A geografia da solidão acompanha a desigualdade. Como tudo no capitalismo, fazer amigos custa dinheiro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mal vivida, a solidão é mesmo fator de risco — Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo Não há criança no Brasil que, diante de uma pequena rejeição social, não tenha escutado dos mais velhos, ainda que a contragosto: “Antes só do que mal-acompanhado” ou “Quem anda só, anda quando quer”. Mas, pelo caminhar das transformações do mundo, é melhor nos acostumarmos. Tudo indica que as andorinhas terão de se virar para fazer o verão sozinhas, um dedo catará os piolhos sem ajuda de nenhum semelhante e as mãos já estão em pleno desenvolvimento de um método autolimpante, dado que não haverá outra para ajudá-las na tarefa. De 2010 para cá, não param de aparecer novos estudos científicos a nos alertar sobre o esfacelamento dos vínculos cotidianos e seus custos físicos, psíquicos e sociais. Especialistas nos alertam sobre uma Epidemia da Solidão. Não é exagero. Segundo um relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 16% da população mundial sofre do mal — que aumenta o risco de morte precoce por doenças cardiovasculares, acidentes cerebrais, hipertensão e declínio cognitivo. O corpo tem pagado aquilo que a cabeça não tem sido capaz de aceitar. Estamos menos pacientes uns com os outros e sem dar a devida importância aos encontros. Um relatório do Social Connection Guidelines, instituto canadense responsável por publicar diretrizes de saúde pública, mostrou que quatro amizades próximas são suficientes para reduzir a solidão e a ansiedade. Se for demais, eles avisam: três já bastam para diminuir drasticamente os sintomas de depressão. No entanto, a prescrição é muito maior do que temos sido capazes de entregar: 28% dos brasileiros têm, no máximo, um amigo próximo, segundo uma pesquisa recente do PoderData. Fiz as contas dos meus enquanto lia, com a seriedade de quem confere extrato bancário. Passei raspando. Vale desmentir um pressuposto comum: solidão não é um problema de velhice. Os dados globais da OMS mostram exatamente o padrão inverso, com prevalência mais alta entre adolescentes e caindo progressivamente com a idade. No Brasil, o mal atinge desproporcionalmente mais quem vive nas classes de menor renda do que quem está no topo da pirâmide social. A geografia da solidão segue de perto a distribuição da desigualdade: quanto menos recursos, mobilidade e acesso a espaços de convivência, maior a exposição ao isolamento. A conta toda serve para lembrar que, como tudo no capitalismo, fazer amigos custa dinheiro. As novas tecnologias fazem sua parte. Prometem conexão e entregam isolamento. A socióloga Sherry Turkle, professora do MIT, chegou no livro “Alone together” a uma formulação que resume o problema inteiro: estamos sozinhos juntos. A tecnologia entrega companhia sem nenhuma das exigências que a amizade impõe, oferecendo conexão sem vulnerabilidade, presença sem risco e intimidade sem o incômodo de ter que ouvir o outro até o fim. Se os ditados populares guardam alguma sabedoria, é urgente atualizá-los. Sim, quem anda só anda quando quer. Mas anda menos e por menos tempo.
A conta da solidão chegou
A geografia da solidão acompanha a desigualdade. Como tudo no capitalismo, fazer amigos custa dinheiro







