Morreu nesta terça (25) Dolly Parton, cantora e autora de uma das músicas mais cantadas do mundo para darmos voz a tudo que fica em nós quando um grande amor acaba: "I Will Always Love You". Composta em 1973, ganhou o mundo em 92 na voz de Whitney Houston em "O Guarda-Costas" com camadas e camadas de sofrimento, profundidade e impossibilidade de reparação diante de uma despedida.

A maioria de nós canta "I Will Always Love You" como Whitney: associamos o amor que ficará para sempre ao sofrimento e à falta irreparável que marcarão nossa existência dali para frente. Medimos o tamanho do amor pelo alcance de seu dilaceramento e nos tornamos fiéis à dor da ausência justamente para justificar a importância daquela presença.

"Para que rimar amor e dor?", pergunta Caetano Veloso. Rimar amor e dor é a forma que aprendemos a dar corpo a um sentimento tão potente quanto fragilizante. São feridas das quais insistimos em tirar a casquinha um momentinho antes que algo cicatrize. Voltamos em fotos, trilhas sonoras, memórias, indícios de que sempre amaremos aquela pessoa. Marcar a ausência é fazer do ausente presente. A saudade nos faz companhia.

Há aí um mecanismo masoquista e melancólico: cavucamos nossas próprias feridas para provar a nós mesmos que temos sentimentos profundos. Dilacerados, nos sentimos estranhamente fortes por carregar aquelas dores como prova de que o amor existiu e de que somos capazes de amar —capacidade que, daqui para frente, seguirá prejudicada, assim como nós. É exatamente assim que se perpetua o amor que a gente não quer abandonar.