Custos têm de ser enfrentados de forma transparente, os incentivos, monitorados, e os resultados, periodicamente mensurados e avaliados 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Quando a onda da inteligência artificial (IA) começou, alguns anos atrás, sabia-se que grandes centros de processamento de dados, os data centers, teriam de ser construídos. Sabia-se também que eles consomem vastas quantidades de eletricidade. Assim, havia o temor de que, se a oferta de energia não acompanhasse o crescimento da demanda, surgiriam gargalos no fornecimento, e os preços acabariam subindo. Aos poucos, está ficando claro que os temores tinham fundamento. O Congresso brasileiro está perto de aprovar o Redata, um programa de incentivos fiscais para atrair data centers para o país. O desafio do fornecimento de energia, de seus custos e dos efeitos na conta de luz dos consumidores será enfrentado também por aqui. Nos EUA, que lideram a corrida da IA, os preços da energia para o consumidor residencial estão subindo ao dobro do ritmo da inflação. Ou seja, a sociedade está pagando a conta, o que começa a provocar uma reação pelo mundo. Data centers existem há décadas. Mas, desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, o uso de IA generativa disparou, o que multiplicou a demanda por processamento e, consequentemente, por energia elétrica. Hoje há cerca de 12 mil data centers em operação pelo mundo, e a capacidade de processamento deve dobrar até 2030. Empresas como Amazon, Google, Meta e Microsoft estão construindo instalações gigantescas, os data centers de hiperescala. O investimento apenas das 14 maiores empresas abertas do setor deve atingir US$ 750 bilhões neste ano, contra US$ 450 bilhões em 2026. O gasto global na construção de data centers pode chegar a US$ 7 trilhões em 2030, segundo estimativa da consultoria McKinsey. Esse é maior processo de investimento em infraestrutura em tempos de paz da história. Apesar dos valores astronômicos, um dos principais obstáculos ao setor não tem sido levantar capital, mas sim a escassez de eletricidade. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), em 2025 os data centers consumiram 485 terawatts-hora, cerca de 1,5% do consumo mundial de energia elétrica. O aumento foi de 17% em relação ao ano anterior. Para conter o temor de uma escalada nos preços, muitas empresas de tecnologia anunciaram parcerias e investimentos em geração elétrica, incluindo reativação de usinas nucleares, como a de Three Mile Island, palco do pior acidente nuclear nos EUA. A Microsoft, por exemplo, prometeu que qualquer custo para atender seus data centers não seria repassado para as comunidades. A Anthropic se comprometeu, de modo vago, a cobrir os aumentos de preços da eletricidade que os consumidores enfrentam devido aos seus data centers. Apesar dessas garantias de que os data centers não iriam impactar o custo da energia, isso está acontecendo. Nos últimos 12 meses, o valor médio das contas de luz residenciais nos EUA subiu 6,6%, quase o dobro da inflação, de 3,4%. Desde 2022, a conta média subiu 25%, ante inflação de 14,1%. O custo da energia para residências subiu mais que para empresas. O consumidor residencial está, sim, pagando a conta. A percepção de que a sociedade está sendo obrigada a cofinanciar a infraestrutura elétrica demandada por essas megaempresas tem gerado protestos pelo mundo e reação dos governos. Diante do aumento exponencial da demanda por eletricidade, que superou amplamente a oferta, a Dinamarca aprovou neste mês uma mudança nas regras de conexão à rede elétrica. O país passou a priorizar residências, pequenas empresas e clientes já existentes, e colocou novos data centers em último lugar na fila. Isso deve fazer com que projetos já em andamento corram o risco de ficar sem energia. Outros países europeus estudam medidas similares. Nos EUA, mais de 25 Estados já adotaram ou propuseram medidas para limitar, suspender ou fiscalizar com mais rigor projetos de novos data centers. Nova York impôs moratória de um ano na construção de instalações que demandem 50 MW ou mais. O Texas, um dos Estados mais pró-negócios do país, pausou a aprovação de novos projetos devido aos riscos para a estabilidade da já sobrecarregada rede elétrica local. O Brasil quer atrair data centers e este pode ser um negócio relevante para o país. Mas é importante que as autoridades brasileiras tenham isso em mente com o Redata. Ele prevê que as empresas terão isenção de PIS-Cofins, Imposto de Importação e IPI por 5 anos, vinculados à aplicação de 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado doméstico ou importados em pesquisa e inovação, e ao uso de energia de fontes limpas e renováveis. Mas há problemas. O custo de energia do país é um dos maiores do mundo e não para de subir. A oferta de energia solar e eólica é abundante, mas os data centers precisam de fornecimento contínuo, o que em boa parte do tempo só pode ser garantido por energia das hidrelétricas, disputando suprimento com limite de expansão com clientes nacionais. A soberania digital, isto é, a capacidade de processar e guardar internamente informações sensíveis para o Brasil, sem depender de outros países, é um objetivo fundamental de segurança e desenvolvimento. Mas os custos têm de ser enfrentados de forma transparente, os incentivos, monitorados, e seus resultados, periodicamente mensurados e avaliados - o que é raro de acontecer.
Custo de energia em data centers é desafio a avanço do setor
Custos têm de ser enfrentados de forma transparente, os incentivos, monitorados, e os resultados, periodicamente mensurados e avaliados








