Sambista adianta show que vai fazer no festival, interpretando hits da história da gravadora eternizados por nomes como Stevie Wonder e Lionel Richie: ‘essa música está viva, está próxima da gente’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O produtor Zé Ricardo (à esq.), o empresário Roberto Medina, o cantor Péricles e o pianista Maurício Piassarollo, na casa de Medina — Foto: Guito Moreto O Péricles que desliza suave por sambas como “Até que durou”, “Final de tarde” e “Me apaixonei pela pessoa errada”? Esse, o Brasil inteiro conhece. Mas e aquele que capricha no inglês e emociona com o falsete em “Cruisin’” (Smokey Robinson), “Superstition” (Stevie Wonder) e “My girl” (Temptations)? Esse, começou a dar as caras na quinta-feira, em uma ocasião muito especial na casa do criador do Rock in Rio (e presidente do festival), Roberto Medina, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Acompanhado por Maurício Piassarollo no piano que Medina comprou em 1980 para usar no show que produziu, de Frank Sinatra, no Maracanã (o mesmo piano no qual, anos depois, o maestro Eduardo Souto Neto comporia o tema do Rock in Rio), Péricles deu uma pequena amostra do que vai ser o seu show do próximo dia 7, no Palco Sunset do festival (cuja edição de 2026 começa na sexta-feira). Ele vai cantar uma seleção de sucessos da Motown, gravadora americana que mudou a história da música pop ao transformar em superestrelas músicos negros de muito talento como Stevie Wonder, Marvin Gaye, Diana Ross, Lionel Richie e Michael Jackson. O espetáculo é uma ideia de Zé Ricardo, vice-presidente da Rock World (empresa que produz o Rock in Rio) e curador do Sunset. Zé disse apostar que “Péricles canta Motown” vai ser um marco da história do festival, muito graças “à generosidade de um artista, um dos maiores cantores do Brasil, de querer cantar e se jogar para 100 mil pessoas no Rock in Rio”. — A minha vida nunca mais vai ser a mesma depois desse dia — emocionou-se Péricles. — Tem uma responsabilidade imensa de deixar um legado, de mostrar que é possível. Aceitei esse desafio como aceito vários outros desafios na minha vida. Alguém me deu a mão e falou “vamos pular?” e eu já tinha pulado. Não quero saber o que tem no fundo, quero aproveitar a viagem. Zé Ricardo conta que a ideia para o show veio num dia que estava em Salvador e resolveu passar num show de Péricles, só para dar um abraço no amigo. — De repente, ele começou a cantar “Stand by me” (clássico da soul music, lançado em 1961 pelo cantor Ben E. King) e eu fiquei completamente parado com aquela ideia. Passou um tempo, eu liguei e falei: “Vamos falar de Rock in Rio”. Sentamos, começamos a conversar, e ele disse: “Ó, vou preparar um showzinho para você”. E eu: “Cara, quero te chamar para outra coisa. E se você cantasse Motown? Um show só com Stevie Wonder, Michael Jackson, Jackson 5?” Ele olhou e falou: “Vai ser muito louco. Eu quero!” — conta. Zé Pediu a Péricles uma lista de suas 40 músicas favoritas da Motown e daí eles selecionaram 13. Em seguida, montou uma banda, comandada por Maurício Piassarollo, Helton Fagundes (guitarra), Jorge Ailton (baixo) e Wallace Santos (bateria), mais quatro vocalistas, um naipe com quatro sopros e a percussão de André Siqueira. Foram criados arranjos, a banda ensaiou tudo, Zé Ricardo gravou e mostrou o resultado para Péricles, que aprovou. O cantor, de 57 anos, conta que a Motown chegou para ele ainda quando criança, na periferia de São Paulo. — Eu me lembro de que pedi para minha mãe ouvir um samba do Stevie Wonder, que era “You are the sunshine of my life”. Ele tinha a construção, as harmonias (próprias de Stevie), mas a levada, o jeito de se tocar era samba. Então, esse samba já estava na minha vida há muito tempo — conta. — A Motown moldou o que a gente entende como música radiofônica, (no que se refere a) tempo de música, temas abordados. Então, nada mais justo que fazer essa homenagem. E outra: essa música está viva, está próxima da gente. São clássicos, que entraram para a cultura do mundo. A gente vai crescendo, e essa música vai cada vez mais fazendo parte da vida. O show, adianta Péricles, vai abranger todas as eras da Motown, sem esquecer “dos anos 90, que deu (o grupo vocal) Boyz II Men para nós”. O grupo que, por sinal, mostraria a receita do sucesso para jovens brancos como os Backstreet Boys e que influenciaria o samba paulistano do Exaltasamba (o seu grupo) e do Negritude Júnior. — Eu sugeri alguma coisa, o Zé também sugeriu muita coisa e, batendo o martelo, a gente chegou num grande repertório. São 13 músicas, o que é pouco para contar uma grande história, mas é um ponto de partida para que se estude mais sobre o assunto — diz Péricles. — Durante uma vida toda, a gente se prepara. Eu não sei o que vai acontecer, mas tenho a obrigação de estar preparado. Para mim, isso está sendo revelador, eu estou muito feliz, porque esse rhythm’n’blues é o samba deles, e agora a gente vai fazer esse samba. Para o cantor, as histórias se confundem. — De lá (da Motown), saem bandas como o Boyz II Men e daqui saem Negritude Júnior, Pixote, Katinguelê, Exaltasamba, Art Popular. É, são histórias que se juntam no mesmo caminho. Animado em contar a Péricles, à beira do piano, suas histórias com Frank Sinatra, Roberto Medina era só felicidade com mais esta novidade do seu festival: — A história do Zé com a gente é a do que faz o festival ser disruptivo, de tentar fazer o novo. Porque cada vez mais a música parece um show que você já viu, e aí ele produz coisas, como essa parceria que traz a Motown. Eu acho que vai ser incrível, isso tem tudo a ver com o inconformismo (do Rock in Rio).