Quirguistão, reúne países sob pressão de Washington e ocorre em meio ao avanço das alianças de Pequim fora do Ocidente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente da Rússia, Vladimir Putin (E), e o presidente da China, Xi Jinping (D), apertam as mãos durante uma reunião à margem da cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) em Bishkek, em 31 de agosto de 2026 — Foto: KRISTINA SOLOVYOVA / POOL / AFP O presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou nesta segunda-feira que Moscou busca ampliar a cooperação com a China nas áreas de inteligência artificial (IA) e inovação digital. A declaração foi feita durante um encontro com o presidente chinês, Xi Jinping, em Bishkek, capital do Quirguistão, onde ocorre uma cúpula de dois dias da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), grupo formado por dez países. Além de Putin e Xi, a cúpula reúne o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian; o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan; e os primeiros-ministros da Índia, Narendra Modi, e do Paquistão, Shehbaz Sharif, entre outros líderes. — A cooperação está se desenvolvendo com sucesso em todas as frentes — afirmou Putin antes da reunião com Xi. — As inovações digitais, incluindo as tecnologias de inteligência artificial, também estão abrindo novas oportunidades para o desenvolvimento econômico de nossos países. O encontro bilateral ocorre em meio ao estreitamento dos laços entre Moscou e Pequim, enquanto a Rússia enfrenta o quinto ano de guerra contra a Ucrânia e permanece sob fortes sanções ocidentais. A China é o principal comprador de petróleo bruto russo e, segundo o governo de Putin, a parceria entre os dois países se tornou um dos principais eixos de sua política externa. Putin também classificou a "cooperação estratégica entre Rússia e China" como "um modelo de relações entre Estados". Xi, por sua vez, afirmou estar "feliz" em encontrar Putin e disse que os vínculos entre os dois países se tornaram "mais sólidos", com perspectivas "ainda mais promissoras". O presidente chinês afirmou ainda que aumentou o nível de "incerteza e imprevisibilidade na ordem internacional". Articulação política e segurança Criada inicialmente por China, Rússia e quatro países da Ásia Central, a OCX foi ampliada em 2017 com a entrada de Índia e Paquistão e, mais recentemente, com Belarus e Irã. O grupo passou a representar um espaço de articulação política e de segurança cada vez mais relevante fora das estruturas lideradas pelo Ocidente. A reunião acontece em um momento particularmente sensível para seus integrantes. Rússia e Irã enfrentam conflitos armados e forte pressão econômica dos Estados Unidos, enquanto China e Índia estão envolvidas em disputas comerciais em meio à ofensiva tarifária de Washington. O encontro também reforça a aproximação entre países que, em diferentes graus, desafiam a influência americana. Putin e Xi já usaram outras reuniões da OCX para defender a construção de um mundo multipolar e apresentar uma frente comum diante do Ocidente. Aproximação entre Rússia e China O presidente da Rússia, Vladimir Putin (E), e o presidente da China, Xi Jinping (D), apertam as mãos durante uma reunião à margem da cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) em Bishkek, em 31 de agosto de 2026 — Foto: KRISTINA SOLOVYOVA / POOL / AFP Para Moscou, a relação com Pequim ganhou importância desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022. A China não condenou a ofensiva russa e se tornou um importante destino para o petróleo do país, enquanto empresas e fornecedores chineses passaram a desempenhar um papel relevante no abastecimento da economia russa. A parceria também envolve produtos e componentes usados pela indústria de defesa. De acordo com o New York Times, Pequim mantém Moscou abastecida há cerca de quatro anos e meio com produtos que vão de carros e roupas a componentes eletrônicos utilizados pelos militares russos na produção de drones e outras armas. A Rússia, por sua vez, recorreu a países da Ásia Central para criar rotas alternativas de importação e pagamento diante das restrições ocidentais. Índia, Cazaquistão e Belarus também estão entre os países que enviaram gasolina à Rússia nas últimas semanas, após ataques ucranianos de longo alcance atingirem refinarias russas. A aproximação tecnológica anunciada por Putin ocorre, ainda, em um momento de crescente controle do Kremlin sobre o ambiente digital russo. Nos últimos meses, o governo impôs interrupções de internet e restrições a aplicativos de mensagens populares. Moscou também vem promovendo o uso do Max, plataforma de mensagens apoiada pelo Estado e sem criptografia, semelhante ao chinês WeChat. Críticos afirmam que o aplicativo levanta preocupações sobre privacidade e espionagem. Irã busca apoio fora do Ocidente O presidente iraniano também participa da cúpula em um momento de forte pressão sobre Teerã. Os EUA ampliaram as medidas econômicas contra o país e, neste mês, impuseram sanções secundárias destinadas a pressionar seus parceiros comerciais. Em reunião com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, Pezeshkian afirmou que a continuidade da guerra contra Washington não interessa ao Irã nem à região. — Continuamos nos esforçando para encontrar um caminho de acordo e entendimento, e consideramos que continuar a guerra não é de nosso interesse nem do interesse da região — afirmou. Segundo o presidente, a solução para os problemas passa pelo diálogo e pelo entendimento. As declarações foram feitas após ataques americanos contra a ilha iraniana de Larak, que, segundo a agência oficial iraniana IRNA, deixaram dois mortos e vários feridos. O Irã afirmou nesta segunda-feira ter realizado ataques com drones contra bases nos Emirados Árabes Unidos e na Jordânia que, segundo Teerã, são utilizadas por militares americanos. O governo iraniano classificou a ação como "legítima defesa". A Rússia também estreitou os vínculos com Teerã desde o início da guerra na Ucrânia. Pouco depois da invasão de 2022, o Irã forneceu drones Shahed à Rússia e ajudou Moscou a estabelecer instalações para a produção doméstica dessas armas. O peso da China Nesse cenário, a China ocupa uma posição central. Pequim é a maior importadora de petróleo bruto da Rússia e do Irã e conseguiu ampliar sua influência econômica e diplomática sobre os dois países enquanto eles enfrentam sanções e isolamento do Ocidente. A relação com Moscou, porém, é cada vez mais vantajosa para Pequim. As sanções impostas à Rússia permitiram à China comprar petróleo russo com desconto e acumular reservas, o que também pode reduzir o impacto de eventuais interrupções no fornecimento de energia provocadas pela instabilidade no Estreito de Ormuz, segundo o New York Times. A própria escolha do Quirguistão para sediar a reunião evidencia a transformação do equilíbrio de forças na Ásia Central. Ex-república soviética, o país esteve durante décadas na esfera de influência de Moscou, mas a presença econômica e política chinesa na região cresceu nos últimos anos. Em reunião com o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, Xi afirmou nesta segunda que as relações entre Pequim e Bishkek haviam "dado um salto à frente" e que a cooperação estava "florescendo em todas as áreas". A ofensiva diplomática ocorre a menos de um mês de uma viagem de Xi a Washington, onde ele deverá se reunir com o presidente americano, Donald Trump, para tentar estender a frágil trégua econômica entre EUA e China. Antes de seguir para os EUA, o líder chinês viajará ao Egito e à Índia para visitas de Estado. Para o pesquisador Julian Gewirtz, da Universidade Columbia, a cúpula ocorre em um momento em que a China pode explorar a aproximação com países insatisfeitos com Washington. "Xi parece enxergar uma oportunidade de mostrar que a China tem amigos e opções ao redor do mundo justamente no momento em que Washington está afastando muitos de seus aliados", escreveu Gewirtz, que foi diretor sênior para a China no Conselho de Segurança Nacional durante o governo de Joe Biden. Para o especialista, a ofensiva diplomática chinesa também serve para ampliar a influência de Pequim sobre a Eurásia e o Sul Global e fortalecer instituições internacionais orientadas por suas próprias prioridades. (Com AFP e New York Times)