Enquanto o volume total de oportunidades avançou apenas 1,2%, anúncios que citam IA mais que dobraram no primeiro semestre e começam a mudar os critérios de seleção das empresas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Divulgação — Foto: Divulgação A inteligência artificial começa a deixar de ser apenas uma ferramenta utilizada nos processos seletivos para se tornar também uma competência procurada pelas empresas. Levantamento do Infojobs mostra que o número de vagas que mencionam IA cresceu 142,8% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Entre janeiro e junho de 2025, 584 oportunidades publicadas na plataforma faziam alguma referência à inteligência artificial. No primeiro semestre deste ano, o número chegou a 1.418. No mesmo intervalo, o total de vagas incluídas no Infojobs passou de 383.829 para 388.378, alta de apenas 1,2%. Com isso, a participação das oportunidades que mencionam IA no conjunto de anúncios avançou de 0,15% para 0,37%. Embora ainda representem uma parcela pequena do mercado, essas vagas cresceram em um ritmo muito superior ao observado no volume total de oportunidades. O movimento indica que a inteligência artificial começa a ser incorporada às descrições de vagas não apenas como uma especialidade restrita à área de tecnologia, mas como uma competência aplicada a diferentes funções. Em muitos casos, as empresas procuram profissionais capazes de utilizar essas ferramentas para pesquisar, organizar informações, produzir conteúdos, analisar dados e aumentar a eficiência das atividades. Para Hosana Azevedo, Gerente de RH da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, o crescimento mostra que a inteligência artificial começa a deixar de ser uma competência restrita às áreas de tecnologia. "Cada vez mais, o mercado tende a valorizar profissionais que saibam incorporar a inteligência artificial à rotina de trabalho, independentemente da área de atuação. Isso não significa apenas saber utilizar uma ferramenta, mas entender como aplicá-la para resolver problemas, ganhar eficiência e apoiar decisões. A capacidade de analisar criticamente o que a tecnologia entrega passa a ser tão importante quanto o próprio uso da IA", afirma Hosana. A transformação ocorre também do lado dos candidatos. Ferramentas como o ChatGPT passaram a ser usadas para revisar currículos, estruturar cartas de apresentação, pesquisar empresas, preparar respostas para entrevistas e identificar oportunidades mais compatíveis com o perfil profissional. O próprio aplicativo do Infojobs já pode ser conectado ao ChatGPT, permitindo que o usuário consulte vagas por cargo e localização em formato conversacional e seja direcionado à plataforma para concluir a candidatura. Em uma segunda etapa, a empresa prevê aprimorar a apresentação dos resultados e permitir também a inscrição por meio do assistente. A adoção dessas ferramentas, no entanto, também amplia o desafio das áreas de Recursos Humanos. Currículos mais bem escritos ou cartas de apresentação mais estruturadas tendem a perder força como elementos isolados de diferenciação, já que podem ser produzidos ou aperfeiçoados com auxílio de inteligência artificial. "Se a tecnologia facilita a construção de um currículo ou a preparação para uma entrevista, o processo seletivo precisa avançar na mesma direção. O desafio do RH passa a ser identificar o que realmente pertence ao repertório daquele profissional, como ele transforma informação em ação e de que forma utiliza a tecnologia com senso crítico e responsabilidade. Mais do que respostas bem formuladas, as empresas precisam buscar evidências concretas de competência", explica. Nesse cenário, os processos seletivos passam a depender mais da capacidade de verificar a consistência entre o material apresentado, a experiência do candidato e seu desempenho nas diferentes etapas da seleção. Perguntas baseadas em situações reais, exemplos concretos de utilização da tecnologia e demonstrações práticas ganham relevância na avaliação. Para os candidatos, o uso da IA pode contribuir para organizar melhor as informações e tornar a comunicação profissional mais clara. O risco aparece quando a ferramenta produz uma candidatura genérica, exagera competências ou apresenta experiências que o profissional não consegue sustentar durante a entrevista. Para as empresas, o desafio é diferenciar o uso estratégico da tecnologia da simples reprodução de respostas prontas. Mais do que saber utilizar uma ferramenta, passa a importar a capacidade de compreender o problema, revisar o conteúdo gerado, validar informações e assumir responsabilidade pela decisão final. O crescimento das vagas que mencionam inteligência artificial sugere, portanto, uma mudança gradual nos critérios de empregabilidade. A tecnologia deixa de ser apenas um recurso de apoio e começa a integrar o repertório esperado dos profissionais, ao mesmo tempo em que obriga o RH a buscar formas mais concretas de avaliar competências.