Do primeiro contato com a Arquidiocese às entrevistas com padres e fiéis, a repórter Jéssica Marques conta os bastidores da apuração sobre o discreto ministério da Igreja Católica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A repórter Jéssica Marques conseguiu produzir a matéria após meses de ligações, mensagens, reuniões e pedidos de autorização para a Arquidiocese — Foto: Marcelo Theobald Sempre tive um fascínio pelo inexplicável. Não no sentido de procurar respostas prontas para o sobrenatural, mas de tentar compreender tudo aquilo que existe na delicada fronteira entre a fé, o mistério e a experiência humana. Foi justamente esse interesse que me fez olhar para um tema que eu nunca havia imaginado encontrar tão perto de casa: o exorcismo, praticado no Rio por 17 padres. A curiosidade sobre o assunto nasceu, aliás, por causa de um filme. Numa noite comum de domingo, assisti a “O exorcismo do Papa”, escolhido muito mais pelo interesse na figura de Gabriele Amorth, o lendário exorcista do Vaticano interpretado por Russell Crowe, do que pelo terror. Mesmo acreditando que essa prática era uma realidade distante do Brasil — e do Rio —, resolvi fazer uma pergunta simples à Arquidiocese, por pura curiosidade: existe exorcismo na cidade? A resposta mudou completamente o rumo da minha apuração. A surpresa da descoberta Descobri que a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro reunia 17 padres oficialmente autorizados pelo Vaticano para exercer esse ministério. Eles estavam espalhados pelos vicariatos da cidade, atendendo pessoas que chegavam sofrendo por luto, depressão, vícios, conflitos familiares e experiências que acreditavam ter origem espiritual. Lembro de reler aquela mensagem no celular algumas vezes. Incrédula. Como um ministério como aquele existia na minha cidade sem que a maioria das pessoas soubesse? O que também me surpreendeu foi descobrir como são os procedimentos da Igreja sobre o tema. Antes de qualquer hipótese sobrenatural, o chamado "exorcismo maior" acontece em situações excepcionais, depois que causas médicas e psicológicas são descartadas. Naquele momento, percebi que aquilo não era apenas uma curiosidade minha. Era também assunto para uma reportagem especial. Domingos Melo, que passou por exorcismo quando criança, com a mãe, Antonia, na Igreja Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado — Foto: Ana Branco Autorização do Vaticano para falar com os padres Vieram, então, meses de ligações, mensagens, reuniões e pedidos de autorização para ouvir os padres e produzir a matéria. Tudo precisava passar pelo arcebispo e pelo Vaticano. Os exorcistas não estavam acostumados a abrir suas rotinas para jornalistas. Era um universo protegido e profundamente reservado. Foram semanas de leituras, pesquisas e conversas sobre exorcismo. Eu já não conseguia me desligar do assunto. Quando as recusas começaram a aparecer, decidi seguir outro caminho. Sabia que havia missas de libertação pela cidade, popularmente conhecidas como missas de exorcismo. Percorri várias igrejas, mas, quando cheguei à Igreja Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, sem saber se conseguiria uma única linha de matéria, tudo mudou. Abordei dezenas de pessoas. Ouvi histórias assustadoras, relatos improváveis e memórias marcadas pela fé. Encontrei Domingos Melo, que aceitou falar sobre o exorcismo que viveu ainda criança. Sua mãe estava ao lado, como testemunha de tudo. Fotografias antigas, cicatrizes na pele e horas de conversa me fizeram entender que aquela história merecia ser contada com respeito. 'Um exorcista não pode temer, ou o mal cresce' A apuração começava a avançar. Com autorização da Arquidiocese, entrevistei Luiz Carlos Pereira, pároco da Igreja Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande, que me mostrou e permitiu que eu folheasse o livro “Ritual de Exorcismos e Outras Súplicas”, um dos instrumentos de trabalho que os padres exorcistas carregam em suas maletas. O cônego Luiz Carlos Pereira mostra o livro "Ritual de exorcismos e outras súplicas" — Foto: Marina Calderon Perguntei como ele convivia com o medo. “Um padre exorcista não pode ter medo. Se ele teme, o mal cresce”, respondeu. Sem respostas para tudo Depois da publicação da reportagem, recebi muitas mensagens. Pessoas que nunca haviam contado suas experiências decidiram me escrever. Vieram relatos, fotografias e confidências. Não tenho uma religião definida e, como jornalista, já acompanhei rituais de diferentes crenças, porém essa apuração me transformou de um jeito inesperado. Talvez a maior lição tenha sido compreender a diferença entre respeito e superstição. Não encontrei respostas para tudo, mas conheci pessoas profundamente sinceras em suas experiências com sofrimento, fé e esperança.