Em 2022, a Europa descobriu o custo de depender demais de um único fornecedor de energia. A vulnerabilidade vinha de antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, mas se tornou um problema real naquele momento. A participação russa no abastecimento de gás da União Europeia havia passado de cerca de 30% em 2010 para mais de 45% em 2019. No fim de 2021, os estoques do bloco estavam no nível mais baixo em quase uma década. Com a guerra, as importações de gás russo por gasodutos foram cortadas pela metade em 2022. No verão daquele ano, o preço do gás no mercado europeu multiplicou-se, em média, quatro vezes em relação ao mesmo período do ano anterior. E o inverno, quando se consome mais energia para o aquecimento, estava a poucos meses no horizonte. Até hoje a Europa tenta reorganizar seu balanço energético enquanto tenta conter a Rússia com sanções e ajudar a Ucrânia com armamentos. Navios ancorados no Estreito de Ormuz: guerra a região que concentra um quarto do comércio internacional de petróleo virou crise energética — Foto: AFP Em março deste ano, o bloqueio do estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, pelo Irã em resposta a ataques de EUA e Israel voltou a colocar no centro das discussões a segurança energética. O fechamento de uma rota por onde passou, só em 2025, um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo, fez disparar a cotação internacional do barril, com consequências econômicas em praticamente todos os países. Foi uma evidência de que, no momento em que o mundo tenta reduzir as emissões de carbono para conter o aquecimento global, o petróleo ainda tem uma importância central no balanço energético global. — Esses países usam gás e petróleo como arma econômica, ou como arma bélica — observa Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) do Instituto de Economia da UFRJ, sobre grandes produtores envolvidos em conflitos. Para o especialista, essa dependência global do petróleo, projetada para perdurar ainda por décadas, ajuda a explicar por que Europa e China estão entre os principais motores da transição energética no mundo atualmente, investindo muito no desenvolvimento de fontes renováveis de energia: — Quem puxa a transição energética do ponto de vista de investimentos em novas tecnologias, em ampliação da capacidade instalada, são Europa e China. E por que fazem isso? Porque estão na mão dos produtores de petróleo e gás. Nivalde de Castro, pesquisador da UFRJ, fala em evento no Rio — Foto: Leo Martins Castro aponta evidências cotidianas desse esforço para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, como o acelerado avanço chinês na indústria de carros elétricos. O país asiático é hoje o maior mercado de veículos movidos por baterias do mundo, responde por mais da metade das vendas mundiais, e já tem montadoras de alcance global. Maior incentivo à transição A Europa, por sua vez, acelera investimentos em energia limpa. Investiu em 2021 — antes da invasão da Ucrânia — cerca de US$ 260 bilhões nessa área. Em 2025, após o impacto da guerra no seu suprimento energético, o volume chegou a quase US$ 390 bilhões. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), esse avanço de quase 50% está associado à crise provocada pelo corte do gás russo, além dos novos incentivos e da queda no custo das tecnologias renováveis. Em todo o mundo, a AIE estima que US$ 3,4 trilhões devem ser investidos em energia em 2026. Desse total, cerca de US$ 2,2 trilhões devem ir para redes, armazenamento, fontes renováveis, geração nuclear, combustíveis de baixa emissão, eficiência e eletrificação, quase o dobro do aporte em petróleo, gás e carvão, que somarão US$ 1,2 trilhão. Para a agência, parte desse incremento está ligado à busca por maior segurança energética (leia mais sobre na página 7). A geopolítica acabou se tornando, neste momento, um vetor de aceleração da descarbonização da geração de energia, urgência no combate às mudanças climáticas que tem sido renovada em conferências globais como a COP30, realizada no fim de 2025 no Brasil. O país, embora um crescente exportador de petróleo que acaba de identificar óleo num poço na promissora Margem Equatorial, no litoral norte, também trata a transição energética como prioridade. E não só pelo viés ambiental. Em janeiro, o presidente Lula frisou que o país precisa assegurar sua soberania energética. — Não podemos ficar dependendo de nenhum país do mundo e de tecnologia de outros países — afirmou. O Brasil tem uma posição muito mais confortável na oferta e na composição de suas fontes de energia em relação à maioria dos países. Só na geração de eletricidade, quase 87% vieram de fontes renováveis no ano passado, segundo o Balanço Energético Nacional, mas só 49,5% da matriz energética total foram de fontes limpas. O desafio brasileiro já não está tanto na eletricidade, mas na substituição dos combustíveis fósseis nos transportes e em outros usos. O país sofre os impactos da nova geopolítica mundial na energia. Produz mais petróleo do que consome, consolidando-se como exportador, mas ainda importa derivados, principalmente óleo diesel, porque não tem capacidade de refino suficiente para suprir a demanda interna. No ano passado, 23% do combustível consumido aqui veio de fora, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME). O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira — Foto: Ton Molina/Bloomberg A disparada da cotação internacional do petróleo — e dos combustíveis em consequência — provocada pelo conflito no Oriente Médio levou o governo brasileiro a subsidiar o preço dos combustíveis no mercado interno para conter a inflação. Essa situação não ofusca a posição do Brasil de grande produtor de energia. O problema está no que o país produz e no que precisa consumir. Para o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, a transição energética no país “será gradual, com diferentes tecnologias convivendo por décadas”. — O Brasil tem uma vantagem muito particular nessa nova geopolítica da energia: não precisamos escolher uma única rota — diz. Etanol tem papel estratégico Parte dessa estratégia nacional passa por substituir combustíveis importados por produção nacional, com a expansão da capacidade de refino no longo prazo, mas também pelo aumento da participação das fontes renováveis. Uma das medidas adotadas recentemente pelo governo nesse sentido é a elevação temporária de 30% para 32% da mistura obrigatória de etanol na gasolina. O MME estima que a mudança pode reduzir em 900 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina. O etanol é produzido no país principalmente da cana-de-açúcar e do milho. Além da mistura do anidro na gasolina, o hidratado vendido diretamente na bomba para abastecer os motores flex dos carros brasileiros ficou mais competitivo no atual cenário. Aumento da mistura do etanol na gasolina colabora para a redução do consumo de combustíveis fósseis do país — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo A Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, criou incentivos em outras frentes, como o desenvolvimento de combustível sustentável de aviação (SAF), de diesel verde e de biometano. O hidrogênio de baixa emissão teve o marco legal próprio no mesmo ano. Os investimentos em geração de energia elétrica limpa nos últimos anos colocam o país na rota de projetos que precisam desse insumo. Só no Nordeste, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) identificou o interesse de 30 projetos de data centers e outros 21 ligados à produção de hidrogênio até 2038. São atividades que consomem muita energia e precisam de fornecimento contínuo com baixo impacto ambiental. É um caminho para o melhor aproveitamento do salto na geração de energia limpa dos últimos anos. Atualmente, o país tem sido obrigado a cortar parte da geração solar e eólica em determinados períodos para manter o equilíbrio com a demanda no sistema elétrico, o que aumenta os incentivos para mais investimentos em transmissão e novas tecnologias de armazenamento. Minerais críticos: nova frente Se o petróleo influenciou tanto a geopolítica desde século XX, um novo elemento começa a ocupar lugar central na atual dinâmica energética global: o acesso aos chamados minerais críticos, usados nas tecnologias de baixo carbono, ganha peso estratégico. São insumos decisivos para a indústria de baterias, turbinas, painéis fotovoltaicos, redes e outros equipamentos. O Brasil possui reservas importantes, mas Silveira defende que o país não repita o papel de mero fornecedor de matéria-prima: — Nosso objetivo não pode ser simplesmente extrair e exportar minério. Precisamos agregar valor, avançar no beneficiamento, no refino, na produção de materiais e componentes e transformar essa riqueza mineral em indústria, inovação, empregos qualificados e desenvolvimento tecnológico no Brasil. Nivalde de Castro, da UFRJ, também vê chances de o país aproveitar melhor essa condição: — Essa é a oportunidade criada por essa nova geopolítica. Podemos deixar de ser apenas um país, enfim, com recurso energético abundante, para nos tornarmos um fornecedor de energia e de produtos industriais de baixo carbono.