Junior levantou a discussão sobre o impacto das novas ferramentas no processo criativo; Gabriel Nascimento analisa o que pode ser automatizado e por que a identidade artística continua dependendo do olhar humano 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Inteligência artificial na música: o que muda para compositores e artistas? Especialista explica — Foto: Magnific O avanço da inteligência artificial já chegou ao processo de criação artística e começa a alterar etapas que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente do trabalho humano. O impacto da tecnologia foi tema de uma conversa de Junior no #PapoDeSegunda, em que o cantor refletiu sobre os caminhos da música diante de ferramentas capazes de gerar textos, imagens, sons e diferentes formatos em poucos minutos. A discussão traz uma questão que ganha espaço entre artistas e profissionais da indústria: até onde é possível incorporar esses recursos sem diluir a identidade de quem cria? Para Gabriel Nascimento, sócio-fundador e diretor executivo da Novelo Produções, radialista e pós-graduado em Direção de Arte para Propaganda, a tecnologia deve ser entendida como uma aliada na execução de determinadas tarefas, e não como responsável pelas decisões que definem uma obra. Na avaliação dele, a principal transformação está no tempo necessário para colocar uma ideia em prática. "A IA está redesenhando a régua de tempo e custo da produção, não substituindo a essência criativa. Na Novelo, ela já entra em etapas de brainstorming inicial para roteiro, geração de referências visuais, edição e otimização de conteúdo para redes sociais, mas a captação, a direção de arte e a conexão emocional com o público continuam sendo humanas. O que muda é a velocidade: processos que levavam dias agora levam horas", explica. O que muda no trabalho dos criadores Uma das consequências mais imediatas da adoção dessas ferramentas é a redução do tempo gasto em atividades operacionais. Transcrição, decupagem, primeiras versões de roteiros e testes de formatos são alguns dos trabalhos que podem ser agilizados, segundo o especialista. Com isso, profissionais podem concentrar mais atenção nas escolhas que envolvem narrativa e estratégia. "A IA acelera tarefas repetitivas, como decupagem, transcrição, primeiras versões de roteiro e testes de formato, liberando tempo para que roteiristas e diretores pensem estratégia e narrativa. O risco real não é a IA substituir esses profissionais, mas empresas tentarem cortar etapas criativas achando que a ferramenta resolve sozinha", alerta. Para Gabriel, a diferença está na maneira como o recurso é incorporado à rotina. Usá-lo para encurtar etapas pode ampliar a produtividade; tratá-lo como solução para todo o trabalho, por outro lado, pode comprometer o resultado. "Quem trata IA como atalho perde qualidade; quem trata como aceleradora de processo ganha competitividade", resume. Em quais etapas a tecnologia já pode ser usada A presença desses recursos vai além da geração de textos. Hoje, eles podem participar de diferentes momentos da produção, desde a elaboração de pautas e roteiros até a criação de referências visuais, edição, legendagem, tradução e análise do desempenho de publicações. Também já é possível fazer pré-visualizações de cenas antes da gravação. "Já é possível ver IA atuando em geração de roteiros e pautas, criação de moodboards e referências visuais, edição automatizada, tradução e adaptação de conteúdo para múltiplos idiomas, análise de performance de conteúdo para orientar próximas produções e até pré-visualização de cenas antes da captação. O que ainda é insubstituível é a direção de atores, a captação em si e a leitura sensível do que gera identificação real com uma audiência", detalha. O que continua dependendo do olhar humano A questão central, portanto, não está apenas no que a ferramenta consegue fazer, mas em quais decisões devem continuar sob responsabilidade de quem está por trás da obra. Para Gabriel, repertório, experiência e vivência são elementos que não podem ser reduzidos à execução de uma tarefa. "O equilíbrio está em usar a IA para ganhar tempo, não para ganhar voz. Conteúdo que conecta vem de vivência, de detalhe humano e de imperfeição controlada, coisas que uma ferramenta não tem histórico para replicar. Na prática, isso significa usar tecnologia nas etapas operacionais e proteger as etapas de decisão criativa, o que contar, como contar e por que contar, como território estritamente humano", defende. A mesma discussão se aplica à música. Ferramentas capazes de produzir ou modificar elementos sonoros podem ampliar as possibilidades disponíveis aos artistas, mas não eliminam a necessidade de uma escolha autoral. A tecnologia pode participar da execução; a definição do que o artista quer comunicar continua sendo uma questão de identidade. Uma mudança na disputa por identidade Na avaliação do especialista, a transformação provocada pela IA deve alterar também a dinâmica do mercado criativo. Com ferramentas mais acessíveis, produzir em grande volume e a baixo custo tende a deixar de ser um diferencial. Nesse cenário, a identidade de cada profissional ou empresa ganha ainda mais peso. "Prefiro pensar como uma nova era atrelada a um período de reestruturação. A IA vai separar quem produz conteúdo genérico de quem produz conteúdo com propósito e identidade. Para produtoras que já têm um jeito de contar histórias, ela é uma alavanca. Para quem competia só por volume e custo baixo, ela é, sim, uma ameaça, porque o volume e o custo baixo agora estão ao alcance de qualquer um", conclui.
IA pode substituir compositores? Especialista explica os limites da tecnologia na música
Junior levantou a discussão sobre o impacto das novas ferramentas no processo criativo; Gabriel Nascimento analisa o que pode ser automatizado e por que a identidade artística continua dependendo do olhar humano






