As telas, que exibiam imagens ao vivo de drones no campo de batalha, piscavam com quadros de cores diferentes: verde para equipamentos russos, azul para forças ucranianas e laranja quando era difícil distinguir amigos de inimigos. Então, um quadro ficou vermelho, indicando um soldado russo correndo ao longo de uma linha de árvores. As tropas ucranianas que acompanhavam as imagens de um posto de comando subterrâneo na frente oriental entraram imediatamente em ação. Um oficial de plantão registrou as coordenadas do soldado russo em um computador. O sistema colocou automaticamente um marcador em formato de losango em um mapa digital do campo de batalha, visível para todas as unidades nas proximidades. Em poucos minutos, três drones de ataque estavam no ar, aproximando-se do alvo. O primeiro drone errou. Mas o oficial de plantão, do 1º Regimento de Assalto Separado da Ucrânia, enviou a localização do ataque e um vídeo da investida para equipes de drones de outras duas unidades, para que também tentassem matar o soldado russo. Essa sequência perturbadora — detecção, rastreamento, ataque — dependia de um poderoso software desenvolvido pela Ucrânia, chamado Delta. O software reúne fluxos de informações do campo de batalha, incluindo imagens transmitidas por drones, interceptações de rádio e imagens de satélite, em uma única plataforma que ajuda a detectar alvos. O sistema então distribui os alvos para milhares de drones de reconhecimento e ataque que voam ininterruptamente, ajudando a criar uma “zona de morte” com quilômetros de extensão, onde qualquer coisa que se mova pode ser detectada e atingida em questão de segundos. O coronel Artem Martynenko, responsável por supervisionar o desenvolvimento do software para o Ministério da Defesa da Ucrânia, chamou o Delta de “sistema nervoso” do exército de drones que levou os avanços russos a praticamente um ponto de paralisação. Militares do Primeiro Regimento de Assalto Separado da Ucrânia observam imagens de drones em tempo real do campo de batalha, exibidas pelo sistema Delta, em um bunker de comando no leste da Ucrânia, em 26 de maio de 2025 — Foto: Tyler Hicks / The New York Times Os exércitos ocidentais começaram a prestar atenção. Daniel Driscoll, secretário do Exército dos Estados Unidos, chamou o software de “absolutamente incrível” e reconheceu que as forças americanas estavam correndo atrás. O sistema de gerenciamento do campo de batalha do Delta “integra completamente cada drone, cada sensor e cada plataforma de disparo em uma única rede”, disse Driscoll ao Senado em maio, acrescentando: “O nosso não faz isso.” As forças da Otan perceberam a dimensão dessa diferença no ano passado, durante um exercício na Estônia em que unidades de drones ucranianas dizimaram formações da aliança em simulações. Especialistas afirmam que softwares como o Delta são a próxima fronteira da guerra. Com o campo de batalha já saturado de drones, a vitória depende menos da quantidade de equipamentos utilizados e mais da velocidade com que eles podem ser enviados para atacar. Ucrânia e Rússia competem para desenvolver o melhor sistema, e ambas recorrem à inteligência artificial para obter vantagem. As origens do Delta remontam a mais de uma década. Em 2014, um grupo de voluntários ucranianos que combatia forças separatistas apoiadas pela Rússia no leste da Ucrânia começou a experimentar drones de reconhecimento. A ideia era melhorar a precisão dos ataques de artilharia e substituir ferramentas antigas, como binóculos. Mas os dados coletados pelos drones demoravam demais para chegar ao destino. Para levar as informações de inteligência até as unidades de artilharia, era necessária uma cadeia de chamadas de rádio. Quando finalmente era possível disparar contra um alvo, ele muitas vezes já havia desaparecido, conta Yaroslav Honchar, um dos fundadores do grupo Aerorosvidka. O grupo criou o Delta como solução. O software começou como um mapa digital compartilhado no qual era possível marcar alvos. A Otan financiou o projeto, afirma Honchar, na esperança de aproximar a Ucrânia da própria doutrina da aliança de coordenação rápida das forças no campo de batalha. Ainda assim, Honchar reconhece que, durante anos, o Exército ucraniano resistiu em grande parte à adoção do sistema, mantendo mapas de papel e transmissores de rádio. Então, a Rússia invadiu o país no início de 2022. Enquanto colunas de forças russas avançavam em direção à capital ucraniana, Kiev, Honchar foi chamado para ajudar a encontrar seus pontos fracos. Trabalhando de um quartel-general dentro da cidade quase cercada, ele usou o Delta para transformar uma avalanche de informações — incluindo relatos de civis que observavam tanques passando diante de suas casas — em uma imagem em tempo real do avanço de Moscou. Em poucos dias, tropas ucranianas de contra-ataque começaram a atingir os pontos mais vulneráveis, obrigando as forças russas a recuar. O Delta mostrou como uma visão mais precisa do campo de batalha poderia ajudar a derrotar uma força muito maior, afirma Honchar. A partir daí, o sistema se espalhou pelas Forças Armadas e, no ano passado, tornou-se o sistema unificado de gerenciamento do campo de batalha da Ucrânia. O sistema foi demonstrado recentemente em uma manhã no posto de comando do 1º Regimento de Assalto Separado, onde dezenas de telas davam ao bunker subterrâneo a aparência de uma central de controle de tráfego aéreo. Oficiais de plantão ficavam diante das telas, digitando dados em laptops. Um deles usava três fones — dois sobre os ouvidos e um ao redor do pescoço — enquanto coordenava as unidades em terra. Latas de bebidas energéticas parcialmente amassadas estavam espalhadas pelo chão. Reclinado em uma cadeira gamer, o comandante, cujo codinome é Pyrotechnician, observava confortavelmente a cena enquanto as máquinas realizavam a tarefa trabalhosa de reunir todos os dados. Ele disse que se lembrava dos dias de longas conversas pelo rádio. — Agora, você simplesmente fica ali, tem internet, abre os mapas e consegue ver quem está onde e fazendo o quê — observa. Veja fotos de uma das maiores ofensivas aéreas da Ucrânia contra a Rússia desde o início da guerra 1 de 10 Fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou, na periferia sudeste de Moscou, em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP 2 de 10 Fumaça toma os céus de Moscou durante bombardeio ucraniano nesta quinta-feira — Foto: AFP X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Pessoas caminham em um parque enquanto fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou, na periferia sudeste de Moscou, em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP 4 de 10 Fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou, na periferia sudeste de Moscou, em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP X de 10 Publicidade 5 de 10 Mulher caminha do lado de fora de um shopping center enquanto fumaça preta sobe da área da refinaria de petróleo da Gazprom Neft, produtora russa, nos arredores de Moscou — Foto: AFP 6 de 10 Fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou, na periferia sudeste de Moscou, em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP X de 10 Publicidade 7 de 10 Pessoas são vistas do lado de fora de um shopping enquanto fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou, na periferia sudeste de Moscou, em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP 8 de 10 Um homem tira fotos de uma ponte sobre o rio Moskva enquanto fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou, na periferia sudeste de Moscou, em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP X de 10 Publicidade 9 de 10 Uma mulher caminha em uma localidade residencial enquanto a fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou, na periferia sudeste de Moscou, em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP 10 de 10 Fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou, na periferia sudeste de Moscou, em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP X de 10 Publicidade Série de ataques ucranianos contou com mais de 500 drones Como outros soldados entrevistados, ele pediu para ser identificado apenas pelo codinome, de acordo com o protocolo militar. Outro oficial da brigada afirmou que uma das funções mais úteis do Delta é a capacidade de acompanhar os alvos ao longo do tempo. Ele abriu o laptop e clicou em um losango vermelho no mapa que indicava um obuseiro russo. Uma aba apareceu no lado direito da tela, mostrando quando o obuseiro havia sido avistado pela primeira vez, quantas vezes havia sido atacado e por quais unidades. O objetivo é que a próxima unidade consiga consultar esse histórico, evitando atacar um equipamento que já esteja inutilizado ou repetir táticas que não funcionaram. É um problema antigo: tropas americanas que chegavam ao Afeganistão frequentemente repetiam os erros das unidades anteriores porque as informações não eram devidamente transmitidas. Ao integrar ferramentas de reconhecimento e ataque, o Delta também reduziu o que os soldados chamam de “cadeia de ataque” (kill chain) — o tempo entre identificar um alvo e atingi-lo. Um chefe de Estado-Maior de um batalhão do Corpo Khartiia, da Ucrânia, afirmou que antes eram necessários pelo menos 20 minutos entre o momento em que uma unidade informava a posição inimiga e o disparo dos primeiros projéteis de artilharia. Agora, são de três a cinco minutos. Kateryna Bondar, pesquisadora sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em Washington, afirma: — Quanto mais rápida for sua cadeia de ataque, maior será a probabilidade de você vencer. Em um artigo recente, Bondar argumentou que o software, e não os drones, moldará o futuro da guerra. Segundo ela, a Rússia está desenvolvendo um equivalente ao Delta, mas a Ucrânia ainda mantém vantagem. Os exércitos ocidentais, alertou, precisam correr para alcançar esse nível ou correm o risco de ficar para trás.