Imagine comprar uma televisão em São Paulo e descobrir que o manual de instalação é em inglês. Felizmente, a lei brasileira impede que isso aconteça. Mas se dependesse do time de negociadores americanos reunidos com os canadenses em Washington, na semana passada, os mais de 9 milhões de habitantes da província francófona de Quebec não teriam mais a garantia de poder instalar eletrodomésticos seguindo instruções no seu idioma nativo.
A Constituição do Canadá determina que o inglês e o francês são os idiomas oficiais do país. Essa proteção é também uma defesa contra o movimento separatista da província cujo apoio, no momento, é o mais baixo das últimas décadas.
Mas o que é um impertinente aspecto de soberania nacional para assessores de um presidente que se diverte publicando mapas com o Canadá identificado como o 51º estado dos EUA? O ataque à proteção do francês em meios que incluem plataformas de streaming é só um detalhe do menu de exigências feito na reta final, embora, dias antes, Donald Trump anunciasse um "ACORDO!" iminente na rede social.
O colapso das negociações, decidido pelo primeiro-ministro Mark Carney pouco antes do prazo de meia-noite na sexta-feira (21), pegou Washington de surpresa. Testemunhos confirmam que as negociações para evitar um novo tarifaço entre os dois países descarrilaram de vez com a intervenção do abrasivo secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, que endureceu exigências especiais sobre aço e alumínio, sob pressão de lobistas de seu país.













