Em quatro décadas, o Brasil terá mais idosos do que crianças. A pirâmide que sustentou a ideia de nação jovem está virando de cabeça para baixo —e rápido. O que na Europa levou um século, aqui acontece em uma geração. Um levantamento sobre como a universidade brasileira se prepara para isso, feito a partir do mapeamento dos programas de pós-graduação em envelhecimento, chega a um resultado revelador.

Existem hoje 11 programas de mestrado e doutorado no país com foco explícito em envelhecimento, a maioria reunida na rede Reprinte. E isso é um bom sinal, uma vez que o campo existe e tem gente formando gente. Contudo, das 23 linhas de pesquisa que esses programas declaram, mais da metade trata diretamente de saúde e cuidado, com pesquisas em medicina, biologia, funcionalidade, clínica e atenção primária. Nenhuma linha menciona, no nome, finanças, moradia, espaço público, lazer ou sexualidade. Temas centrais em qualquer definição de qualidade de vida viram, quando muito, nota de rodapé.

Fora da gerontologia, o quadro se repete. Em economia, ciências sociais, comunicação e psicologia, campos que deveriam pensar o idoso como cidadão ou corpo desejante, não como paciente, o tema quase não existe como linha de pesquisa. Sobrevive como interesse isolado, caso da antropóloga Guita Debert, da Unicamp, que abriu sozinha um subcampo nos anos 1990 —ou, no máximo, como grupo de pesquisa dentro de um programa maior, caso do Núcleo de Envelhecimento Humano ligado à psicologia da UFRJ. Sociologia e comunicação simplesmente não têm o assunto no radar.