Em relatório, banco prevê que milho será a cultura mais afetada e aponta retração de 1,3% no PIB do setor 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lavoura de milho próxima a silos de armazenagem no interior da Bahia: produto deve ser o mais afetado pelo El Niño — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg A previsão de um dos El Niños mais fortes das últimas décadas deve prejudicar a produção agrícola e contribuir para uma queda do PIB da agropecuária em 2027. É o que mostra um relatório do Itaú elaborado por economistas do banco, antecipado ao GLOBO. Se confirmado, o resultado interromperá novamente um período de forte expansão do setor, quando atingiu recorde em 2023, sofreu uma retração em 2024 e voltou à máxima em 2025. A cultura do milho deverá ser a mais afetada, já que a alteração no regime de chuvas em regiões produtoras causada pelo fenômeno provoca atrasos no plantio da soja e reduz a janela ideal para a "safrinha", segunda safra de milho. Não por acaso o governo Lula já discute ampliar a compra e os estoques públicos de milho para conter os impactos do El Niño e prevenir desabastecimento. O impacto pode ser evidente tanto no Centro-Oeste quanto na região Nordeste, que ampliou sua participação na safra de grãos brasileira, e também pode sofrer com seca prolongada durante o fenômeno climático. O Itaú projeta uma retração de 1,3% do PIB da agropecuária, já incorporando uma quebra na produção de milho, com queda de 17% da produção. Para a soja, o impacto ainda é incerto. — É uma projeção muito próxima à média observada nos episódios recentes de El Niño forte, quando as perdas foram de 21% entre 2015 e 2016 e 13% entre 2023 e 2024. O milho é a cultura que historicamente mostrou maior vulnerabilidade ao fenômeno — explica Julia Gottlieb, economista do Itaú Unibanco. Uma safra mais fraca também teria reflexos sobre o comércio exterior. O banco projeta um superávit comercial de US$ 80 bilhões para 2027, mas estima que, num cenário de queda de 15% na produção de milho e de 5% na soja, a balança perderia US$ 3 bilhões. Desse total, US$ 1,4 bilhão viria da redução nas exportações de milho e US$ 1,6 bilhão das vendas de soja. Embora relevante para o agronegócio, o impacto seria limitado quando comparado ao conjunto das exportações brasileiras. O mesmo vale para o efeito direto sobre o PIB. Como a agropecuária responde por uma parcela relativamente pequena do valor adicionado total da economia, uma queda na produção, isoladamente, não provoca uma retração de igual proporção na atividade do país. Isso não significa, porém, que os efeitos fiquem restritos às lavouras. Uma safra menor pode atingir a cadeia e afetar a atividade do transporte, armazenagem e comércio exterior, o que pode ampliar o impacto inicial da quebra da safra sobre a economia. Pressão sobre alimentos começa já no fim do ano Os efeitos do El Niño podem chegar ao consumidor antes mesmo da quebra de uma eventual safra de grãos. No fim deste ano e no início de 2027, o principal impacto deve aparecer nos preços dos alimentos in natura, como frutas, legumes e hortaliças, que são mais sensíveis às mudanças de temperatura e no regime de chuvas. O Itaú projeta inflação de 5,1% em 2026 sendo que 0,30 ponto percentual desse total já corresponde ao efeito estimado do El Niño. O estudo aponta que ela ainda pode se estender pelo primeiro trimestre de 2027, perdendo força gradualmente ao longo do ano. — O ponto de atenção maior está em 2027, quando o principal canal passa a ser o de grãos — alerta Julia. Chance de inflação de alimentos mais alta em 2027 No ano que vem, com a previsão de um El Niño intenso e perspectiva de quebra na safra de milho ano que vem, a chance é a de que esse efeito possa aumentar o nível de desconforto do consumidor com os preços das carnes. Como o grão é um insumo importante para a produção de ração animal, uma alta pode elevar os custos de produção e pressionar os preços de proteínas. O Itaú calcula que o impacto poderia adicionar cerca de 0,3 ponto percentual ao IPCA de 2027. Esse efeito, no entanto, ainda não está incorporado ao cenário-base do banco. O tamanho da pressão sobre os preços vai depender do cenário internacional. Se outros grandes produtores tiverem uma safra favorável, a oferta global de grãos poderá compensar ao menos parte da perda brasileira e ajudar a conter a alta dos preços. — Em 2023, por exemplo, a recuperação da safra argentina ajudou a compensar parte da perda observada no Brasil, limitando a transmissão do choque doméstico para os preços — conclui Julia.