Avatares, simuladores e aparelhos portáteis entram na sala de aula para acompanhar o avanço tecnológico na medicina 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O ensino tradicional se mantém nas unidades da Afya, turbinados por avatares. A Rede investiu R$ 80 milhões nos ultimos dois anos — Foto: Divulgação/Afya Com a adoção de soluções digitais escalando na medicina, os desafios na formação de novos profissionais não estão restritos à graduação. O avanço tecnológico exige formação contínua dos médicos para que possam estar aptos a utilizar ferramentas como as de inteligência artificial (IA) ou robótica para apoiar decisões e ganho de qualidade em procedimentos e tratamentos. Essa já é a rotina em faculdades de medicina, como as da Afya, que tem 33 unidades no país. Os alunos contam com centros munidos de parques tecnológicos dedicados a um treinamento padronizado. É uma forma de preparar o estudante para quando ele passar para um atendimento real, sob supervisão médica, explica Itamar Magalhães Gonçalves, diretor executivo de medicina do grupo: — O professor tem de ter qualidade percebida pelo aluno, estar com as melhores tecnologias e práticas embarcadas. Não é fácil, não consigo ninguém pronto. Por isso, temos um programa de desenvolvimento contínuo. Contratamos os professores com potencial muito grande e, depois, vão sendo desenvolvidos. Entre as novidades no ensino estão o uso de um avatar instantâneo, em fase de testes, uma IA personalizada na figura de um paciente digital, usado para treinar os alunos em diversas condutas de atendimento. Nos últimos dois anos, os investimentos da Afya em equipamentos de simulação e tecnologias educacionais somam cerca de R$ 80 milhões. Segundo Gonçalves, a tecnologia acompanha os alunos desde a entrada no curso. Eles usam, por exemplo, um ecógrafo portátil, um ultrassom de bolso que funciona conectado a um celular, facilitando diagnósticos “à beira-leito”. Outro recurso é o White Book, um aplicativo proprietário da companhia também usado para apoiar decisões clínicas, com linguagem de IA. — E já temos o primeiro curso de Saúde digital e ciência de dados cadastrado no MEC. É de tecnólogo, com dois anos de duração, ofertado aos ingressantes de Medicina desde o início deste ano — diz o executivo. José Armando Cortez, diretor médico do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, diz que o avanço tecnológico de hoje lembra o que aconteceu com a introdução do vídeo nas cirurgias há 20 anos. — Olhando para 20 anos atrás, foi exatamente o que aconteceu na época da (ascensão de uso) do vídeo. Quando chegou, eram poucos os cirurgiões que mexiam com vídeo. Hoje, não existe um que não opere por vídeo. É o básico — observa — Agora, estamos na transição para o robô. Os novos cirurgiões já saem formados em robótica. Os que se formaram há dez ou 15 anos ainda têm de fazer um curso para mexer com isso. Como na autoescola No primeiro semestre, o Ministério da Educação (MEC) divulgou duas iniciativas focadas em IA. A primeira delas, que não tem caráter normativo, foi um referencial com orientações para o uso de inteligência artificial na educação, da básica à superior. Em paralelo, foi anunciado o primeiro sandbox regulatório específico para o emprego de IA na educação, em colaboração com o Laboratório de Inovação da Advocacia-Geral da União (AGU). A despeito do uso mais disseminado, por ora, o domínio dessas tecnologias ainda não é visto como exigência para a seleção de profissionais em hospitais de forma ampla, avalia Raul Sturari, vice-presidente Assistencial da Rede D’Or. — Ainda não é pré-requisito para a maioria das posições. Mais importante do que dominar a IA é ter capacidade de adaptação, curiosidade e disposição para trabalhar com novas tecnologias. Nós capacitamos as equipes para isso — explica ele, acrescentando: — Mas o perfil está mudando. Competência técnica continua fundamental. Porém, capacidade analítica, familiaridade com dados e uso de tecnologia estão ganhando peso. Em pouco tempo, trabalhar com IA será tão natural quanto utilizar um prontuário eletrônico hoje. Em áreas intensivas em tecnologia, os avanços são ainda mais claros, a exemplo da formação em cirurgia robótica, por exemplo. O Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino possui um programa de formação e treinamento com simuladores de ponta, incluindo um robô para aprendizado monitorado: — Temos um robô com duplo console que funciona como um “carro de autoescola”, em que o cirurgião acompanha o aluno durante a cirurgia e pode assumir do seu console, caso tenha necessidade do controle da cirurgia — explica Rodrigo Gavina, CEO dos hospitais da Rede D’Or. A chamada proctoria — quando um profissional já experiente em um processo supervisiona o treinamento prático de outro — ganha destaque em tempos de IA e robótica. O Hospital Nove de Julho, em São Paulo, que integra a Rede Américas, parceria entre Amil e Dasa, está dando um passo adiante, mirando a democratização da saúde: constituiu um hub de teleproctoria, o primeiro do gênero na América Latina, segundo Cortez, diretor médico da instituição. — Um cirurgião se formando em cirurgia robótica tem de ter sessões obrigatórias de proctoria, em que um outro cirurgião, já com experiência e licença para atuar com robótica, opera o paciente junto com ele no console. Isso sempre foi feito de forma presencial. Agora, temos uma teleproctoria. O meu cirurgião, daqui, faz a proctoria para outro de forma remota. Já fizemos para um hospital em Foz do Iguaçu, agora estamos fechando com um de Porto Velho. É uma inovação que permite, na visão de Cortez, democratizar o acesso à saúde, porque permite oferecer proctoria a médicos em todo o país. Se, durante uma cirurgia, for necessário, o especialista do Nove de Julho pode assumir o comando do procedimento à distância, e com “assertividade plena”, afirma ele. Também a Santa Casa de São Paulo avança em treinamento imersivo com uso de realidade aumentada, com simuladores anatômicos e centros cirúrgicos conectados por câmeras 3D, o que possibilita qualificações remotas. Desafios nas gerações Em um cenário de transição tecnológica, o desafio profissional perpassa todas as camadas de aprendizado, pondera Carolina Rimkus, coordenadora médica para projetos de IA do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. — Para os médicos que vieram da era mais analógica, o maior desafio na educação é romper a resistência e a desconfiança das ferramentas de IA. De um lado, isso é bom porque é importante ter esse senso crítico. Por isso, é importante mostrar resultados — aponta ela. — Com os médicos mais novos é um pouco o contrário. É preciso exercitar neles o senso crítico, fazê-los duvidar da ferramenta, revisar, valorizando o conhecimento médico prévio.
Faculdades se renovam com inteligência artificial e robótica
Avatares, simuladores e aparelhos portáteis entram na sala de aula para acompanhar o avanço tecnológico na medicina








