Pressão sobre preços, custo do gás natural e vulnerabilidade a choques geopolíticos internacionais põem abastecimento no centro da agenda do agro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Alta nos preços volta a pressionar os custos de produção no campo — Foto: Wenderson Araujo/Trilux A alta dos preços dos fertilizantes voltou a pressionar os custos de produção no campo e expôs a vulnerabilidade do Brasil diante do mercado internacional de insumos. Choques geopolíticos, custos do gás natural e limitações da produção doméstica se combinam para encarecer um insumo essencial à produção de alimentos e colocar em discussão a capacidade do país de garantir fertilizantes competitivos no longo prazo. Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o desafio é reduzir a dependência externa e criar condições para ampliar a produção brasileira, sem abandonar as importações. “A independência da produção de fertilizantes é algo que a gente não almeja no médio e longo prazo. Mas a redução da dependência, sim”, afirma Maciel Silva, diretor técnico adjunto da CNA. A pressão ganhou força com os conflitos no Oriente Médio, principalmente no Estreito de Ormuz, rota relevante para fertilizantes e gás natural, matéria-prima fundamental para os nitrogenados. “Isso fez com que o preço da ureia tivesse uma escalada absurda durante esse período do conflito", diz Maciel. Segundo ele, os aumentos chegaram a 50%. Enquanto a ureia recuou posteriormente, os fosfatados continuaram pressionados, entre outros fatores, pela menor oferta de enxofre, utilizado em sua fabricação. “Os preços ainda estão elevados agora, um momento de ampliação da demanda por esses fertilizantes", afirma Maciel. Segundo sua avaliação, os fosfatados estão cerca de 30% acima dos níveis anteriores ao conflito. Preço alto limita produção Para o produtor, o preço pode ser o principal limitador das compras. “Não quer dizer que o produtor vai querer comprar e não vai encontrar o produto. Ele vai encontrar, só que a um preço alto diante do que ele está recebendo pelos produtos agrícolas que comercializa. A relação de troca está em seus piores momentos na história recente”, afirma. A independência da produção de fertilizantes é algo que a gente não almeja no médio e longo prazo. Mas a redução da dependência, sim Segundo Maciel, nos primeiros sete meses do ano, o preço da tonelada importada subiu entre 17% e 18% no preço FOB. Cerca de 92% do fertilizante utilizado no país é importado. Para a CNA, reduzir a vulnerabilidade não significa buscar autossuficiência, mas ampliar a produção doméstica e diversificar as fontes externas. Maciel defende a implementação efetiva do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF). “O Plano Nacional de Fertilizantes é um fórum estabelecido e uma iniciativa de Estado de extrema relevância. Eu tenho falado com bastante frequência do estabelecimento de uma política de Estado”, afirma. Para Maciel, o tema ultrapassa o campo por ser um insumo estratégico. “Está associado à segurança alimentar, à capacidade competitiva do principal segmento da economia hoje. Então, ele tem um efeito direto para toda a sociedade”. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou em nota que há uma estratégia ancorada no Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert) e no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) que pretende ampliar a capacidade produtiva doméstica para que, até 2050, a produção nacional seja capaz de atender entre 45% e 50% da demanda interna. De acordo com o MDIC, o objetivo é diminuir a exposição brasileira a choques geopolíticos e logísticos sem deixar de recorrer ao mercado internacional. Ambiente regulatório Entre as frentes apontadas pela CNA estão pesquisa, incentivos tributários, novas fontes e tecnologia. Uma das prioridades é a regulamentação da legislação de bioinsumos. “O estabelecimento adequado desse ambiente regulatório é o que vai determinar a nossa capacidade de inovação”, afirma Maciel. Os bioinsumos possuem importância estratégica, tanto como ferramentas complementares aos fertilizantes convencionais quanto para aumentar a eficiência do uso de nutrientes e reduzir a dependência de determinados insumos importados Um exemplo é a fixação biológica de nitrogênio na soja, tecnologia que permite disponibilizar à planta nitrogênio retirado da atmosfera, o que fez com que os produtores rurais não utilizem mais adubação nitrogenada na soja — uma economia de cerca de US$ 20 bilhões por ano, segundo Maciel. A perspectiva é desenvolver soluções semelhantes para outras culturas e nutrientes, como milho e cana-de-açúcar, além de fósforo e potássio. "A gente tem o potencial de desenvolver essas tecnologias. “O momento de atenção normativa é agora na discussão da regulamentação pelo executivo no Novo Marco Regulatório de Bioinsumos. O Brasil não pode criar exigências desproporcionais ao risco ou superiores às aplicadas a alternativas convencionais, sob pena de aumentar custos, restringir a inovação, dificultar a produção própria e reduzir as opções disponíveis ao produtor.” Na produção de nitrogenados, o principal entrave apontado é o gás natural. “Não que a gente não tenha gás natural. A gente não tem infraestrutura e capacidade de trazer esse gás para o continente a um preço competitivo”, afirma Maciel. Sem gás competitivo, o produto nacional perde espaço para o importado. Para os próximos anos, Maciel prevê aumento do consumo: “A demanda vai ser crescente, porque a demanda de alimentos no mundo é crescente, a demanda populacional é crescente”. O Brasil, segundo ele, tem condições de atender a esse mercado, mas enfrenta limitações na capacidade industrial de fertilizantes. Como novas plantas exigem licenciamento, investimentos e tempo para entrar em operação, o dirigente defende decisões de longo prazo. O MDIC informou que o PNF propõe ações com tecnologias adaptadas às condições tropicais brasileiras, redes de apoio tecnológico, adequação de políticas fiscais, biofertilizantes e remineralizadores de solo, além do apoio a novas plantas industriais e a retomada de fábricas paralisadas, como a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III), da Petrobras, em Três Lagoas (MS). Segundo o MDIC, quando concluída, a unidade tem potencial para atender cerca de 15% da demanda nacional de ureia. Para a CNA, decisões sobre ambiente regulatório, gás natural, mineração, pesquisa e bioinsumos precisam ser tomadas agora para ampliar a segurança do abastecimento. “São decisões que a gente precisa tomar agora para que, no médio prazo, a gente possa estar colhendo alguns frutos”, explica Maciel. De acordo com o MDIC, o Confert monitora atualmente uma carteira de 90 projetos, dos quais 20 envolvem construção, ampliação ou reativação de fábricas de fertilizantes, com investimentos superiores a R$ 20 bilhões. Desses, já estão em operação: Serra do Salitre-MG (fosfatados), Fafen-BA (nitrogenados), Fafen-SE (nitrogenados) e Araucária-PR (nitrogenados). Há ainda projetos estruturantes como o Potássio Autazes (AM) e o Santa Quitéria (CE), de grande relevância para as metas de redução da dependência brasileira de insumos importados, mas demandam maturidade para atender compromissos com a sustentabilidade socioambiental. No caso de Autazes, o empreendimento já conta com as licenças de instalação emitidas. Em Santa Quitéria, a presença de urânio associado à jazida de fosfato eleva naturalmente o rigor e a complexidade técnica e regulatória da avaliação.