Plataforma atrai atenção de dezenas de países em meio a disputas geopolíticas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Dutra, da Capgemini: democratização do Pix gerou adesão e estimulou inovação — Foto: Divulgação O interesse do Banco Central em levar o Pix para o exterior ganhou destaque no relatório de gestão do sistema publicado em agosto. No documento, a autoridade monetária sinaliza que, embora sem prazo definido, estão em pauta “interligações bilaterais como a participação em hubs internacionais, permitindo remessas e compras com disponibilização dos recursos em moeda local em poucos segundos”. O timing da observação, logo após a plataforma ser incluída entre os argumentos usados pelos Estados Unidos para justificar tarifas extras a produtos brasileiros, aponta um viés de diplomacia em torno do Pix. Isso porque, apesar de ser apenas um dos cerca de 70 sistemas de pagamento instantâneos em funcionamento ao redor do mundo, a solução criou diferenciais que despertam interesse externo - segundo o BC, até o fim de junho de 2026, foram registradas 87 reuniões e consultas com foco no Pix, envolvendo 56 países e 6 organismos internacionais. O movimento de expansão não se restringe à autoridade monetária. “Rotineiramente fazemos benchmark do Pix para outros países, como dois Estados do Oriente Médio que acompanhamos atualmente”, revela João Paulo Curado, diretor-executivo e sócio do Boston Consulting Group (BCG). Esse interesse internacional é impulsionado por diferenciais estruturais do modelo brasileiro. O principal deles foi o mandato regulatório do BC, que garantiu a gratuidade para pessoas físicas, limitou a cobrança a empresas e obrigou a adesão de todas as instituições com mais de 500 mil contas, evitando que as credenciadoras fizessem cherry picking - a seleção apenas de clientes rentáveis - e garantindo ganho de escala imediato. Outro diferencial decisivo é a arquitetura de custos: o Pix eliminou a remuneração cobrada sobre o “trilho” da transação (prática comum na indústria de cartões), transferindo a monetização para serviços de valor adicionado construídos ao redor da plataforma. Esse arranjo serviu de inspiração direta para o Bre-B, sistema de pagamento instantâneo colombiano, lançado em outubro de 2025, com o suporte das brasileiras Ebanx e Nubank, destaca Curado. “A democratização do Pix gerou adesão e sustentação a longo prazo, além de estimular a concorrência e a inovação”, aponta Daniela Dutra, líder de soluções para banking da Capgemini Brasil. Na Índia, onde o sistema UPI é gratuito, mas operado por consórcio privado sob regulação do Reserve Bank of India (RBI), começa a ser avaliada a cobrança de transações de valor mais alto para sua sustentação. O UPI indiano ocupa a liderança global em volume, concentrando cerca de metade dos pagamentos instantâneos do planeta, com 228,3 bilhões de transações em 2025. O sistema indiano, porém, nasceu em um mercado financeiro incipiente. Já o Pix, que responde por 14% do total mundial de pagamentos instantâneos (79,8 bilhões de transações no mesmo período), emergiu em um ecossistema maduro e marcado pela forte presença dos cartões. “O Pix se diferencia por ter sido concebido como plataforma, e não como mero software, combinando escala, interoperabilidade e extrema flexibilidade”, explica Roberto Kanter, professor de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para José Andrés Lopes da Costa, advogado especializado em direito tributário internacional, sócio do DCLC Advogados e professor da FGV, o Pix atrai atenção por desenho, não por tamanho, com infraestrutura de liquidação em tempo real operada pelo próprio BC, baseada em chaves e com mensageria em padrão ISO 20022 - linguagem universal de dados financeiros adotada por mais de 70 jurisdições -, o que o torna “plugável” a sistemas estrangeiros. Costa compara o efeito de uma potencial internacionalização do Pix com o que ocorreu no passado com o sistema Swift, a rede global que conecta os bancos do mundo. “Quem define o padrão define o mercado. Em um mundo em que sanções financeiras se tornaram instrumento de política externa, dispor de infraestrutura própria não é só questão de eficiência, é questão de soberania”, defende. À medida que o mundo se divide pela “cortina de silício” tecnológica - conceito do historiador Yuval Harari em Nexus -, contar com um sistema que projeta o Brasil globalmente vira um ativo estratégico. Para Costa, sentar-se à mesa com os chineses em fóruns de cooperação financeira e, ao mesmo tempo, defender o Pix perante os EUA é uma forma inteligente de navegar pela nova geopolítica.