Jovens negros em famílias mais ricas têm probabilidade muito maior de completar o ensino médio em relação àqueles, igualmente negros, que estão entre os mais pobres 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jovens negros em famílias mais ricas têm probabilidade muito maior de completar o ensino médio em relação àqueles, igualmente negros, que estão entre os mais pobres — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/15/08/2024 Jovens negros em famílias mais ricas têm probabilidade muito maior de completar o ensino médio em relação àqueles, igualmente negros, que estão entre os mais pobres. Mas a melhor condição financeira não é suficiente para eliminar o hiato em relação a jovens brancos na mesma faixa de renda. Essa constatação é de um dos estudos que será apresentado nesta quinta-feira no seminário Desigualdades raciais na educação: compreender para mudar, que será realizado na sede da organização Ação Educativa, em São Paulo. A partir de informações sobre jovens de 20 a 29 anos na base da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, os pesquisadores Márcia Lima, Ana Clara Ramos Simões, Alexandre Nogueira e Huri Paz (do Afro-Cebrap e do Instituto Îandé) calcularam a probabilidade de um jovem completar o ensino médio considerando variáveis como raça/cor, renda, sexo e região. Um primeiro exercício feito pelos autores foi calcular o quanto a renda ajuda mais (ou menos), a depender da cor/raça do jovem, na chance de completar o ensino médio. A conclusão foi de que o mesmo dinheiro a mais no orçamento familiar se converte em menos oportunidade educacional para jovens negros. Outro exercício foi calcular qual a chance, em termos percentuais, de um jovem com determinadas características ter concluído o ensino médio. Para homens jovens que estão entre os 10% mais pobres em áreas urbanas, essa probabilidade é de 43% para negros e de 51% para brancos. No outro extremo da distribuição de renda (os 10% mais ricos), essas proporções aumentam, respectivamente, para 86% e 92%. Os dados comprovam, sem surpresa, que nascer numa família rica ou pobre no Brasil é o principal fator determinante na probabilidade de um indivíduo alcançar níveis mais altos de escolaridade. Mas a renda não explica tudo. Em todos os cenários comparados, e em todas as regiões, jovens negros apresentavam probabilidades menores em relação aos brancos na mesma faixa de renda. Outras pesquisas que serão apresentadas no evento mostram mais facetas dessa desigualdade, e dos mecanismos que levam a esse resultado. Diferenças observadas na conclusão do ensino médio (ou no acesso ao ensino superior) são encontradas desde o início da trajetória escolar, e vão se acumulando ao longo do tempo, resultando em piores indicadores de aprendizagem, repetência, evasão e atraso escolar. Registramos avanços, especialmente em termos de acesso, mas as condições de oferta seguem muito desiguais. Alunos negros têm, por exemplo, maior probabilidade de estarem em escolas com infraestrutura mais precária ou onde professores têm formação inadequada ou são menos experientes, apenas para citar alguns fatores que limitam oportunidades. Isolar apenas o efeito cor/raça na análise das desigualdades é uma tarefa complexa, entre outras razões, pois nem todos os fatores com potencial impacto são mensuráveis. Além disso, populações em situação de vulnerabilidade, em geral, sofrem efeitos combinados também de outras discriminações, como as relacionadas ao sexo ou ao local de moradia. Mas a constatação de que o gap racial persiste mesmo depois de controladas todas as variáveis possíveis é verificada em vários estudos, não apenas em educação. Daí porque é tão relevante considerar também o fator racial em qualquer análise sobre desigualdade no Brasil.