Quase metade das rodovias estaduais de São Paulo é administrada por empresas privadas. Nos trilhos, das 15 linhas de trem e metrô, nove são operadas por concessionárias. O setor privado também opera 14 travessias por balsas, os serviços de água, gás e luz, além de parques e equipamentos esportivos. Habitações sociais e até escolas são construídas por parcerias público-privadas (PPPs). É neste cenário que concessões e privatizações viraram um grande tema da eleição ao governo de São Paulo, com o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de um lado, prometendo uma ampliação do modelo — mas também mudando de ideia em casos, como a Linha 17 (Ouro) do Metrô — e Fernando Haddad (PT), de outro, defendendo maior fiscalização nos contratos e mais transparência. Além disso, o petista se posiciona contra a gestão privada em alguns casos, como nas escolas da rede pública. O tema virou tema central em debates, sabatinas e entrevistas. Concessões e PPPs em São Paulo — Foto: Editoria de Arte Tarcísio defende seguir com seu programa de privatizações e concessões, diz que esses projetos são feitos “por necessidade”, para garantir investimentos que o poder público não conseguiria bancar ou para melhorar a gestão. No caso da Sabesp, argumenta que a privatização vai garantir a universalização do saneamento e, na mobilidade, justifica que as concessões viabilizam a expansão ou construção de linhas de trem e modernização das estações e trilhos já existentes. Nas escolas, a justificativa é que as PPPs tornam apenas a gestão privada; a parte pedagógica segue sob a Secretaria da Educação. Se reeleito, promete ampliar parcerias na educação, habitação e mobilidade. O candidato do PT, por sua vez, critica o que chama de “onda privatista” do adversário, apontando um saldo negativo na venda da Sabesp à Equatorial (cuja licitação teve apenas um concorrente) e falhas nas linhas de trem concedidas à iniciativa privada. Haddad, entretanto, não diz que vai reestatizar a empresa de saneamento nem romper concessões, se eleito, ressaltando a necessidade de respeitar contratos e garantir a segurança jurídica. Para um eventual mandato, a promessa é de um pente-fino nas concessões e maior rigor nas fiscalizações. Vitrine e vidraça Hoje, são 11,5 mil quilômetros de rodovias estaduais concedidas, 33 escolas contratadas para serem construídas e geridas por PPPs e dez parques sob administração privada. O gás natural é distribuído por três concessionárias em todo o estado, para mais de três milhões de usuários. Na seara do saneamento, 380 municípios têm serviços de água e esgoto regulados pelo estado, sendo que a maioria (376) são da Sabesp. A distribuição de energia está sob sete concessionárias — nesse caso, apesar de serem concessões federais, a Arsesp, agência reguladora de São Paulo, pode ajudar na fiscalização quando demandada pela União. Também são contratos geridos pelo estado o do Novo Centro Administrativo, cujo consórcio responsável, MEZ-RZK, vai construir e operar por 30 anos o complexo de 250 mil metros quadrados de área construída; e o Túnel Santos-Guarujá — a Mota-Engil vai construir e operar, um contrato de 30 anos. Tarcísio tem nas privatizações e concessões uma de suas principais vitrines, sendo a venda da Sabesp a principal delas, junto a projetos de rodovias e de transporte público. Mas a vitrine também vira vidraça: linhas de trem e metrô enfrentaram falhas frequentes, incluindo ocorrências mais graves de descarrilamentos e explosões. O caso mais recente, a explosão de um vagão de passageiros na Linha 12 (Safira) fez com que o governo retornasse a gestão do ramal para a CPTM, apenas três dias após a concessão. — Por que a gente fez a concessão? Não é concessão por concessão. Na CPTM, 80% do recurso era voltado para despesa de pessoal, é uma empresa dependente, e serão feitos (com a concessão) investimentos nas estações, na acessibilidade, nos trilhos — falou durante sabatina do jornais O GLOBO, Valor e Rádio CBN. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, durante sabatina dos jornais O GLOBO e Valor e da rádio CBN — Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo Com relação à Sabesp, o principal percalço foi a alta de reclamações, que passaram de 5.774 em 2024 para 12.498 em 2025, a maioria delas referente a faturamento ou cobrança indevida. Nos parques, a Urbia pediu para devolver o Horto Florestal, na Zona Norte de São Paulo, por não ter conseguido rentabilizar a operação. Para um eventual segundo mandato, a concessão das linhas metroferroviárias segue nos planos. Haddad tem explorado essas problemáticas e promete reforçar a estrutura das agências reguladoras e fazer uma “cobrança rigorosa, com as sanções previstas em contrato, para quem não entrega”. Na última terça-feira, durante Fórum Eleições 2026, promovido pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base, Haddad disse que as “indicações precisam ser mais técnicas e menos políticas”: — Morreram três pessoas em obras da Sabesp, bairros inteiros que não têm água. Quando chega água, às vezes, chega suja. Os trens com 27% a mais de falhas do que antes da privatização. E o que aconteceu do ponto de vista do contrato, de multa, de aditivos, de compromisso, de ações judiciais? Está tudo muito frouxo. Fernando Haddad em sabatina de O Globo/Valor/CBN em 19/9/2026 — Foto: Maria Isabel Oliveira/O Globo O ex-ministro da Fazenda tem ressaltado, porém, que é favorável a PPPs, concessões e privatizações, e que defende marcos regulatórios e “contratos mais bem feitos”. Ele já chegou a propor novas métricas de remuneração para as concessionárias. Em sabatina dos jornais O GLOBO, Valor e da Rádio CBN, ele sugeriu uma mudança nos pedágios, para torná-los mais caros quando são necessárias obras, como duplicações de rodovias, mas reduzir o valor depois que as melhorias são concluídas. Especialistas em gestão pública afirmam ao GLOBO que as concessões não reduzem as responsabilidades do Estado, mas mudam seu papel: em vez da operação direta, cabe ao poder público formular contratos e fiscalizar a prestação dos serviços. — As concessões pressupõem um poder público forte para fazer um acompanhamento cuidadoso e detalhado do cumprimento dos contratos. (...) Não reduz as atribuições do setor público — diz Vera Monteiro, professora de Direito Administrativo da FGV, ressaltando que a fiscalização precisa ser reforçada com o avanço das concessões. Entre os desafios apontados estão o fortalecimento das agências reguladoras, com mais concursos, autonomia e corpo técnico qualificado para garantir uma fiscalização independente. Guilherme Naves, sócio da Radar PPPs, também defende maior autonomia orçamentária das agências e mais transparência: — O simples fato da natureza pública desses documentos não traz transparência. É preciso um esforço de comunicação para mostrar como as coisas estão acontecendo.
Propostas e desafios: do transporte às escolas, concessões e privatizações pautam a campanha em São Paulo
Defensor do modelo, Tarcísio argumenta que iniciativa privada entrega qualidade de serviço que o Estado não consegue, o que é questionado por Haddad; petista defende mais rigor na fiscalização de contratos






