Uma pesquisa realizada pela Afya em parceria com o Conexa Research Center aponta que 78% dos médicos ouvidos já utilizam inteligência artificial (IA) na prática clínica. A adoção avança em meio à expansão acelerada da produção científica: estimativas indicam que o conhecimento médico dobra a cada 75 dias. Para quem está na assistência, a dificuldade não é apenas localizar um estudo ou orientação, mas identificar rapidamente o que pode contribuir para uma conduta terapêutica. Em contrapartida, no mesmo levantamento, realizado entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, os dados mostram que 64% dos entrevistados já se depararam com alguma informação incorreta, inadequada ou potencialmente arriscada produzida por uma ferramenta de inteligência artificial. É nesse espaço entre a velocidade da tecnologia e a necessidade de segurança no segmento de saúde que entram soluções como o Whitebook, da Afya. A ferramenta é uma plataforma de atuação clínica, potencializada por inteligência artificial e revisada por profissionais da saúde, que auxilia os médicos na tomada de decisões em tempo real. O cardiologista Ronaldo Gismondi, diretor médico da Afya e editor-chefe do Afya Whitebook, explica que os conteúdos da plataforma são organizados em um repositório constantemente atualizado por 200 médicos, que revisam os conteúdos levando em consideração as pesquisas científicas mais relevantes e a realidade da saúde dos brasileiros. — Dessa forma, criamos um espaço seguro, com alto nível de regulação, com uma base de informações curada e o suporte de uma IA que não alucina. A plataforma reúne informações sobre doenças, medicamentos, procedimentos, interações, calculadoras clínicas e fluxogramas. De acordo com o monitoramento da empresa, as principais consultas dos médicos à ferramenta são em relação às prescrições de remédios, como dosagem e interação medicamentosa, e orientações de condutas para situações específicas. — Isso não significa, de forma nenhuma, uma substituição da avaliação profissional. Essas tecnologias são usadas para localizar informações, conferir doses, checar protocolos e organizar conhecimentos que já fazem parte da formação do médico — ressalta Gismondi. Da consulta à decisão Segundo Gismondi, o Whitebook tem sido uma importante forma de suporte nos consultórios, mas também para recém-formados e plantonistas de pronto-atendimento. Para ele, ter um local de consulta confiável minimiza as inseguranças e as chances de erro. Fernanda Glus Scharnoski, médica residente de ginecologia e obstetrícia, conta que teve acesso à ferramenta ainda durante a graduação em medicina. — No início da residência, quando precisei assumir a responsabilidade pela definição da conduta final no pronto-atendimento, ficava apreensiva ao prescrever medicamentos. As buscas no Whitebook simplesmente para confirmar a informação deram mais segurança, e a tecnologia passou a fazer parte da rotina de atendimentos. Rapidamente consigo verificar dose, intervalo, duração do tratamento e forma de administração sem interromper a interação com o paciente — explica. A residente Jéssica Brandão passou por experiência prática em uma unidade básica de saúde (UBS) e, atualmente, na Clínica Médica do Hospital Universitário Antônio Pedro, em diferentes setores, incluindo enfermaria, ambulatório e plantões de emergência. Com uma rotina que envolve desde acompanhamento de pacientes oncológicos até situações agudas de emergência que exigem decisões rápidas, ela diz que o aplicativo fica sempre aberto no computador e no celular durante o trabalho. Se ela tem dúvida sobre alguma conduta específica, sobre qual deve ser o próximo passo ou precisa de atualizações, a ferramenta está na mão. Jéssica cita como exemplo checagens relacionadas a medicamentos mais recentes, como as canetas para controle de peso e diabetes. Diante de dúvidas sobre indicação, efeitos adversos ou tempo de suspensão do tratamento, a consulta à base pode servir como ponto de partida para entendimento de um caso e a tomada de decisão. Além de esclarecer dúvidas com base em conteúdo científico e de sociedades médicas, por meio de chat de IA, o Whitebook conta com diversas funcionalidades integradas. Alguns exemplos são prescrição digital que já consulta riscos de interação medicamentosa e alergias, gestor de plantões e calculadora de honorários, e radar de conteúdos mais buscados para sinalizar potenciais surtos. Para Gismondi, o processo de inclusão da inteligência artificial na prática clínica é semelhante ao que ocorreu com outras etapas da digitalização da saúde. Prontuários eletrônicos, telemedicina e sistemas digitais passaram de recursos restritos a determinados serviços para ferramentas presentes em boa parte da assistência. — A IA é tão útil e de acesso tão fácil que não temos mais como fugir dela. A questão é como incorporá-la de maneira que se maximize o benefício e minimize o dan --------- Graduação deve preparar estudantes para novo contexto tecnológico Dados e tecnologia estarão cada vez mais presentes na medicina — Foto: Divulgação As transformações também chegam à formação médica. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) de 2025 passaram a contemplar a educação digital nas competências fundamentais dos estudantes de medicina. Neste ano, a Afya passou a oferecer gratuitamente a todos os seus estudantes de medicina uma segunda graduação, em Ciência de Dados e Saúde Digital. A proposta é preparar alunos para um ambiente em que dados e tecnologia estarão cada vez mais presentes, desde a assistência e a organização de prontuários até o desenvolvimento de ferramentas de apoio à decisão. — O que esperamos é que o futuro médico não seja apenas usuário de sistemas digitais, mas compreenda os fundamentos por trás deles — diz Gismondi. O curso, autorizado pelo Ministério da Educação (MEC) e com conclusão prevista para dois anos, inclui disciplinas de big data, inteligência artificial, analytics e gestão de tecnologias em saúde. Para apoiar na sua formação médica, o executivo reforça que os estudantes de medicina da Afya também têm acesso gratuito ao conteúdo do Whitebook. Além disso, a inteligência artificial é utilizada no próprio processo de aprendizagem desses alunos. O copiloto Afya Intelligence cruza dados acadêmicos, autoavaliações e feedbacks de docentes para orientar sobre reforços para os estudos, identificando pontos de dificuldade e sugerindo conteúdos específicos. A instituição também utiliza centros de simulação acreditados internacionalmente para aproximar o treinamento acadêmico de situações encontradas na prática clínica. As habilidades incluem escuta ativa, comunicação de más notícias e relação médico-paciente, além de incorporar novas ferramentas à formação clínica, como a ultrassonografia point-of-care. A proposta, segundo a Afya, é formar médicos preparados para trabalhar com tecnologia sem perder a relação humana com o paciente.