Há desde distintivos de relacionamentos, como o poliamor hierárquico, não-hierárquico e solo, até nomes para dinâmicas intrínsecas a essas vivências, como o aninhamento e o metamor 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Poliamor cresce no Brasil e muda a forma de se relacionar — Foto: Freepik Fechado já não dava certo. Aberto demais seria assustador. Demorou um tempo até que a publicitária Kássia da Matta, de 28 anos, encontrasse um formato de relação que a deixasse satisfeita e segura. Primeiro, tentou abrir um namoro que durou cerca de dois anos, ainda tateando receios ante aos afetos do parceiro. “Comecei a perceber sentimentos de posse em mim que eu questionava, mesmo ele sendo o monogâmico”, comenta a mineira, que passou a considerar ficar só com pessoas poliamorosas. “A ideia era encontrar gente interessada em desconstruir os padrões tradicionais de relacionamento.” Hoje, após outras experiências, Kássia se encontrou no “poliamor não-hierárquico”. Ou seja, se relaciona com um casal e outro rapaz, sem privilegiar uma das partes. Entre eles, são todos igualmente importantes. “Acho que isso combina comigo porque quebra certas instituições, como o casamento e o patriarcado e foca mais na liberdade feminina e na distribuição do cuidado.” As convicções da publicitária respondem a algumas das cem perguntas do recém-lançado livro-caixinha (exemplar interativo, geralmente pequeno, formado por cartas ou fichas com perguntas ou atividades sobre um determinado tema) “Relações abertas e não-monogâmicas”, da psicóloga Deborah Landim. Publicada pela editora Matrix, a obra joga luz a diferentes formatos de relacionamento não-monogâmicos e reflexões sobre o assunto. “É um produto voltado, principalmente, para a comunicação entre as pessoas que estão adentrando nesse universo complexo”, afirma a autora. Há desde distintivos de relacionamentos, como o poliamor hierárquico, não-hierárquico e solo, até nomes para dinâmicas intrínsecas a essas vivências, como o aninhamento e o metamor (veja o glossário no final da matéria). A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, que estuda a não-monogamia desde os anos 1990, também destaca uma emoção pouco conhecida e oposta ao ciúme: a compersão, sensação de felicidade genuína em ver o parceiro amando e se relacionando com outra pessoa. “Os casamentos abertos têm muitos nomes porque é tudo uma novidade. Cada rótulo ajuda a definir os pactos, os limites e as expectativas, e atende a necessidades amorosas e sexuais diferentes”, explica a especialista. “Vejo que abrir ou não a relação é um dos maiores desafios dos casais atualmente. Muitos deles partem para novas experiências sem ter os parâmetros adequados.” Esse, definitivamente, não é o caso da psicóloga Rachel Clemente, de 26 anos, que está “aninhada” com um rapaz e mantém namoros com outras pessoas. “Conheci a não-monogamia em 2018 e vi que me sinto confortável num modelo sem exclusividade e hierarquias, o que não me impediu de formar família. Moro com um homem, temos um filho de 1 ano, e ainda sim gozamos de liberdade afetiva”, explica a carioca. A terapeuta de casal Gisele Aleluia não vê na iminência da não-monogamia um sinal de crise do modelo tradicional, mas lembra que é importante a manutenção dos acordos nas relações em que há exclusividade. “Não aprendemos a fazer combinados. Ainda estamos entendendo como comunicar o que queremos, ouvindo a mesma coisa do outro sem que aquilo seja uma ameaça”, reflete Gisele. Glossário Relacionamento aberto: Quando o casal concorda que se envolver sexual ou romanticamente com outras pessoas não configura traição. Poliamor hierárquico: Dividir os parceiros em níveis de importância e prioridade. O laço principal é chamado de “primário”, enquanto outros são tratados como “secundários”. Poliamor não-hierárquico: Formato no qual o indivíduo se relaciona com dois ou mais parceiros sem privilegiar uma das partes. Poliamor solo: Relacionamento com a liberdade do solteiro mas com compromisso e responsabilidade afetiva com os diversos parceiros. Anarquia relacional: Abordagem que horizontaliza a importância entre relações afetivas, sejam elas amorosas ou de amizade. Aninhamento: É a relação com a pessoa com quem se divide a casa, as contas, a vida em comum, mas sem exclusividade amorosa ou sexual. Metamor: Termo usado para definir “o parceiro do seu parceiro”. É a pessoa que tem um relacionamento íntimo com quem você ama. Compersão: Sentimento oposto aos ciúmes. Ficar feliz em ver o parceiro se relacionando com outra pessoa.