Chavistas e oposição criticam Delcy Rodríguez por ceder aos EUA o controle majoritário de 65 bilhões de barris 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Para analistas, presidente interina, Delcy Rodríguez, aposta que o entendimento com Washington reduz a pressão por eleições rápidas — Foto: JUAN BARRETO / AFP Setores radicais do chavismo e forças da oposição criticaram a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, por concordar em dar aos Estados Unidos acesso exclusivo aos valiosos recursos petrolíferos do país. A líder estaria apostando no acordo com Donald Trump como uma espécie de passaporte para consolidar o poder. Uma vantagem em potencial para Rodríguez é que o acordo que entrega aos EUA o controle majoritário de 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano limite o interesse do governo Trump em pressionar por eleições rápidas. — Acho que pode beneficiar Delcy na medida em que reforça o compromisso de Trump de trabalhar com ela e, com isso, provavelmente reduz os incentivos para avançar depressa rumo a uma nova votação — afirmou Risa Grais-Targow, diretora para a América Latina do Eurasia Group. É exatamente por isso, segundo ela, que a oposição está tão contrariada. Com décadas de nacionalismo antiamericano em seu caminho, há também o risco de que o acordo se transforme em passivo político. Os simpatizantes do chavismo, movimento fundado pelo falecido presidente Hugo Chávez e erguido em parte sobre o controle estatal do petróleo venezuelano, têm suas próprias razões para se voltar contra Rodríguez. As duas linhas de crítica apareceram nas redes sociais logo após o anúncio feito em Washington na noite de sexta-feira. Alguns comentaristas acusaram Rodríguez de entregar o petróleo do país, enquanto outros questionaram por que nem Trump nem ela vincularam o acordo econômico a compromissos sobre eleições ou transição democrática. — Mas também é politicamente delicado para Delcy, dada a sensibilidade em torno do nacionalismo de recursos e a percepção de que ela está traindo os princípios do chavismo, entregando riquezas valiosas — disse Grais-Targow. Sem oposição O acordo foi negociado sem a participação da oposição venezuelana, segundo pessoas a par do assunto. María Corina Machado, principal liderança oposicionista, não participou das conversas, afirmaram essas fontes. Durante a campanha presidencial de 2024, foi Rodríguez, então aliada do ex-presidente Nicolás Maduro, quem acusou Machado de receber ordens de "patrões" nos EUA e de buscar a presidência para entregar o petróleo venezuelano. Agora, é ela quem enfrenta ataques semelhantes. Chavistas da linha dura reagiram com irritação ao anúncio de sexta-feira, de acordo com trocas de mensagens compartilhadas por participantes, questionando a legalidade do acordo e descrevendo-o, em publicações nas redes sociais, como uma renúncia à soberania. Alguns afirmaram que a Venezuela foi, na prática, forçada a entregar seu petróleo sob ameaça americana. Crise de popularidade O momento é sensível para Rodríguez, cuja popularidade caiu nas pesquisas depois do que foi visto como uma resposta lenta do governo a dois terremotos que mataram mais de 6.500 pessoas em junho. Isso pode dificultar seu esforço para equilibrar uma relação cada vez mais próxima com Washington e um movimento político construído ao longo de décadas em torno do nacionalismo de recursos e da resistência à influência americana. Até agora, a enorme margem de pressão de Trump sobre Rodríguez podia ser lida como instrumento para arrancar concessões políticas de seu governo. As negociações passaram recentemente a produzir resultados concretos, entre eles a aprovação inicial, pela Assembleia Nacional, de uma reformulação apoiada pelos EUA no processo de escolha dos juízes do Supremo Tribunal. Interesse econômico O acordo do petróleo abre caminho para um cenário diferente, em que empresas e investidores americanos e, eventualmente, o próprio governo em Washington passem a ter interesse econômico na estabilidade proporcionada por Rodríguez, avaliou o analista político Benigno Alarcón. À medida que companhias americanas comprometerem bilhões de dólares na Venezuela, disse Alarcón, os EUA podem migrar gradualmente de uma preferência por "transição com estabilidade" para a prioridade de uma "estabilidade que preserve a opção de transição". Integrantes do partido de Machado já questionam se qualquer acordo assinado por Rodríguez sobreviveria a uma futura transição política. — Tudo o que Delcy Rodríguez assinou não tem validade nenhuma — disse José Amalio Graterol, do Vente, partido de Machado. — Ela pode ter assinado com Donald Trump, mas nunca será válido, porque lhe falta legitimidade de origem. Números questionados Francisco Monaldi, diretor de política energética latino-americana do Baker Institute for Public Policy, da Universidade Rice, em Houston, questionou os termos econômicos divulgados por Rodríguez e classificou a falta de transparência sobre a política petrolífera venezuelana como muito alarmante. Os US$ 209 bilhões em tributos que ela afirmou que os projetos gerariam equivalem a cerca de US$ 3,20 por cada um dos 65 bilhões de barris cobertos pelo acordo, calculou Monaldi. Se esse número representa a receita nominal arrecadada ao longo da vida útil dos projetos, seu valor presente seria ainda menor, observou. Rodríguez pode enfrentar um desafio ainda mais incômodo vindo das próprias bases chavistas. O ex-deputado de esquerda Willian Rodríguez invocou Chávez, morto em 2013, em crítica ácida ao acordo com Trump. Citou uma frase do ex-presidente segundo a qual o petróleo pertence aos venezuelanos e foi com ele que o país recuperou sua pátria. — Este acordo faz exatamente o contrário: entrega a pátria e renuncia ao nosso destino nacional — afirmou. — Não há como maquiar isso.
Acordo do petróleo com Trump irrita os dois lados da política venezuelana
Chavistas e oposição criticam Delcy Rodríguez por ceder aos EUA o controle majoritário de 65 bilhões de barris













