Adriano Álvaro Melo, aos 7 anos de idade, já traçava um destino promissor ao desenvolver o jogo “Super Alvinho”, após participar de um curso on-line de programação da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Adriano Álvaro de Melo, pequeno gênio, que aos sete anos fez curso à dostancia em Harvard, participou de ampeonatos de xadres e robótica, aos dez anos, vive com a mãe em abrigo público. — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo Aos 7 anos de idade, Adriano Álvaro Melo já traçava um destino promissor. O pequeno gênio do Complexo da Maré, no Rio, havia desenvolvido o jogo “Super Alvinho”, após participar de um curso on-line de programação da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Sua inteligência e esperteza faziam com que ele despontasse no xadrez e numa turma de robótica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mas a vida resolveu impor obstáculos extras ao futuro do menino que se projetava da favela para o mundo. Seu último aniversário, de dez anos, em abril passado, foi comemorado numa casa de atendimento temporário e de emergência para pessoas em situação de rua, abandono ou vulnerabilidade social. Atualmente, ele está com a mãe, Priscila Melo, de 42 anos, em um abrigo no Grajaú, na Zona Norte carioca. E apesar das mil tormentas que enfrenta ainda na infância, não deixa que nada destrua seus sonhos. — Meu desejo maior é estudar na Europa e ser um grande construtor de robôs — proclama o garoto, com um olhar que mistura esperança e ternura com muita sagacidade. Saúde abalada Os solavancos na trajetória de Alvinho e Priscila não param de aumentar desde que a mãe foi diagnosticada, em outubro do ano passado, com uma tuberculose resistente aos medicamentos. Mesmo doente, ela se mudou com o filho, no início de 2026, da capital para a cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, atrás de uma oportunidade de emprego, que acabou frustrada. Adriano Álvaro de Melo, pequeno gênio, que aos sete anos fez curso à dostancia em Harvard, participou de ampeonatos de xadres e robótica, aos dez anos, vive com a mãe em abrigo público. — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo — Estava desesperada por não ter como sustentá-lo no Rio. Em Cabo Frio, também não consegui nada — conta Priscila, que foi microempreendedora e, nos últimos anos, vive de bicos. Sem condições de arcar com as despesas cotidianas, os dois foram parar numa casa de passagem — a que Alvinho estava no aniversário —, ainda no município do interior do Rio. Sensibilizado com a história, o diretor da instituição conseguiu para o pequeno uma bolsa de estudos integral numa escola particular. Alvinho, no entanto, só conseguiu frequentá-la por dois meses, pois a mãe teve que voltar ao Rio para cuidar da saúde na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma vez que não tinha como fazer o acompanhamento necessário na Região dos Lagos. — Ao terminar o tratamento, que deve acontecer até outubro, penso em retornar a Cabo Frio, ao menos para ele tentar concluir o ano letivo — planeja Priscila, que passou com o filho por um abrigo na Ilha do Governador, até os dois encontrarem acolhimento na Unidade de Reinserção Social (URS) Maria Tereza Vieira, no Grajaú. — Meu filho precisou interromper a rotina dele. Estamos sem moradia e vivendo em abrigos. Mas nossa expectativa é que, daqui para frente, haja novas oportunidades. Priscila fala com a perseverança de quem nunca desistiu. Se tudo parece mais nebuloso agora, no passado o caminho também nunca foi fácil. A mãe conta que a suspeita de que Alvinho pudesse ter uma facilidade incomum de aprendizado surgiu quando ele tinha 3 anos. Aos 4, no meio da pandemia da Covid-19, ele aprendeu a ler e a escrever com a ajuda do aplicativo GraphoGame, do Ministério da Educação, indicado para crianças do 1º e do 2º ano do ensino fundamental. Em seguida, um teste confirmou as altas habilidades do pequeno prodígio. Adriano Álvaro de Melo, pequeno gênio, que aos sete anos fez curso à dostancia em Harvard, participou de ampeonatos de xadres e robótica, aos dez anos, vive com a mãe em abrigo público. — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo O jogo “Super Alvinho”, por exemplo, foi criado todo em inglês, idioma que ele estudou num aplicativo, e contava a história de um extraordinário cientista que queria usar seus superpoderes para construir robôs agrícolas e pesquisar meios de melhorar a produção e a distribuição de alimentos no planeta. Sua mente inventiva fez com que o garoto virasse notícia do GLOBO, em dezembro de 2023, quando ele foi palestrante em um evento sobre Pedagogia Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Vivendo de favor Mas a situação financeira já não era boa. Na ocasião, Priscila e o filho viviam de favores no Complexo da Maré, após ela perder o apartamento em que morava em Itaboraí, na Região Metropolitana. A mãe conta que foi vítima de um golpe imobiliário que consumiu o seu sonho de casa própria, o FGTS e a estabilidade do filho — numa questão que está na Justiça até hoje. Separada e com o filho pequeno, ela se viu sem ter onde morar. Por um tempo, porém, os ventos até pareciam soprar a favor. Em fevereiro de 2024, Alvinho chegou a aproveitar uma passagem do presidente Lula pela Maré para entregar a ele uma carta com o projeto de construção de uma escola para atender, dentro da comunidade, crianças com altas habilidades, como ele. O pequeno disputou competições de xadrez e robótica, ganhou troféus e foi até condecorado na Câmara do Rio, em dezembro de 2024, com a Medalha Pedro Ernesto, por seu destaque na educação. O geniozinho da Maré se tornava, assim, a pessoa mais jovem a receber a comenda. Mas aí vieram as novas agruras. Alvinho nunca teve acesso ao colégio que ansiou. E Priscila, desempregada e sem conseguir fazer seus bicos devido à doença, somente na semana passada conseguiu receber a primeira parcela do Bolsa Família, no valor de R$ 650. Também neste mês de agosto, obteve seu cartão de alimentação para paciente com tuberculose, no valor de R$ 250. É pouco, mas um fiapo de alento para pagar os cerca de R$ 50 que estima precisar por dia para garantir as refeições de Alvinho, que tem um quadro de seletividade alimentar, quando a pessoa rejeita alimentos, por exemplo, devido à textura ou à cor. Esperança persistente Até então, a renda da família era uma bolsa estudantil, que a mãe conseguiu por intermédio da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), no valor de R$ 1.200 mensais, pagos entre março e novembro. Isso porque Priscila tampouco abdicou de seus sonhos. Quase todos os dias, os dois vão ao coworking de um shopping de Vila Isabel, bairro vizinho ao Grajaú, onde a mãe aproveita o computador para trabalhar na sua dissertação de mestrado em Tecnologia Social, enquanto o filho estuda por conta própria. Às vezes, usam também a área recreativa gratuita de um shopping na Tijuca. — Hoje, vejo nossa situação como negação dos nossos direitos humanos mais básicos. Mas ainda assim a gente espera que coisas boas aconteçam. Eu pretendo terminar meu mestrado, e meu desejo sempre foi o de fazer um curso de doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal. Ainda que meus sonhos estejam distantes, quero que um dia meu filho possa realizar os dele — diz Priscila.