Cinco noivas e um casamento: a amizade como um sentimento mais real - e mais subversivo - que o amor 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Alice e Marie-Sophie fundaram o 'Oráculo da Amizade' para estimular amigos a partilhar casa e vida — Foto: Reprodução Instagram Florence Brochoire/Libération Com um buquê de flores secas nos braços, a primeira noiva irradia em suas rendas brancas. A segunda usa blusa fina e calças compridas. A terceira, uma saia de amarrar; a quarta, um vestido longo todo transparente; a quinta, um traje curto com gola Mao. Na cerimônia simbólica, cinco noivas, mas um único casamento. Ou melhor, um “amigamento” (amigos + casamento), como as francesas Zoé, Lehana, Marie, Juliette e Jeanne o batizaram. “Amiage” no lugar de “mariage”. O grupo de amigas jurou apoio e assistência mútua, para a vida toda, diante de famílias e amigos. O namorado de uma delas foi testemunha. “Celebramos formaturas, batizados, casamento. Mas não há espaço para festejar a amizade”, conta Zoé, de 27 anos. “A festa é uma promessa: se não quisermos nos perder, como acontece depois dos estudos, precisamos organizar isso, não deixar ao acaso”. “Alugamos apartamentos próximos. Nós nos priorizamos mutuamente. Ajudamos umas às outras a mudar de casa, nos apoiamos quando estamos doentes…Nossos pais achavam que isso ia passar, Mas não queremos nos deixar levar pelo que a sociedade quer: o isolamento no casal e na família.” Essa é parte de reportagem de capa do jornal Libération. A manchete: ‘L’amitié, um nouveau mode de vie’. Por que, num mundo hiperconectado, a amizade ganha esse status todo? Talvez porque amigos no Face e no Instagram não sejam nada disso. Grupos no WhatsApp também não. Quantas pessoas te procuram para saber como você está? Oferecer ajuda? E não para pedir alguma coisa? Quantos sentem saudade de sua companhia? E você, procura alguém? Telefona? rsrsrs A hiperconexão é uma ilusão. Contamos nos dedos da mão as amizades reais. Por isso o Libé publicou artigos e entrevistas com pessoas que decidiram colocar a amizade como prioridade número um. Na amizade verdadeira, não há hierarquia nem relação de poder. O gostar, aí, é desinteressado. As mulheres saem bem à frente dos homens no cultivo da amizade. Dividem intimidades, confissões e ajudas. Amigos homens têm uma vantagem: são menos críticos, você já reparou? Para driblar a epidemia da solidão, a moda do co-housing se alastra. São cada vez mais populares as comunidades entre os que têm mais de 60 anos, na serra, no campo ou na praia. Aposentados, ativos ou não, decidem partilhar o wi-fi e uma terra com vizinhos que envelhecem parecido. Mas o Libé escapa da fórmula 60+ e analisa as amizades no povo de 30, 40 anos. Substituindo parceiros amorosos e sexuais. Isso aí diz muito da falência da família nuclear como única forma de viver. Pai, mãe, filhos. Ou dois pais, ou duas mães, ou mãe solteira, o que seja. Também diz muito da troca do amor romântico, com suas desilusões, traições e cobranças, pela parceria mais livre e menos egoísta da amizade. Amigos também brigam. Mas somos mais tolerantes com as diferenças de amizades que de amores. No meu caso, desde que não sejam bolsonaristas, aceito até quem fuma tabaco sem soprar a fumaça na minha direção. O problema é a mania do francês de estragar com burocracia. Cerimônias. Contratos. Heranças. Entre amigos e amigas. Mas acho válido dar visibilidade a um sentimento que pode ser mais subversivo que o amor. Nos anos 70, a filósofa Hannah Arendt dizia que a amizade não era apenas um sentimento íntimo, mas político, comum e compartilhado. Exaltava a “philia”, amor fraterno entre cidadãos, como condição para o bem-estar. O mesmo pregava Aristóteles na Grécia Antiga. Somos animais sociais. O ser humano tem uma inclinação natural para viver em comunidade. De preferência, longe do barulho, da violência e da desordem. Vamos perseguir a utopia. Viver é melhor que sonhar.